340 – Os Meninos (1976)

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¿Quién puede matar a un niño? / Who Can Kill a Child? / Island of the Damned

1976 / Espanha / 107 min / Direção: Narciso Ibáñez Serrador / Roteiro: Narciso Ibáñez Serrador (baseado na obra de Juan José Plans) / Produção: Manuel Salvador / Elenco: Lewis Fiander, Prunella Ransome, Antonio Iranzo, Miguel Narros, María Luisa Arias, Luis Ciges

 

Sabe aqueles filmes que você assiste e durante ou ao término, exclama: PUTA QUE PARIU QUE FILME DO CARALHO? Peço perdão pelo palavreado, mas realmente é essa a expressão que mais se encaixa com Os Meninos, uma gema inestimável do terror setentista do espanhol Narciso Ibáñez Serrador.

Apesar do título de extremo mau gosto que ganhou no Brasil (que mais parece nome de um grupo masculino de axé, sei lá – mas não pior que o título dado por nossos irmãos portugueses: “Os Revoltados do Ano 2000”), Os Meninos, que em sua tradução literal é algo como “Quem Pode Matar uma Criança?”, é um terror completamente bizarro, sufocante, angustiante e assustador, funcionando como uma mistura de Os Pássaros de Hitchcock (uma das influências declaradas do diretor, extremamente percebível em certas cenas homenagens), A Aldeia dos Amaldiçoados e O Senhor das Moscas. Deve muito bem ter inspirado também Stephen King a escrever o conto As Crianças do Milharal, que viraria A Colheita Maldita.

Ibáñez, que escreve o roteiro e dirige sob o pseudônimo de Luis Peñafiel, inspirou-se no livro “El juego de los niños” do compatriota Juan José Plans. E desde o momento que você aperta o play, já dá para imaginar que o filme não tem o mínimo intuito de ser leve e condescendente com o espectador. Um aterrador documentário de 10 minutos, enxertado entre os créditos e um cantarolar infantil seguido de risadas, das mais macabras, mostra em diversos momentos da história da humanidade, principalmente durante as guerras, crianças mortas, doentes e subnutridas, tendo sua inocência retirada a fórceps e pagando o preço da selvageria dos adultos.

Lembranças do verão de 76

Lembranças do verão de 76

Logo a principal temática do filme se levanta: o que aconteceria se o jogo invertesse de lado, e um grupo de crianças, cansadas de maus tratos e das atuais condições de vida, resolvessem se voltar contra os adultos, interrompendo ainda cedo um ciclo que poderia completar-se e eles sofressem vítimas das atitudes infanticidas dos mais velhos? Como culpá-las? E se isso acontecesse, quem poderia matar uma criança? Essa é a pergunta chave do filme, e que irá afetar os personagens (todos eles, desde o casal de protagonistas até as vítimas), inertes à maldade infantil e sem poder de reação por não tratá-los como iguais no quesito crueldade e demência.

Bom, após essa introdução que já te deixa desconfortável no sofá, somos apresentados ao casal inglês Tom (Lewis Fiander) e Evelyn (Prunella Ransome). Marido e mulher grávida de seis meses resolvem fazer uma viagem de férias para uma ilha remota da Espanha. Ao chegar ao local, encontram uma garotada serelepe nadando em um calor agreste, e ao se enveredarem pela ilha, começam a suspeitar que algo está estranho, e do dia para noite, o local está deserto, o comércio às moscas e só algumas crianças são vistas pelas imediações. Pronto, só isso já é suficiente para você ficar com cagaço.

Enquanto Tom procura alguém, Evelyn acaba conhecendo uma garota, que fica acariciando sua barriga e logo desaparece, tal qual o gato de botas de Alice no País das Maravilhas, deixando só aquele sorriso sinistro no ar. Essa é uma cena chave para o macabro estopim de conclusão do longa. Pois bem, não demora muito para que Tom descubra que um plano maligno orquestrado pelas crianças e adolescentes foi colocado em prática e eles tenham matados todos os adultos da ilha, incluindo turistas europeus que estavam hospedados na pensão. Não quero contar mais nada para não estragar a surpresa deste filme, mas para se ter uma ideia, o que se segue é quase como A Noite dos Mortos-Vivos ou qualquer filme de zumbi moderno, porém trocando as criaturas rastejantes putrefatas por crianças sádicas (quase que possuídas por uma força maligna sobrenatural), fechando o cerco contra o casal, perseguindo-os como em uma insurreição púbere em busca de vingança.

