359 – Quadrilha de Sádicos (1977)

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The Hills Have Eyes

 1977 / EUA / 89 min / Direção: Wes Craven / Roteiro: Wes Craven / Produção: Peter Locke / Elenco: Russ Grieve, Virgina Vincent, Dee Wallace, Robert Houston, Michael Berryman

 

Quadrilha de Sádicos, segunda incursão de Wes Craven na direção, depois do ótimo Aniversário Macabro, é seu road movie brutal sobre luta de classes. Uma crônica de sobrevivência da burguesa família de classe média americana contra os selvagens mutantes canibais, párias dessa sociedade assim estabelecida.

É um clássico cult de Craven, adorado por fãs e crítica, feito em esquema de filme de guerrilha, utilizando o máximo todo seu talento para produzir uma película de baixo orçamento, porém extremamente bem feita, contando com boas cenas de violência apelativa e sangrentas, dando ênfase na construção dos mais variados arquétipos dos personagens de ambas as famílias.

É uma batalha de vida ou morte, verdadeira sobrevivência do mais apto, entre uma família tradicional americana que se vê presa no meio do deserto, em um campo de testes da força aeronáutica americana quando seu carro e trailer quebram devido a um acidente, contra uma família de congênitos que vivem na montanha, praticantes de todo tipo de barbárie, inclusive o canibalismo.

Os Carter estão em uma viagem rumo a Los Angeles quando resolvem atravessar o deserto de Yucca para encontrarem uma antiga mina de prata deixada de herança para Ethel (Virgina Vincent), matriarca e casada com o casca-grossa Big Bob (Russ Grieve). Deixados a própria sorte, Big Bob e seu genro, Doug (Martin Speer) vão a procura de ajuda, enquanto o filho mais velho do casal, Bobby (Robert Houston) fica com a mãe e as duas irmãs, Brenda (Susan Lanier) e Lynne (Dee Wallace, figurinha carimbada de vários filmes de terror), esposa de Doug e mãe da bebê Kathy. Os dois tem destinos bastante diferentes. Enquanto Doug descobre um depósito de quinquilharias pertences às vítimas anteriores dos saqueadores, Big Bob é atacado pelo grupo enquanto tenta voltar ao posto de gasolina que pediu informações no começo do filme e acaba crucificado e cremado vivo, visto arder pela própria família.

Tô de olho no sinhô!

Êta rapaz bonito!

Enquanto isso, o grupo, comandando com mão de ferro pelo líder Papa Júpiter (James Withwortj), ataca o trailer e estupra a irmã mais nova, mata Ethel e Lynn e rapta a bebê a tiracolo para servir de jantar. Esses guerrilheiros, sinônimo de um grupo étnico que sobrevive com o que pode e são frutos da sociedade que os transformou em selvagens, são a metáfora dos oprimidos que tentam preservar seu território e manter o mínimo de condição, hã, humana, se assim podemos dizer. E daí para frente, para tentar recuperar sua filha e vingar sua família, Doug, Bobby e Brenda são obrigados a “baixar seus níveis”, se entregar à hostilidade e jogar o mesmo jogo brutal que os selvagens, que inclui o mais famoso dele, o feiosão Pluto, vivido pelo ator Michael Berryman, que ficaria bem conhecido dos fãs do cinema de horror.

Craven após o acidente que isola os Carter mantém o nível de adrenalina lá em cima, criando uma tensão crescente, com o jovem e inquieto Bobby sendo nossa referência para sacar que eles estão sendo observados e há algo realmente mal lá fora, preparando um plano diabólico. A sua direção inventiva ainda abusa de planos fechados imitando binóculos, trilha sonora forte e impactante, uso de câmera na mão, fotografia noturna e montagem rápida e picotada.

