358 – Premonição (1977)

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Sette note in nero / The Psychic

1977 / Itália / 95 min / Direção: Lucio Fluci / Roteiro: Lucio Fulci, Roberto Gianviti, Dardano Sacchetti / Produção: Franco Cuccu (não creditado) / Elenco: Jennifer O’Neil, Gabriete Ferzetti, Marc Porel, Gianni Garko, Ida Galli

 

Premonição talvez seja o filme de Lucio Fulci que mais caminhe em direção ao estilo do cinema de terror italiano popularizado pelo mestre Mario Bava, que consiste na busca perfeita pela forma, pela estética e por todo o controle dos elementos, desde fotografia, cores, cenário e trilha sonora.

Isso porque Fulci é muito mais conhecido por seu cinema recheado de sangue e violência brutal, como um dos principais diretores do ciclo splatter italiano. Até por isso mesmo, é menos reverenciado que o próprio Bava ou Dario Argento, sempre mais preocupados na estética de como contar a história, do que na brutalidade gráfica propriamente dita.

Até porque Premonição é um giallo, não o primeiro de Fulci, que já havia dirigido anteriormente Uma Sobre a Outra e Uma Lagartixa no Corpo de Mulher, e o híbrido O Estranho Segredo do Bosque dos Sonhos, e neste subgênero, é o melhor filme do italiano. Fica bem distante da grosseria excessiva típica do diretor, mas é uma daquelas verdadeiras gemas do cinema de terror vindo da Itália, que se preocupa absolutamente com a forma e a imagem, com um roteiro redondo muito bem trabalhado e envolvente, cheio de mistério e nuancia, onde os personagens parecem presos em uma onírica teia de acontecimentos em uma trama progressiva que os deixa sem escapatória.

Reforma

Reforma

Trama essa escrita pelo próprio Fulci e dois de seus parceiros habituais, Roberto Gianviti (que havia escrito Uma Sobre a Outra e Uma Lagartixa…) e Dardano Sacchetti, responsável pelo texto vindouro do cultuado Zumbi 2 – A Volta dos Mortos e da trilogia composta por Pânico na Cidade dos Zumbis, Terror nas Trevas e A Casa do Cemitério. E uma espécie de poder psíquico pré-cognitivo da personagem principal é o fio condutor que levará a investigação tão comum nos gialli e depois explodirá na reviravolta final.

Essa personagem é Virginia Ducci (Jennifer O’Neill), que descobre essa capacidade maldita ainda criança, quando vê sua mãe praticar suicídio se jogando de um penhasco, em uma cena literalmente idêntica a usada em O Estranho Segredo do Bosque dos Sonhos, com um óbvio bonecão arrebentando o rosto nas pedras durante a queda livre. Este é o momento mais Lucio Fulci, digamos assim, do longa.

Passados vinte anos, Virginia agora é casada com Francesco Ducci (Gianni Garko), e indo para a casa dos dois na Itália, durante a viagem de carro é assolada por uma nova premonição, sobre o corpo de uma garota emparedada em uma casa. Aquela visão é receheada de ricos detalhes e o modus-operandi do assassino que passam despercebidos do espectador à primeira vista, mas depois vão se revelando durante a investigação e o desenrolar da trama.

Bonecão

Bonecão

Ao chegar à casa do marido ela descobre que é o mesmo local de sua visão, e que realmente há um cadáver oculto na parede desde 1972. A pessoa que o fez devia ser fã de Edgar Allan Poe. Obviamente, Francesco é o principal suspeito, ainda mais quando se descobre que a vítima, uma modelo de capa de revista, havia tido um caso com o homem, antes de conhecer a atual esposa. Mas há uma incongruência com a visão de Virgina, que havia visto uma mulher idosa sendo assassinada.

Bom, não dá para comentar muito mais para o filme sem entregar SPOILERS (mesmo o título em português já nos fazendo esse desfavor) então ficarei por aqui, dizendo só que a primeira uma hora do filme serve como um imenso prólogo, com a investigação pessoal da obcecada Virgina, auxiliada por seu psicólogo Luca Fattori (Marc Porel) e sua cunhada Gloria (Ida Galli) cumprindo todos os requisitos básicos dos gialli, até chegar em sua meia hora final, quando levanta-se a lebre de que a visão da moça pode ter sido pós-cognitiva, uma premonição, de algo que ainda está para acontecer, consequência do achado do esqueleto da modelo emparedada. Prepare-se então para esse terceiro ato fantástico, incluindo aí desvendarmos o porquê do título original do filme em italiano, “Sette note in nero”, que traduzido literalmente seria “Sete notas em preto”. Fora seu final espetacular e inconclusivo que deixa o público atônito.

O que salta aos olhos é o perfeccionismo nunca visto antes (e depois) na filmografia de Fulci, contendo uma distinta elegância de câmera, leveza de movimentos, preocupação com o jogo de luz e sombra para criar a atmosfera certa, conduzindo o espectador em banho-maria até o final. Isso tudo auxiliado pela trilha sonora de Fabio Frizzi (também parceiro recorrente de Fulci), construída em uma caixa de música acompanhada por instrumentos de corda, sintetizadores e piano, atípica a maioria dos gialli. E detalhe que algumas das músicas de Premonição foram depois usadas na trilha sonora de Kill Bill Volume 1, de Quentin Tarantino.

Ai que medo!

Ai que medo!

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Premonição não foi lançado no Brasil.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

9 Comentários

  1. Allan disse:

    Cara, conseguiu baixar por este torrent? Aqui não sai do 0%…
    Mas sem problemas. E o site continua excelente.

  2. Alexandre disse:

    Estou tentando baixar pelo bittorrent e não há nenhum seed. Se for possível colocar outro link, agradeço, pois mal posso esperar rever esse filme que vi, lógico que apenas alguns trechos na tv, quando era criança.

    • Oi Alexandre. Poxa cara, não vou conseguir colocar outro link, não. Sinto muito. Tente dar uma procurada pelo Pirate Bay, quem sabe você consegue um outro torrent com mais seeds.

      Abs

      Marcos

  3. […] mozarela, meio calabresa, misturando a técnica e o viés sobrenatural utilizado em filmes como Premonição ou O Estranho Bosque dos Sonhos, com um breve perfume da grosseria presente em Zumbi 2 – A Volta […]

  4. […] O Esquartejador de Nova York é uma prova cabal do início de sua decadência cinematográfica. Esse thriller erótico chega a ser uma afronta ao suspense e ao giallo. Sim, Fulci nunca foi um Bava, até um Argento, ou um De Palma ou mesmo um Hitchcock. Mas sabia trabalhar bem o suspense, principalmente em seus gialli de começo de carreira, como Uma Lagartixa no Corpo de Mulher ou Uma Sobre a Outra e outros bons filmes intermediários como O Estranho Segredo do Bosque dos Sonhos e Premonição. […]

  5. fabricio disse:

    Muito bom o filme..vi esse final de semana…pena q ta em inglês

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