347 – Enraivecida na Fúria do Sexo (1977)

rabid

Rabid

1977 / Canadá / 91 min / Direção: David Cronenberg / Roteiro: David Cronenberg / Produção: Joh Dunning, Don Carmody (Co-Produtor), Danny Goldberg (Produtor Associado), André Link e Ivan Reitman (Produtores Executivos) / Elenco: Marilyn Chambers, Frank Moore, Joe Silver, Howard Ryshpan, Patricia Gage

 

Sem sombra de dúvida, é o melhor título em português que um filme já ganhou no Brasil. Enraivecida na Fúria do Sexo, tradução para Rabid, que seria apenas, simplesmente, “Raiva”. Genial. Deveriam dar um prêmio para o sujeito que bolou esse nome!

Fora isso, David Cronenberg rodar um filme de uma garota, vivida pela então atriz pornô hardcore Marilyn Chambers, que tem uma vagina mutante no sovaco, a qual ela usa para matar suas vítimas durante o ato sexual, chupar seu sangue e transmitir um vírus que dá início a um surto de raiva na cidade de Montreal, é mais genial ainda.

Como sabemos, o rei do horror venéreo em seu segundo trabalho volta a provar porque o cinema de terror dele é calcado no fetiche pela carne, desejo sexual e perversão humana e o descontrole da ciência e medicina, e neste caso em específico, quase uma visão premonitória do efeito devastador que se abateria na sociedade com o final do hedonismo dos anos 70 e a explosão da Aids na década seguinte.

Fazendo uma boquinha

Fazendo uma boquinha

Afinal, a trama principal resume-se ao contágio de uma doença sexualmente transmissível, mesmo que não praticada do modo bíblico, transmitida então por uma mulher, algo completamente fora dos padrões cinematográficos da época, sedenta por sangue, que irá se desencadear em uma epidemia de raiva fora de controle, onde os homens, vítimas fáceis e falhas como são, são regredidos a um estado animalesco de brutalidade, servindo apenas como agente disseminador do vírus, e morrendo logo em seguida, após transmiti-lo pela saliva.

Esse órgão mutante foi resultado de uma experiência plástica mal sucedida, quando Rose (Chambers) e seu namorado, Hart (Frank Moore) sofrem um terrível acidente de moto. Hart apenas tem leves ferimentos nas mãos, mas Rose fica parcialmente queimada e desfigurada, e atendida pelo Dr. Keloid (Howard Ryshpan), pois o acidente ocorre bem em frente à sua clínica, o médico a vê como cobaia perfeita para um tratamento experimental de implante de enxertos neutros de pele. Rose então se torna a incubadora deste vírus e ao escapar da clínica começa sua caça aos homens, dando início a epidemia que gerará uma série de medidas de saúde pública com o governo iniciando uma campanha de vacinação e quarentena militar na cidade.

Como de se esperar, Enraivecida na Fúria do Sexo, assim como o cinema de Cronenberg é travestido de alguns pontos curiosos. Primeiramente é válida a tremenda coragem e ousadia de um jovem cineasta, que após tomar pau da crítica puritana canadense, julgando seu filme de estreia, Calafrios, como “pornográfico” e de mau gosto, resolveu retomar ao tema, porém em uma escala superior e com maior refino técnico e orçamento, e escolher uma atriz pornô como protagonista e sambar na cara da sociedade criando um modo de contágio realmente pornográfico.

Raiva

Raiva

Segundo é a quase sempre violência gráfica constante em sua obra. Com a frieza de um cirurgião, Cronenberg se afasta limpamente de qualquer emoção e apenas explora o gore de modo impassível, tanto na transmissão da doença, quanto no ataque dos infectados com suas mordidelas e nas resoluções da autoridade para resolver o problema. Culpa mesmo, só de Hart, o responsável indireto pelo acidente de moto e no estado atual de sua namorada, e nos momentos de redenção da protagonista, raros e rápidos, mesmo tendo se tornado uma predadora de homens como uma hospedeira de um agente biológico/patológico que quer se reproduzir, assim como a própria natureza humana.

E falando de natureza humana, assim como George A. Romero fez em seu O Exército do Extermínio, há todo um discurso como subtexto referente ao comportamento humano (leia-se hostil), tanto dos civis quanto dos militares, em como lidar com essa crise. A cena final exprime perfeitamente o que quero dizer aqui. Fora isso, há, por que não, um paralelo ao cinema zumbi, até do próprio Romero, de que segundo opiniões de altas autoridades científicas, devemos deixar qualquer moral ou religiosidade de lado, e em nome da autopreservação, simplesmente exterminar os infectados, sendo entes queridos ou não.

Como curiosidade em uma cena onde Rose está passando pela cidade, em frente a um cinema há o pôster do filme Carrie – A Estranha de Brian De Palma. E Sissy Spacek era a primeira opção de Cronenberg para o papel da protagonista. O produtor executivo Ivan Reitman (diretor de Os Caça-Fantasmas) quem sugeriu ao diretor o nome de Marilyn Chambers para aumentar o sex appeal. E se não fosse a moçoila, nunca ganharíamos o título de Enraivecida na Fúria do Sexo no país, para capitalizar em cima do nome da atriz pornô. Boa, Reitman! Boa, Cronenberg!

Olhar 43

Olhar 43

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Enraivecida na Fúria do Sexo está atualmente fora de catálogo.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Daniel disse:

    Minha mãe não deixava eu assistir Calafrios quando passava na TV a quase 30 anos atras.
    Eu me lembrava exatamente da chamada da emissora, Assisti Calafrios e agora vou ver esse também, porque gostei do estilo do diretor. Parabéns pelo Blog todo dia ótimos filmes.

  2. […] tinha me conquistado com outros filmes anteriores dele, que também são ótimos, como Calafrios, Enraivecida na Fúria do Sexo, e Filhos do Medo. E apesar de toda a maluquice do diretor que é considerado o Rei do Terror […]

  3. […] venéreo e científico que ele aplicava em suas fitas de começo de carreira (como Calafrios, Enraivecida na Fúria do Sexo, Filhos do Medo e Scanners – Sua Mente Pode Destruir). Aqui tendo a direção de um filme […]

  4. […] tinha me conquistado com outros filmes anteriores dele, que também são ótimos, como Calafrios, Enraivecida na Fúria do Sexo, e Filhos do Medo. E apesar de toda a maluquice do diretor que é considerado o Rei do Terror […]

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  6. Barbara disse:

    o link está quebrado.

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