362 – Suspiria (1977)

1977 / Itália / 98 min / Direção: Dario Argento / Roteiro: Dario Argento, Daria Nicolodi (baseado na obra de Thomas De Quincey – não creditado)/ Produção: Claudio Argento, Salvatore Argento (Produtor Executivo) / Elenco: Jessica Harper, Stefana Casini, Flavio Bucci, Alida Valli, Joan Bennett

 

Suspiria é a obra-prima do diretor italiano Dario Argento. Um conto de fadas de horror, que beira a perfeição. É o cinema de terror em estado bruto como obra arte. É simplesmente fora de série.

Dario Argento sempre deixou muito claro seu fetiche pela imagem e todos os elementos com que se constrói a estética de um filme e seu apreço pela violência. Suspiria é a quintessência disso. O auge que o italiano conseguiu alcançar, mesmo depois do quase perfeito giallo Prelúdio para Matar. Aqui ele desfila toda sua virtuose em imagem e som, misturando uma crônica de violência plena com bruxaria sobrenatural, caminhando sempre entre a linha tênue do onírico e do real, expondo ao pobre espectador a uma frenética explosão de cores e sensações, isso sem falar do constante clima de tensão apavorante.

O título do filme refere-se a Mater Suspiriorium, uma das três mães das trevas que controlam o mundo. Essa é o primeiro filme da trilogia das mães de Argento, seguido por A Mansão do Inferno (Mater Tenebrarum) de 1980 e O Retorno da MaldiçãoA Mãe das Lágrimas (Mater Lachrymarum) de 2007.

Suzy Bannion é uma estudante de balé americana que muda-se para Friburgo na Alemanha para ter aulas em uma das mais respeitadas escolas de balé do mundo. Ao chegar em meio à uma noite de tempestade, ela se depara com uma aluna desesperada fugindo, que acaba sendo violentamente assassinada no prédio de uma amiga (em uma cena conduzida espetacularmente por Argento). Se você assistir só a esses primeiros quinze minutos do filme, você pode até pensar que é mais um giallo do diretor italiano. Mas daí para frente, o status sobrenatural entra na trama, onde Suzy acaba por descobrir que na verdade a escola é um antro de antigas e malévolas bruxas que começam matar àqueles que chegam perto demais de descobrir a terrível verdade sobre essas seculares entidades malignas.

Tem cenas que só o Dario Argento filma para você!

Co-escrito pela então esposa de Argento, Daria Nicolodi, o filme é inspirado em experiências pessoais vividas pela sua avó. Originalmente, o roteiro apresentava Susy como uma garota de 12 anos, e todas as estudantes da escola de balé seriam pré-adolescentes, mas prevendo os problemas que isso acarretaria, Argento resolveu adaptá-lo para que a personagem principal fosse uma jovem adulta.

Em Suspiria, Argento nos leva para um mundo tétrico, quase surreal, através de um excelente trabalho de fotografia com um jogo exagerado de cores, como vermelho, rosa, verde e azul, a presença de estilos barrocos e uma técnica de filmagem em travelling contínuo, uma de suas marcas registradas, que foi criada pelo mestre Mario Bava e aperfeiçoado pelo seu pupilo Argento. Hoje é uma linguagem extremamente comum no cinema moderno, usado por nomes como Martin Scorcese e Sam Raimi. Outro ponto de forte destaque é a trilha sonora descontrolada e histérica da banda de rock progressivo Goblin, com pitacos do próprio diretor, transformando Suspiria em uma experiência poderosa de sentidos impactantes, resultando em um dos melhores filmes de terror já feitos sem sombra de dúvida.

Isso sem falar em todas as mortes extremamente sanguinárias e violentas, como um cego atacado na jugular pelo seu próprio cão-guia ou uma garota que cai em uma sala repleta de arame farpado antes de ter seu pescoço cortado. Ainda sem contar a morte da garota que foge da escola logo no começo, que leva múltiplas facadas e depois é enforcada na claraboia do prédio e sua amiga que tentou lhe prestar socorro morre em um tremendo golpe de azar, atingida em cheio na cabeça por um grande pedaço de vidro da claraboia despedaçada. É Argento desperdiçando litros e litros de guache vermelho para satisfazer seu espectador doentio.

Suspiria usa do balé e dos desafios psicológicos da personagem principal em um mundo obscuro para remeter a um pesadelo onde se sonha acordado, capturando a essência da maldade sepulcral que controla o destino de cada um de nós e anda esgueirando-se pelos cantos concomitantemente enquanto vivemos nossa vida enfadonha. A temática também gerou grande influência em demais filmes de terror e até para outras obras singulares, como o recente Cisne Negro de Darren Aronofsky. Quanto ao deleite da imagética sublime criada por Argento nesta fita, se você tiver a oportunidade, assista ao filme em alta definição, pois é um espetáculo surpreendente de cores. Vale a pena também a versão em DVD duplo lançado aqui no Brasil pela Editora Dark Side (que também lançou Prelúdio para Matar), se você encontrar em algum sebo ou Mercado Livre da vida por aí, com um disco bônus com um documentário sobre a obra do influente diretor.

Suspiro de pavor.

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Suspiria está atualmente fora de catálogo.

Download: Torrent + legenda aqui.

