37 – A Marca do Vampiro (1935)


Mark of the Vampire


1935 / EUA / P&B / 60 min / Direção: Tod Browning / Roteiro: Guy Endore, Bernard Schubert / Produção: Tod Browning, E.J. Mannix / Elenco: Bela Lugosi, Lionel Barrymore, Elizabeth Allan, Lionel Atwill, Jean Hersholt


 

Um filme dirigido pelo Tod Browning, com Bela Lugosi no elenco fazendo o papel de um… hã, conde vampiro, um professor especialista no oculto que tenta derrotá-lo, um casal jovem e apaixonado onde a mocinha é mordida e fica a mercê da terrível criatura. Opa, acho que já vi esse filme antes… Só que não! A Marca do Vampiro parece que é uma coisa, mas é outra em um final deliciosamente surpreendente.

Juro que comecei a assistir a essa fita com um enorme pé atrás. Cinco anos depois de Drácula, diretor e estrela se reúnem para fazer uma cópia em carbono do clássico da Universal para a MGM, mudando nomes e situações? Achei de uma baita picaretagem. Como eles se atreveram a protagonizar um filme desses? Browning, um dos mais importantes (e menosprezados, infelizmente) diretor de terror de sua época e Lugosi que havia imortalizado o conde, sujeitando-se a esse plágio?

Mas quando A Marca do Vampiro entra em seu terceiro ato, de repente ele dá uma reviravolta completamente maluca e do nada, o filme torna-se genial. Naquela época não era nem um pouco comum vermos esses twists na trama (hoje saturados), que enganam o espectador durante boa parte do filme e depois mostra uma coisa completamente inimaginável. E nesse quesito o filme é extremamente ousado, e mais uma mostra da capacidade de Browning como um contador de histórias. Além de tudo, tira sarro, junto com Lugosi, do principal sucesso das suas carreiras, os quais seriam reféns até o final de suas vidas.

Fora isso, A Marca do Vampiro é um filme insólito, difícil de entender, que pode se tornar inteligível em determinados momentos, já que a MGM simplesmente ceifou 20 minutos (isso mesmo que você leu, 20 minutos) da fita, a revelia de Browning. O estúdio estava preocupado com o exagero do diretor em Monstros e fez questão de passar a foice (eliminando até uma possível insinuação de incesto e a explicação do porque o personagem de Lugosi tem aquele maldito ferimento de bala na testa, ao melhor estilo Mikhail Gorbachev), para poder atingir um público maior. Impossível uma obra manter seu esqueleto original de roteiro com 20 minutos a menos. E isso prejudicaria demais o andamento do filme, já que muita coisa não faz o menor sentido, se a confusão na história não acabasse tornando-a tão interessante.

Papai e filha vampiros

Não está entendendo nada, não é? Então vamos aos fatos: A Marca do Vampiro começa com um vilarejo sendo aterrorizado por um vampiro, o Conde Mora (interpretado por Lugosi, que mal tem falas praticamente o filme todo e só fica mudo com aquele seu jeitão canastra de olhos esbugalhados com uma luz lançada sobre eles) e Luna (Carroll Borland), sua filha sedenta de sangue, que moram em um castelo cheio de morcegos e teias de aranha. É quando o ilustríssimo Sir Karrel Boroty, um importante figurão do local é encontrado morto, com a característica marca da mordida de vampiros em seu pescoço e o sangue todo drenado.

Com a morte de Karrel, ele deixa seu castelo como herança e a tutela de sua filha, a bela Irena, aos cuidados do Barão Otto (Jean Hersholt). Detalhe que Karrel morreu pouco antes de do casamento da filha com o jovem Fedor. Durante a investigação médica, o Dr. Doskill conclui que a causa foi mesmo vampirismo, e uma investigação policial toma curso, chefiada pelo inspetor Neumann (outra figurinha carimbada do cinema de horror, o ator Lionel Atwill).