Além disso, Craven deliciosamente brinca com as idiossincrasias para criar contrastes bem específicos entre os Carter e a família de Papa Júpiter. Os suburbanos racistas encontram os bandidos que repudiam todo o modo de vida americano e suas crenças judaico-cristãs (explícita quando Big Bob é crucificado, por exemplo). É um contexto político fortíssimo dentro de um Estados Unidos rachado pela estupidez da Guerra do Vietnã e os anos Nixon. Além do mais, Quadrilha de Sádicos é uma espécie de western às avessas. O próprio país nasceu de um grupo de colonizadores dizimando e vivendo em eterna batalha sangrenta com os excluídos, com a minoria, onde quiseram impor seus costumes e fazer uma verdadeira acepção de povos. Vejam, por exemplo, os inúmeros confrontos raciais dos EUA, contra negros e imigrantes, e também a tentativa de expandir suas doutrinas no Vietnã, no Afeganistão, no Iraque, e por aí vai. Violência e opressão dos mais fortes é o berço da América.

Quadrilha de Sádicos em 2006 ganhou o excelente remake Viagem Maldita, produzido por Craven e dirigido pelo sanguinário diretor francês Alexandre Aja, que conseguiu pegar um filme já pesado, violento e político e elevar um degrau acima, sendo uma das raríssimas exceções em que a refilmagem ficou (por pouco) melhor que o original.

Ai, se você gritar que eu sou feio...

Ai, se você gritar que eu sou feio…

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

30 Comentários

  1. gilberto disse:

    Pior matéria do site, aula se socialismo.

  2. Paulão Geovanão disse:

    Um dos melhores do Craven

  3. […] filmografia de Craven (tirando os dois exemplos citados nesse texto, e também Quadrilha de Sádicos, seu próximo trabalho) se perdeu de uma forma triste no decorrer dos anos, com filmes imbecis como […]

  4. […] de O Massacre da Serra Elétrica e Quadrilha de Sádicos nos trazerem canibais e criaturas mutantes congênitas e chocar o mundo, eis que um obscuro e pouco […]

  5. […] (interpretada por Dee Wallace, rosto conhecido dos fãs de terror graças a papeis em filmes como Quadrilha de Sádicos e Cujo, além de E.T. – O Extraterrestre de Spielberg) está envolvida em uma armadilha da […]

  6. […] vítima recorrente, afinal três de seus filmes ganharam refilmagens recentes: A Hora do Pesadelo, Quadrilha de Sádicos e Aniversário Macabro) e até dá uma cutucada, quando diz que é impossível ser melhor que o […]

  7. […] Bolha). Viagem Maldita é mais um que entra nessa seleta lista, remake do clássico de Wes Craven, Quadrilha de Sádicos, de […]

  8. […] (interpretada por Dee Wallace, rosto conhecido dos fãs de terror graças a papeis em filmes como Quadrilha de Sádicos e Cujo, além de E.T. – O Extraterrestre de Spielberg) está envolvida em uma armadilha da […]

  9. […] Após uma bem sucedida trinca do diretor, que conta com os excelentes Aniversário Macabro e Quadrilha de Sádicos anteriormente, Craven só faria porcarias e voltaria apenas a fazer um filme que prestasse em […]

  10. […] Despertar dos Mortos, Demons – Filhos das Trevas, O Expresso do Horror, A Volta dos Mortos-Vivos, Quadrilha de Sádicos, entre outros, a maioria dos VHS alugados na 2001 Vídeo da Av. Paulista ou em uma locadora em São […]

  11. […] de carreira dos mais promissores, com filmes agressivos e violentos como Aniversário Macabro e Quadrilha de Sádicos, e depois criado ninguém menos que Freddy Krueger para a cinesérie A Hora do Pesadelo. Contudo, […]

  12. […] não é no bom sentido. O cineasta errático que dirigiu preciosidades como Aniversário Macabro, Quadrilha de Sádicos, A Hora do Pesadelo e A Maldição dos Mortos-Vivos, tem também na sua filmografia umas bombas de […]

