355 – Inferno Carnal (1977)

Inferno-Carnal-Hellish-Flesh

1977 / Brasil / 85 min / Direção: José Mojica Marins / Roteiro: Rubens Francisco Luchetti, José Mojica Marins (história) / Produção: José Mojica Marins, Alfredo Cohen (Produtor Associado) / Elenco: Cristina Andréia, Lirio Bertelli, Virgínia Camargo, Michael Cohen, Oswaldo de Souza, Luely Figuiró, José Mojica Marins

 

Inferno Carnal foi uma gota d’água para José Mojica Marins, que enfrentava um turbilhão de problemas, não gozando mais do status alcançado por causa do sucessos de suas produções de meados e final dos anos 60, e se apegando a qualquer parca chance de fazer dinheiro, esquecendo por completo o seu cinema autoral e a figura caricata de Zé do Caixão, que o trouxe fama e infortúnio ao mesmo tempo.

Rodado quase que ao mesmo tempo de seu filme anterior, A Estranha Hospedaria dos Prazeres, Mojica enfrentava problemas gravíssimos de alcoolismo, e financeiros então nem se fala (teve que declarar falência), o que ocasionou um infarto que o mandou para o hospital, auxiliado também pelo ritmo frenético, de pleno desespero, em tentar concluir o filme (levou apenas um mês de filmagens) e tentar arrumar algum dinheiro.

E isso tudo se reflete em um filme que teria um baita potencial se não fosse toda essa equação desastrosa de problemas. Porém o grande problema de Inferno Carnal é o ritmo. Mesmo com toda falta de paixão, correria, efeitos especiais toscos e direção burocrática de um endividado Mojica, à beira do colapso, o roteiro de Rubens Francisco Lucchetti, parceiro habitual do diretor, funciona muito bem como um tiro rápido, como já havia acontecido anteriormente, ao ser um dos contos da extinta série de TV do programa O Estranho Mundo de Zé do Caixão, mais precisamente o episódio “A Lei de Talião”.

Muito da narrativa empregada nos filmes de Mojica lembra a estética das histórias em quadrinhos da EC Comics, com uma linha de narração que alinha todos seus elementos para um final acachapante. Por mais impactante que seja, a construção da vingança do personagem de Mojica no filme, o prolífico cientista George Medeiros, é atrapalhada pelo tedioso desenrolar de Inferno Carnal até chegar em seu clímax, que se mostra dos mais previsíveis.

Zé cientista

Zé cientista

George é traído pela sua esposa, a boazuda Raquel (Luely Figueiró) com seu amigo Oliver (Oswaldo de Souza) enquanto ele se preocupa mais em ficar em seu laboratório testando e descobrindo novas e potentes formas de ácido. Decididos a eliminar o sujeito e a infiel Raquel (até rimou) ficar com uma bolada do testamento (afinal George era podre de rico), ambos armam um plano maligno para dar cabo do cientista: jogar em seu rosto um de seus poderosos ácidos e colocar fogo em seu laboratório.

Quase como precursor de Darkman – Vingança sem Rosto de Sam Raimi, George sobrevive ao infortúnio, passa por uma cirurgia agoniante no rosto e olhos, como uma metáfora gore do Cão Andaluz de Buñuel em tom documental, e transforma-se em uma aberração deformada, enquanto a esposa traíra torra sua grana com o amante, que na verdade é um escroque e usa o dinheiro dela para farra, jantares, bebedeiras e jogos de azar, e até para noitadas com prostitutas. Paralelo a isso, George, vivendo enclausurado em sua mansão, contrata um capanga para seguir todos os passos da moça e dar todo o dinheiro que ela precisa, para fazer tudo que ela quiser.

Você vai pensar, ah, mas esse Mojica é um corno manso. Nenhum homem é tão altruísta… Não, não vai pensar porque fica na cara que ele está armando uma sorrateira vingança contra Raquel, mostrando-se um sujeito bondoso e que a perdoou, para a mulher encher-se de remorso e tentar um ato desesperado para prestar contas. Só que até chegar ao final do terceiro ato o filme repetiu-se num looping desnecessário de cenas ao melhor estilo pornochanchada, por meio das peripécias sexuais de Oliver, a solidão e o trauma de George e um suspense vagabundo de uma garota ruiva apaixonadíssima e fazendo sexo com uma figura misteriosa, vista apenas pela sombra (que sabemos que é o Mojica, vai). O final, por mais que seja sádico, mesquinho e repleto de lição de moral (a tal Lei de Talião), não consegue justificar todo o tempo e atmosfera porcamente trabalhados para sua conclusão, algo que está a anos luz abaixo do talento de Mojica em seu começo da carreira.

A maquiagem é um dos pontos mais fracos do filme. Mojica atribui principalmente à pressa de terminar as filmagens: “O rosto do homem queimado não ficou perfeito. Essa maquiagem era difícil e atrapalhava a gente”, explicou o diretor em entrevista na época. No final das contas, Inferno Carnal rendeu mais dinheiro pelo baixíssimo custo de produção que seus últimos filmes, mas apesar de certos elementos característicos da obra do diretor, vê-se a completa falta de paixão em um filme arrastado, com uma boa ideia desperdiçada, escancarando a perda do vigor de outrora.

O homem sem face

O homem sem face

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

1 Comentário

  1. marcelle disse:

    o torrent não tem seeder! Vocês ainda pretendem compartilhar o filme?

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