Ele recebe a ajuda do Professor Zelen, interpretado impecavelmente por Lionel Barrymore, cópia descarada de Abrahan Van Helsing, que já começa a convencer todos que realmente há terríveis vampiros a solta, com uma penca de suas teorias malucas. É durante essa investigação que Irena é atacada por Luna, e como reza a tradição, estará à mercê do domínio vampírico todas as noites, com sua longa camisola de seda, indo ao chamado das criaturas das trevas no jardim, exatamente como a Lucy de Drácula!

Personagens em uma intrincada teia… de acontecimentos

Lá pelas tantas o filme tem a sua reviravolta maluca, completamente absurda e sem noção, que eu preciso muito comentar aqui, que é o que vai dar todo o charme à produção. Então já sabe, alerta de SPOILER. Pule para o último parágrafo ou leia por sua conta e risco. Na verdade essa história toda de vampiro não passava de uma puta farsa, arquitetada por Neumann e Zelen para capturar o real assassino do Sir Karrel. Não existe vampiro coisa nenhuma, e Zelen usa das suas habilidades hipnóticas para hipnotizar o Barão Otto e que com isso ele faça a reconstituição do crime, revelando-se como o verdadeiro assassino, motivado por ciúmes de Irena.

Então, usando um sósia de Karrel, que atuava como um morto-vivo (??!!!), Otto se incrimina na reconstrução envenenando-o e fazendo a marca em seu pescoço com uma tesoura, para simular a mordida do vampiro, e esquenta um copo para coloca-lo no ferimento e fazer a sucção de todo o sangue (em um copo, você consegue fazer um ventosa esquentando-o, e sugar todo o sangue de uma pessoa???? Senta lá, Cláudia). Irena e todos os empregados estavam mancomunados nessa história doida. Só seu noivo Fedor que não sabia de nada. E o Conde Mora e sua filha, Luna, na verdade eram dois atores de circos contratados para fazer o papel dos vampiros. E Lugosi solta a seguinte pérola com seu carregado sotaque húngaro, na cena final, ao se despir do personagem: “Este negócio de vampiro me deu uma grande ideia para um novo número. Nesse novo número, eu serei um vampiro. Você me viu? Eu dei o melhor de mim. Estive melhor que qualquer vampiro autêntico”. Impagável

Toda essa maluquice faz A Marca do Vampiro ser um filme fantástico. Além de ter a sempre ótima direção de Browning, uma fotografia primorosa, do genial James Wong Howe (que seria o diretor de fotografia de Cidadão Kane alguns anos depois), além de excelente ambientação e mixagem de som. Para completar, é um filme que serviu como referencia para outras obras, como Plano 9 do Espaço Sideral de Ed Wood (os personagens de Lugosi e Carroll Borland inspirariam a dupla de Joanna Lee com Lugosi em seu último filme) e também Luna foi inspiração confessa para a criação da personagem Mortícia, de A Família Addams.

Ah, vá que não é o Drácula?


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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] Basil Rathbone faz o papel do Barão Wolf von Frankenstein, o tal filho de Franekenstein (afinal nunca se esqueça que Frankenstein é o cientista, e não o monstro, como muita gente ainda erra, e isso é até comentado no próprio filme, onde indignado com o tratamento sempre dado a seu pai, Wolf diz que nove em cada 10 pessoas confundem o nome da criatura com o pai).  Também é digno de uma atuação excelente. Detalhe que Rathbone, eternizado como Sherlock Holmes nos filmes do personagem na déacada de 40, acabou substituindo Peter Lorre, de M, O Vampiro de Dusseldorf e Dr. Gogol – O Médico Louco, que não pode fazer o papel por motivos de saúde. Completa o quarteto o também sempre eficiente Lionel Atwill como o inspetor Krogh, outro grande nome do cinema de horror, que já havia atuado em filmes como O Morcego Vampiro, Os Crimes do Museu e A Marca do Vampiro. […]

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