  13. […] Depois de começar a carreira de forma brilhante com nada menos que a trinca Aniversário Macabro, Quadrilha de Sádicos e A Hora do Pesadelo, o sujeito dirigiu algumas bombas memoráveis até então, como A Maldição […]

  14. Diego/RS disse:

    Marcos, duas curiosidades minhas (surgidas de vagas suposições pessoais, não achei nenhuma referência na internet a respeito):

    A primeira (talvez mais óbvia): aquela participação do Michael Berryman na comédia Mulher Nota 1000, como integrante de uma gang de motoqueiros malucos que invadem uma festa, seria uma citação ao personagem dele no Quadrilha de Sádicos!?

    E a segunda, fiquei ruminando agora após a cerimônia do Oscar, quando a Lady Gaga cantou algumas músicas do A Noviça Rebelde… entre elas, uma chamada “The hills are alive”… seria o título original do Quadrilha também uma citação irônica ao título dessa canção?

  15. Nito Franzoni disse:

    Poxa, sério que prefere o remake? Deus tá vendo isso hein…
    Ô Marcos, por acaso você já teve acesso a um filme do Craven chamado “Deadly Blessing”, de 1981 e com a maravilha da Sharon Stone em começo de carreira? Eu procuro ele há séculos e nada! Se conseguir, por favor, dê um toque! Abraço.

    • Hahahahhahahaah…

      Cara, pior que eu tenho ele baixado sim, no meu mega ultra blaster HD de 3tb só com filmes de terror. Eu baixei em algum torrent na vida. Preciso depois dar uma olhada para encontrá-lo e se for um arquivo não muito grande, subo no we transfer e te mando!

  16. […] vítima recorrente, afinal três de seus filmes ganharam refilmagens recentes: A Hora do Pesadelo, Quadrilha de Sádicos e Aniversário Macabro) e até dá uma cutucada quando diz que é impossível ser melhor que o […]

  17. Gabriel Vince disse:

    Caramba! Forçou a barra na inserção de “luta de classes” no filme ein!

  18. […] 5) Quadrilha de Sádicos (1977) […]

  19. […] do gênero, logo raptado para Hollywood e responsável pelos ótimos Viagem Maldita (remake de Quadrilha de Sádicos de Wes Craven), Piranha 3D e a produção executiva do thriller P2 – Sem Saída. Claro que teve […]

  20. […] Hooper são inevitáveis, assim como ele bebe, e muito, na fonte de outro clássico dos anos 70, Quadrilha de Sádicos, de Wes Craven e até mesmo uma pitada de Amargo Pesadelo, citado no próprio […]

  21. […] Quadrilha de Sádicos de Wes Craven é um PUTA clássico. Mas nem por isso, mais uma vez Alexandre Aja deixa de entregar uma remake brutal, violento, com baldes de sangue derramado, que para mim é melhor que o original #prontofalei! […]

  22. Demencia13 disse:

    Posso dizer sem sombra de dúvida: É o pior filme que já assisti. Não no sentido de ser ruim, é o pior porque é extremamente perturbador. Geralmente neste tipo de filme a gente torce pelo mocinho mas neste caso, a selvageria é tamanha que a gente começa a ter é pena dos vilões, porque são mil vezes mais maltratados. Mostra bem como o ser humano, debaixo de forte stress e emoções pode se tornar a pior besta selvagem. Concordo com a tag line ‘Eles não queria matar mas também não queriam morrer’, só que desceram a um nível mais baixo que seus algozes e de fato, o remake é mais forte – Mas mantém a critica social já que em uma fala o Big Bob faz menção a Bobby ser covarde porque vota nos democratas.
    Eu não pretendo assistir esse filme nunca mais. É de tal forma tétrico que faz os filmes de canibalismo italianos ficarem ao nível de ‘Masha e o urso’ e coloca os slashers dos anos 80 na mesma classificação indicativa que ‘Thomas e seus amigos’

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