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

23 Comentários

  1. […] do roteiro para ele. Como Romero também era fã das obras de Argento como Prelúdio Para Matar e Suspiria, o casamento entre eles foi perfeito. Os dois trabalharam em parceira, sempre respeitando a […]

  2. […] cega que aparece na trama para alertar Liza é atacada pelo seu cão guia (claramente inspirado em Suspiria) que arranca fora sua orelha e dilacera sua jugular. Tudo extremamente gráfico e supervalorizado […]

  3. […] e sobrenatural nos seus próximos longas, como por exemplo a trilogia das mães, composta por Suspiria, A Mansão do Inferno, e O Retorno da Maldição – A Mãe das […]

  4. […] uma influência proposital de produções como O Bebê de Rosemary, As Bodas de Satã, A Profecia e Suspiria (inclusive a semelhança física das atrizes). É uma celebração àqueles cinéfilos que como eu e […]

  5. […] longa me faz lembrar bastante de Suspiria, clássico absoluto de Dario Argento, só que lançado sete anos antes. Há uma linha estética e […]

  6. […] Produzido por seu pai, Salvatore Argento, O Pássaro das Plumas de Cristal, em seus primeiros minutos, na cena de abertura, onde vemos o assassino misterioso escolhendo sua faca, em uma tomada escura contrastando com objetos de cor vermelho-vivo que salta aos olhos, já nos mostra um lampejo de tudo que Argento seria capaz de realizar com uma tremenda excelência técnica no decorrer dos anos, tanto na sua trilogia dos animais, que é seguido de O Gato de Nove Caudas e Quatro Moscas no Veludo Cinza (onde os animais do título dão as pistas finais para a derradeira descoberta dos assassinos), quanto no seu giallo definitivo, Prelúdio Para Matar e sua obra-prima, Suspiria. […]

  7. Clausner disse:

    Depois deste texto não precisamos dizer mais nada. Só quero dizer que é um filmaço. Assustador até hoje.

  8. […] o primeiro grande trabalho do diretor, mesmo que se comparado ao próprio Prelúdio para Matar ou Suspiria, por exemplo, não seja o espetáculo visual e narrativo os quais estamos acostumados a receber de […]

  9. […] cega que aparece na trama para alertar Liza é atacada pelo seu cão guia (claramente inspirado em Suspiria) que arranca fora sua orelha e dilacera sua jugular. Tudo extremamente gráfico e supervalorizado […]

  10. […] uma influência proposital de produções como O Bebê de Rosemary, As Bodas de Satã, A Profecia e Suspiria (inclusive a semelhança física das atrizes). É uma celebração àqueles cinéfilos que como eu e […]

  11. […] Argento. Concebido para ser a segunda parte da chamada “Trilogia das Mães”, que se iniciou em Suspiria (onde somos apresentados à Mater Suspiriorum – lançado três anos antes) e concluiu-se apenas […]

  12. […] Cinza, e a obra-prima Prelúdio Para Matar, Dario Argento voltou sua câmera para o sobrenatural em Suspiria e A Mansão do Inferno. Mas ele retorna ao gênero depois sete anos com […]

  13. […] Cinza, e a obra-prima Prelúdio Para Matar, Dario Argento voltou sua câmera para o sobrenatural em Suspiria e A Mansão do Inferno. Mas ele retorna ao gênero depois sete anos com […]

  14. […] para trás lá na década de 70 suas duas obras primas, Prelúdio Para Matar (uma década antes) e Suspiria, Argento só derrapou. Mesmo citando que Phenomena é seu favorito pessoal entre seus trabalhos, é […]

  15. […] talvez esse seja o maior bode de Terror na Ópera. Faz lá mais de dez anos que Suspira (para mim, sua obra-prima) fora lançado e desde então, por mais que seja absolutamente do caralho […]

  16. […] Ele já tentou em Terror nas Trevas, com o cachorro rasgando a jugular da cega (cópia descarada de Suspiria, BTW) e as malfadadas aranhas comendo o bonecão na biblioteca, e não deu certo. Tentou na […]

  17. […] Gato Preto” de Dario Argento, a meu ver, é o melhor trabalho do italiano desde Suspiria. Em nenhum dos seus vários outros filmes ele conseguiu atingir um nível tão bom quanto este […]

  18. […] alguns dos mais importantes filmes de terror de todos os tempos, como Prelúdio para Matar e Suspiria, sua obra prima, lá nos anos 70. E só porque Argento é o diretor que essa produção fica um […]

  19. reneesalomao disse:

    SIMPLESMENTE ADOREI SUSPIRIA. UM FILME MUITO BOM… A ÚNICA COISA QUE NÃO GOSTEI FOI A COR DO SANGUE, SER VERMELHO DEMAIS, ALIÁS PARECER MAIS PURA TINTA MESMO QUE SANGUE… RSRSRSRSRS

  20. Elvis Machado disse:

    Bacana também citar a contribuição tupiniquim do italo-brasileiro nascido aí em São Paulo, Claudio Simonetti (integrante da Goblin) e que em carreira solo viria assinar outras trilhas sonoras de filmes de Dario Argento, contribuindo para a trilha de muitos outros filmes de terror italianos e de George Romero.

  21. […] a Empire, o diretor italiano Luca Guadagnino foi anunciado o novo diretor do remake de Suspiria, seminal filme de Dario Argento de 1977, no lugar do preterido David Gordon Green. Guadagnino […]

  22. […] influenciado pelo cinema de terror italiano, com inspiração rasgada na PALETA DE CORES de Suspiria de Dario Argento, assim como sua trilha sonora; o grotesco e visceral, Whispers, dirigido pelo […]

  23. Rodrigo Escobar Montt disse:

    Uma curiosidade bacana é a participação do hoje grande cantor espanhol Miguel Bosé no filme, bem jovem, em um papel pequeno de dançarino. Grande filme!

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