346 – Emanuelle e os Últimos Canibais (1977)

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Emanuelle e gli ultimi cannibali / Emanuelle and the Last Cannbals

1977 / Itália / 85 min / Direção: Joe D’Amato / Roteiro: Joe D’Amato, Romano Scandariato / Produção: Gianfranco Couyomdjian / Elenco: Laura Gemser, Gabriele Tinti, Nieves Navarro, Donald O’Brian, Percy Hogan, Mónica Zanchi

 

Quem é fã do cinema de terror conhece o nome de Joe D’Amato. Um dos mais picaretas, controversos e, digamos, geniais diretores do cinema exploitation dos anos 70 e 80, D’Amato, ou Aristide Massaccesi, seu nome de batismo, era uma máquina em forma de diretor. Tem 200 filmes em sua filmografia (entre terror, western spaghetti, sci-fi, soft e hardcore porn – todos de gosto duvidoso) e topa qualquer parada, qualquer orçamento e qualquer tempo de filmagem estipulado.

Mas para a mim, a veia mais saltada de D’Amato é o oportunismo. Tudo que renderia uns trocados e estivesse na crista da onda na época, ele usava seu olhar clínico para fazer um filme à altura. E não poderia deixar de ser diferente com Emanuelle e os Últimos Canibais. Afinal, quer combinação mais caça-níquel do que os filmes eróticos da ninfomaníaca personagem criada pela francesa Emmanuelle Arsan no livro “The Joys of Woman”, eternizada pela atriz holandesa Sylvia Kristel no clássico Emmanuelle de 1974, e os filmes de canibal que começavam a se tornar um big hit na Itália setentista?

Os mais velhos têm todas as encarnações de Emanuelle em seu imaginário sexual. Eu mesmo, um pré-adolescente nos anos 90 com seus hormônios em ebulição, assistia a várias de suas aventuras sexuais (inclusive o infame Emanuelle: A Rainha da Galáxia) na saudosa Sexta Sexy, posterior Cine Privé, da Band. Mas enfim, devaneios da juventude à parte, Emanuelle e os Últimos Canibais traz aquela mesma fórmula básica de todos os filmes de canibais, misturado com doses cavalares de sacanagem entre a bela atriz javanesa Laura Gemser, a “Emanuelle Negra” e os demais personagens do longa.

Levando para o jantar

Levando para o jantar

A primeira meia-hora do filme é dedicado ao softcore, com algum ou outro elemento de suspense, e um começo que já chuta logo o balde mostrando uma enfermeira de um hospital psiquiátrico tendo o bico do peito arrancado a dentada por uma paciente que parece ter sido criada por uma tribo de canibais da floresta amazônica. Emanuelle, prolífica jornalista, infiltrada naquele manicômio para fazer uma matéria para o jornal que lhe emprega, descobre essa garota e seu faro para notícias a faz tentar tirar mais informações da paciente. Para isso Emanuelle faz o quê? Começa a bater uma siririca para ela. CLARO!!! É ASSIM QUE JORNALISTAS CONSEGUEM OS FUROS DE SUAS FONTES!!! PERFEITO!!!!

Após convencer seu editor de que uma viagem até a Amazônia para encontrar essa tribo perdida poderia render uma grande reportagem ao jornal, Emanuelle se associa ao famoso antropólogo, Prof. Mark Lester (Gabriele Tinti), com quem dá umazinha também, claro, e eles partem para o meio do mato. Junta-se à turma de expedicionários, a loirinha Isabelle Wilkes (Monica Zanchi), doidinha para bater bolacha com a beldade morena, a missionária freira Irmã Angela (Annamaria Clementi), o inescrupuloso casal em busca de diamantes Donald – o broxa (Donald O’Brien) e Maggie – a libidionsa (Nieves Navarro) e seu mucamo Salvadore (Percy Hogan).

O ambiente exótico da selva é pano de fundo para muita fornicação, tanto de Emanuelle com o Prof. Lester, com direito a vouyerismo de Isabelle se masturbando enquanto assiste ao coito dos dois; Maggie escapulindo para o meio do mato com o negão Salvadore já que seu marido é impotente e a emblemática sequência onde Emanuelle e Isabelle se banham no riacho, fitadas por um chimpanzé (hã??? Mas não há chimpanzé no Brasil!!!!) na patética cena em que o símio rouba um cigarro e o fuma enquanto as duas se tocam. Crueldade animal sempre presente no ciclo canibal italiano!

Nus com a mão no bolso

Nus com a mão no bolso

Pois bem, faltando meia hora para acabar a película, Joe D’Amato deixa de lado a sacanagem e aí sim começa o gore. Voltamos para o que estamos acostumados dos filmes sobre canibais (se bem que nudez frontal e safadeza há em todos, mas não em tamanha profusão) e perdidos na selva, um por um do grupo acaba sendo caçado pelos terríveis nativos da suposta tribo extinta dos Apiacás, e dá-lhe tortura, decapitação, evisceração, castração, estupro e claro, canibalismo, com aqueles efeitos de maquiagem de quinta categoria.

Pelo menos um enfoque é bastante diferente das demais produções do subgênero, pois aqui o canibalismo é tratado como parte de uma essência ritualística da tribo, e não como a maioria, que o lance é comer carne humana como se fosse fast food mesmo. E antes do polêmico e chocante Cannibal Holocaust, de Ruggero Dedodado, o filme de D’Amato já começa a abrir as portas para todos os absurdos possíveis e imagináveis que seria marca registrada do ciclo. E no mesmo ano de 1977, Deodato dirigiria seu primeiro filme sobre o tema, O Último Mundo Canibal, lançado oito meses antes, que obviamente foi inspiração para este daqui.

Emanuelle e os Últimos Canibais é de uma taradice sem pudor, para fãs nenhum do sexploitation botar defeito. A quantidade de matagal de pelos pubianos presentes no filme consegue se equivaler a quantidade de matagal do meio da selva em que eles estão perdidos. E toda hora e lugar são propícios para a metelância. Fora a beleza peculiar e estonteante da Emanuelle Negra. D’Amato sabe explorar o corpo feminino e seus closes de forma impecável, assim como as cenas de violência extrema e brutalidade gráfica. O infame diretor tem ainda mais três filmes da personagem Emanuelle no currículo e mais tarde retornaria ao mashup entre terror e pornografia, mas dessa vez explícita, nos nababescos e toscos Erotic Nights of the Living Dead e Porno Holocaust.

Black Emanuelle

Black Emanuelle

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Emanuelle e os Últimos Canibais não foi lançado no Brasil.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] Aristide Massaccesi, nome verdadeiro de Joe D’Amato, na direção, sujeito responsável por Emmanuelle e o Últimos Canibais, Erotic Nights of the Living Dead e Porno Holocaust (esses dois últimos pornozão mesmo, com […]

  2. […] cá, essa fórmula foi repetida a exaustão (até a Emanuelle tem sua versão canibalesca no infame Emanuelle e os Últimos Canibais do picareta Joe D’Amato), atingindo seu auge em Cannibal Holocaust, o tal mais controverso […]

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