365 – O Último Mundo dos Canibais (1977)

Ultimo mondo cannibale

Ultimo mondo cannibale / Last Cannibal World / Jungle Holocaust

 1977 / Itália / 88 min / Direção: Ruggero Deodato / Roteiro: Tito Carpi, Gianfranco Clerici, Renzo Genta / Produção: Giorgio Carlo Rossi / Elenco: Massimo Foschi, Me Me Lai, Ivan Rassimov, Sheik Razak Shikur, Judy Rosly

 

O Último Mundos dos Canibais (ou Mundo Canibal e Fases da Morte 8, como fora também lançado em VHS no Brasil) é o primeiro filme da trilogia dos canibais do diretor italiano Ruggero Deodato, que seria mundialmente conhecido por conta de Cannibal Holocaust, sua obra prima, lançado três anos depois.

Bom, tratando-se de um filme pertencente ao ciclo italiano canibal, que teve seu início com Mundo Canibal de Umberto Lenzi, já sabemos muito bem o que podemos encontrar: cárcere na selva, tribos canibais com costumes primitivos, nudez, estupro, tortura, crueldade com animais e claro, gente sendo comida. Mas não é tão gráfico e brutal como seus irmãos mais novos, citando o próprio Cannibal Holocaust de Deodato ou Cannibal Ferox de Lenzi, mas o suficiente para ser violentamente cortado (seis minutos tesourados), principalmente no Reino Unido (apesar de curiosamente não constar na famigerada lista dos nasty videos).

Ao bem da verdade, O Último Mundo dos Canibais nasceu como uma sequência para Mundo Canibal de Lenzi, até trazendo dois dos atores que participaram da gênese do cinema canibal italiano: Ivan Rassimov e Me Me Lai. Lenzi originalmente estava escalado para dirigi-lo, mas o projeto veio por água abaixo quando ele pediu um salário muito alto para a realização do longa. A ideia foi reescrita partindo da história original (do produtor Giorgio Carlo Rossi) e a direção ficou com Deodato. Na boa? Lenzi saiu perdendo, pois este aqui credenciou Deodato para dirigir o suprassumo dos filmes canibais e torná-lo muito mais conhecido que seu compatriota, que depois teve que correr atrás do prejuízo.

Preparando o almoço

Preparando o almoço

A trama, que mais uma vez pretende passar a falsa impressão de que é baseada em histórias reais (e obviamente não é) traz o magnata do petróleo Robert Harper (Massimo Foschi), em uma missão nas Filipinas, à procura de um novo local de perfuração de petróleo, após o misterioso desaparecimento de uma equipe anterior, que acaba sofrendo um problema com o avião e se perdendo junto de seu assistente Rolf (Rassimov) no meio da selva.

Robert é capturado por uma tribo canibal que se comporta como se ainda estivesse na idade da pedra e jogado em uma caverna, onde começará a passar pelas piores privações possíveis. Primeiro toda sua roupa é rasgada pelos nativos, incluindo aí a cueca, rasgada por Pulan, a beldade da tribo (vivida por Me Me Lai), e daí os índios começam a brincar com seu pingolim. Depois, pelado nesta caverna, passa por testes de fome, sendo obrigado a comer os restos jogados para uma ave, e sede, acompanhando várias cenas de mutilação animal, incluindo aí uma evisceração de um jacaré vivo, que está para O Último Mundo dos Canibais como a infame cena da tartaruga está para Cannibal Holocaust, e um sujeito que tem alguns cortes feitos no braço e deixado de banquete para um exército de formigas.

Quando percebe que está no menu, Robert consegue escapar ludibriando Pulan e foge com ela para o meio do mato. A relação inicialmente é de captor e vítima, com o personagem regredindo aos instintos mais básicos de sobrevivência, chegando até a estuprar a indiazinha em um ato cruel de descontrole. Mas depois, rola uma Síndrome de Estocolmo e os dois acabam engatando um romance e Robert começa a aprender a dar valor à selva e como viver nela (aí entra a crítica social, afinal a intenção de sua viagem era a devastação para aumentar ainda mais sua ganância por dinheiro). Fora que a metade final do filme, vemos os dois peladinhos correndo para cima e para baixo em cenas de nu frontal.

Café da tarde

Café da tarde

Robert e Pulan ainda conseguem encontrar Rolf escondido em uma caverna, gravemente ferido, e os três decidem tentar encontrar o avião e fugir daquele “inferno verde”. Mas a tribo canibal está em seu encalço e os vinte minutos finais serão reservados para o gore e as cenas repugnantes, tão típicas deste tipo de filme. ALERTA DE SPOILER: pule para o próximo parágrafo ou leia por conta e risco. Pulan acaba sendo capturada e será o jantar dos canibais. Primeiro ela tem a cabeça decepada e jogada na fogueira. Depois seu corpo é aberto, os órgãos todos arrancados, e em sua carcaça, são colocados uns temperinhos e umas misturas para dar um sabor, colocado no fogo e voilá, a mesa está servida. Ainda antes dos heróis se salvarem, Robert consegue matar um canibal, e em um gesto ensandecido para tentar ganhar algum respeito, se comunicar e mostrar sua periculosidade aos nativos, come o fígado cru do índio (que mais parece um pedaço de bife comprado em açougue). Com isso ele espanta os perseguidores e ganha tempo suficiente para voltar ao avião, retornar à civilização, passar quatro meses no hospital e depois largar a empresa para viver com sua mulher em uma fazenda no México.

O problema desse ciclo italiano canibal é que você viu um filme, você viu todos. A trama sempre gira em torno do mesmo assunto e só irão mudar a tribo, o local, alguns costumes, e quais serão os animais que levarão a pior, para aumentar a dose de choque do espectador. Sem contar as cenas à la Animal Planet, em que os bichos se engalfinham por conta própria, como uma jiboia asfixiando e engolindo um lagarto e outra cobra se degladiando com um morcego. Deodato, um dos maiores João Sem Braço do cinema italiano, alega que as cenas de crueldade animal, incluindo aí o jacaré esfolado e uma outra cobra que tem a cabeça esmagada, foram adicionadas pelo produtor Giorgio Carlo Rossi sem sua permissão. Sei…

Para quem já se esbaldou com Cannibal Holocaust, este O Último Mundo dos Canibais serve mais como uma prévia para sabermos de verdade o que Deodato iria aprontar em seu próximo polêmico, controverso e banido longa. Até o título que ganhou em DVD nos EUA, “Jungle Holocaust”, obviamente foi pensado em capitalizar em seu maior sucesso. Vale pelo registro e as cenas de brutalidade.

Sobras do jantar

Sobras do jantar

Serviço de utilidade pública:

O DVD de O Último Mundo dos Canibais não foi lançado no Brasil.

Download: Torrent (sem legenda em português) aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] Kerman, figurinha carimbada dos filmes de canibais, que já havia estrelado Cannibal Holocaust e O Último Mundo dos Canibais – ambos de Ruggero Deodato), para ajudar a localizar o seu paradeiro. Ao se embrenharem no meio […]

  2. […] registrada do ciclo. E no mesmo ano de 1977, Deodato dirigiria seu primeiro filme sobre o tema, O Último Mundo Canibal, lançado oito meses antes, que obviamente foi inspiração para este […]

  3. Matheus L. CARVALHO disse:

    Filme legal.

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