35 – Dr. Gogol – O Médico Louco (1935)


Mad Love


1935 / EUA / P&B / 68 min / Direção: Karl Freund / Roteiro: P.J. Wolfson, John L. Balderston, Guy Endore (adaptação) / Produção: John W. Considine Jr. / Elenco: Peter Lorre, Frances Drake, Colin Clive, Ted Healy


 

Baseado no livro de Maurice Renard (que já havia sido adaptado anteriormente no filme homônimo As Mãos de Orlac de Robert Weine), Dr. Gogol – O Médico Louco é uma das grandes pérolas do cinema de terror da década de 30. Confessamente Grand Guignol, bem diferente das produções ingênuas da época, o filme ainda conta com a direção exímia de Karl Freund e interpretação magnânima do esquisito Peter Lorre.

Vamos agora por partes, ao melhor estilo Dr. Gogol, para explicar esse parágrafo de introdução do texto. Para quem não é familiarizado com o termo Grand Guignol, ele surgiu derivado do Théatre du Grand-Guignol, construído em Paris no ano de 1897, famoso por apresentar peças de horror grotescas e viscerais, com cenas explícitas de decapitação (principalmente pelo fetiche francês, a guilhotina), desmembramento, tortura, evisceração, esquartejamento…tá bom, já deu para entender né? Era uma infâmia só e juntava a escória francesa em seus palcos e plateia. O termo então passou a ser utilizado para descrever também os tipos de filme que exageram na violência gráfica e sensacionalista (apesar de não ser mais tão usado depois da criação de denominações mais recentes como gore, splatter e exploitation).

Karl Freund para quem não conhece, é um dos maiores inovadores (leia-se gênio) do cinema. O sujeito foi diretor de fotografia de filmes do expressionismo alemão como O Golem e Metrópolis e quando foi para os EUA foi o cinematógrafo de Drácula, de Tod Browning. Seu debute na direção foi no também filme de monstro da Universal, A Múmia, apesar de já em Drácula, assumir a direção de grande parte do filme, sob a benção de Browning. E para quem nunca ouviu falar de Peter Lorre, o intérprete do Dr. Gogol, é nada mais nada menos que o eterno Hans Beckert, o assassino pedófilo de M, O Vampiro de Dusseldorf de Fritz Lang.

Mãos bobas!

Cá entre nós, não tinha como o filme dar errado né? Lorre faz um Gogol digno de um dos piores vilões da história do gênero. Baixinho, gordinho, careca, estranho à beça e com seus olhos esbugalhados de peixe morto, o brilhante cirurgião é uma aula de vilania, um mistura de cientista louco com médico antiético, destilando todo o seu egoísmo, tendência psicopata latente e um sotaque maravilhoso expressado em uma fala mansa ou em um acesso de loucura repentino.

Gogol é secretamente apaixonado pela atriz Yvonne Orlac, que por sinal, trabalha em um teatro que seria uma versão do próprio Théatre du Grand-Guignol, interpretando uma condessa que é torturada pelo marido por traição. Ela é casada com o célebre e talentoso pianista Stephen Orlac, que no auge de sua carreira, sofre um terrível acidente de trem e é obrigado a ter as mãos amputadas. Mas como as mãos eram sua vida e ganha pão, Yvonne resolve levá-lo para os cuidados do infame Gogol, que acompanhou a garota de sua cabine no teatro, todas as 47 noites em que a peça ficou em cartaz, nutrindo sua obsessão por ela.

Nesse meio tempo, é capturado em Paris um assassino chamado Rollo, atirador de facas, circense americano, que havia matado o pai e tinha sido condenado à guilhotina. Gogol então reclama o corpo do sujeito e faz uma espécie de “transplante”, substituindo as mãos destruídas do pianista pelas dos criminoso. Aí que vem a parte que é um barato: a mãos têm vontade própria e começam a demonstrar resquícios da personalidade de Rollo, incluindo sua exímia capacidade de atirar facas e tendências matadoras. Vai vendo…

De médico e de louco…

Com uma dívida do tamanho de um bonde, Orlac resolve procurar o pai desafeto, em busca de dinheiro, mas acaba em uma terrível discussão, só para Orlac ser preso mais tarde falsamente acusado de tê-lo esfaqueado, na verdade obra do doutor louco que não se conforma em nunca conseguir o amor e atenção de Yvonne, e arquiteta um plano maligno, no alto de sua loucura, para tirar o concorrente do caminho.

A forma como Gogol conduz esse plano mirabolante é simplesmente incrível. Grande destaque para a cena em que Gogol se passa por Rollo, para sugerir que Orlac está de vez perdendo o juízo e foi o responsável por esfaquear o pai, utilizando mãos metálicas, uma cinta de couro e ferro no pescoço (para fingir que sua cabeça foi reatada pelo médico após ter sido decepada na guilhotina), chapéu e óculos escuros. É fantástico, e segue ainda com uma atuação brilhante de Lorre quando ele volta para sua casa, tomado por um acesso de histeria.

Dr. Gogol – O Médico Louco é um filme antológico, inspirado pelo Grand-Guignol com muito louvor, e trouxe para a década de 30 uma tipo de personagem e de situação incomum e explícita demais para os padrões da época.

… o Dr. Gogol tem muito!



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] do personagem na déacada de 40, acabou substituindo Peter Lorre, de M, O Vampiro de Dusseldorf e Dr. Gogol – O Médico Louco, que não pode fazer o papel por motivos de saúde. Completa o quarteto o também sempre eficiente […]

  2. […] Hans Beckert em M, O Vampiro de Dusseldorf de Fritz Lang e o obsessivo médico psicopata em Dr. Gogol – O Médico Louco. Lorre é Montresor, um beberrão inveterado, casado com a lindíssima Annabel (Joyce Jameson), que […]

  3. […] na obra do escritor francês Maurice Renard (que depois também seria adaptada no excelente Dr. Gogol – O Médico Louco), a trama traz a história do talentoso pianista Paul Orlac (Veidt), que está em uma viagem de […]

  4. Cheyenne Neko disse:

    de fato esse filme é excelente, com a atuação sublime do Peter Lorre, a fotografia deveras impecavel e digo que pra mim o final do filme foi estarrecedor, valeu muito a pena ter assistido <3

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