Gravidez de risco

Gravidez de risco

E o elemento clima ajuda muito no desenrolar sufocante e aterrador do filme, com a fotografia clara estourando, já que foi filmado sob um calor escaldante, num ambiente árido e desolador, o que mostra a excelente capacidade técnica de Ibáñez, que já havia nos entregado o ótimo Internato Derradeiro, causando medo em plena luz do dia em um plano aberto (exceto na cena do confinamento que se passa à noite), ao contrário da grande maioria dos filmes de terror que sempre exploram a noite, a sombra e espaços fechados como a causa de maus e temores. Fora isso, explora o medo humano e a selvageria daqueles que deveriam ser doces por natureza, mas com o despertar inócuo de uma força psicopata fria e calculista e um plano maquiavélico de vingança traçado em escala mundial. E esse levante infantil fica ainda mais, digamos, compreensível aos nossos olhos quando sabemos que Tom e Evelyn, mesmo já tendo dois filhos, tentaram abortar o que estava no ventre nos estágios iniciais da gravidez.

Não tem como não morrer de medo daquelas crianças. Suas expressões faciais e corporais, a mistura da meiguice com a psicose de uma cena para outra, a forma como trabalham para ludibriar adultos através de falsos sentimentos e uma espécie de consciência coletiva que age sobre um grupo díspar e sem liderança, que pode muito bem ter algum viés sobrenatural ou não, que nunca se explica, mas deixa-se uma sensação desconfortável principalmente na cena quando a grávida Evelyn começa a sentir o feto tentando matá-la por dentro. É uma metáfora para o “atire antes e pergunte depois”, como se todas as crianças, por meio de guerras, miséria, conflitos separatistas, ganância, confrontos políticos e religiosos, fatidicamente se tornariam vítimas, então resolvem apenas seguir as leis darwianas e deixarem de serem elementos passivos, agindo de forma premeditada.

Os Meninos é um filme com um final revoltante, principalmente pela ingenuidade e inépcia dos adultos, e pelo poder controlador de manipulação infantil. Você não sabe se deve torcer para as crianças, ou para o casal. Ibáñez joga muito bem com o público e entrega uma obra controversa e chocante, com certeza, uma das melhores da década. Trocando em miúdos: UM FILME DO CARALHO.

Uma galerinha da pesada aprontando altas confusões

Uma galerinha da pesada aprontando altas confusões

Serviço de utilidade pública:

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

6 Comentários

  1. Daniel disse:

    Excelente filme…
    Os meninos vão embora para o continente até chegarem a América onde acontecem os eventos da Colheita maldita.

  2. João Paulo disse:

    Conheci o blogue há poucos dias e já estou vidrado nas dicas e adorando as excelentes críticas!

    Acabo de assistir o filme e diante do desconforto passei a me questionar sobre qual seria minha reação se uma situação parecida com essa acontecesse comigo…Acho que já sou vítima da “Sindrome do mundo cruel”…rs

    Amigo, tens mais um fã!!!

    • Oi João Paulo. Poxa, fico super feliz de você ter gostado do blog e estar vidrado nas dicas. Espero que continue acompanhando e comentando por aqui!!!!

      Obrigado pelo carinho.

      Abs

      Marcos

  3. Demencia13 disse:

    Sempre paguei um pau pro final deste filme. É desesperador ver o cara gritando em um misto de raiva, medo, ira e pânico ‘Son niños, son niños…’ e a cara de bunda que o policial (Aparentemente o Dedé Santana ou um clone) faz ao ver que se fudeu pouco antes de subirem os créditos. Este é um daqueles filmes obscuros que poucos ouviram falar e só quem é já assistiu. Não é para fãs de terror que nasceram nos anos 2000 e se borram de medo ao assistir Walking Dead e se julgam sábios porque entenderam Wayward pines (Tem o que entender?)

  4. Giovan disse:

    Kd o link pra baixar esse filme????

  5. Liz disse:

    Cadê o link do filme? Preciso vê-lo

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