374 – Magia Negra (1978)

magic

Magic

1978 / EUA / 107 min / Direção: Richard Attenborough / Roteiro: William Goldman / Produção: Joseph E. Levine, Richard P. Levina, C.O. Erickson (Produtor Executivo) / Elenco: Anthony Hopkins, Ann-Margret, Burgess Meredith, Ed Lauder, E.J. André

 

Ventríloquos e seus bonecos por si só já são assustadores. São elementos que já desencadeiam uma espécie de medo primal irracional, assim como gatos ou palhaços. E se tem um filme que explore esse tema e seja sensacional, é este Magia Negra, dirigido por Sir Richard Attenborough e com um impecável Anthony Hopkins no papel principal.

Lá nos idos anos de 1945, o filme Na Solidão da Noite trouxera uma assustadora história de ventriloquismo em seu segmento “The Ventriloquist Dummy”, dirigido pelo brasileiro Alberto Cavalcanti. Nele, o ventríloquo Maxwell Frere passa a sofrer de um ataque esquizofrênico de dupla personalidade, creditando ao boneco Hugo o real controle de sua vida e ações. Magia Negra parte do mesmo pressuposto, baseado no livro de William Goldman (que também escreveu o roteiro), claramente inspirado por esse conto.

Sir Richard Attenborough resolveu dirigir Magia Negra para conseguir o financiamento para seu próximo filme, o oscarizado Gandhi, e trouxe mais uma vez para o papel um jovem Anthony Hopkins com quem já havia trabalhado anteriormente (que não foi a primeira opção para interpretar o ventríloquo Corky, preterido por Jack Nicholson e Gene Wilder – este vetado pelos produtores por ser um comediante).

Corky é um verdadeiro loser. Discípulo do outrora grande Merlin (E.J. André), seu começo de carreira como mágico é um fracasso, após uma frustrada apresentação em uma noite amadora de um clube de comédia local. Passa-se um ano e Corky virou um sucesso graças a seu boneco, Fats (que é idêntico a Hopkins, o que por si só já causa um tremendo desconforto). Corky é desbocado, politicamente incorreto, sexista e misógino. A plateia lota todos os shows do ventríloquo para ouvir suas piadas sujas e o agente Ben Greene (vivido pelo veterano Burgess Meredith) acha que é o momento certo de levá-lo para a televisão.

Quem é Corky e quem é Fats?

Quem é Corky e quem é Fats?

Só que Corky surta quando descobre que terá que fazer um exame médico admissional de praxe (ou seja, há alguma coisa errada com o sujeito) e simplesmente desaparece, deixando a grande oportunidade de sua vida para trás, voltando ao local de sua infância e reencontrando um antigo amor colegial não correspondido, Peggy Ann Snow (Ann-Margret) que administra uma pensão à beira do lago com seu então marido, Duke (Ed Lauter).

Como Duke vive viajando e o casamento de Peggy Ann está em ruínas, com a garota completamente infeliz, um relacionamento floresce entre os dois e a moça parece estar caidinha pelo ventríloquo, apesar dele utilizar de trapaça em um truque que conquista seu coração de vez. Tudo está indo relativamente bem, quando Corky começa a ter atitudes desequilibradas e vemos que realmente o sujeito tem um parafuso a menos, comprovado quando Greene o encontra em sua fuga e desafia-o a ficar cinco minutos sem que Corky fale qualquer coisa, percebendo a instabilidade mental de seu agenciado. E que cena espetacular essa mostrando o porquê de Hopkins ser um verdadeiro monstro.

Psicologicamente afetado pela influência do boneco, Corky torna-se violento, “controlado” pelos desejos assassinos de Fats, criando uma inversão de papeis, com Corky tornando-se uma verdadeira marionete do boneco. O assassinato de Greene, com graves ferimentos na cabeça quando Corky o atinge com toda força com o boneco, será o estopim para uma espiral de loucura acometer o ventríloquo de uma vez por todas, que trará uma terrível consequência final, principalmente tratando-se do triângulo amoroso Corky-PeggyAnn-Duke.

Medo de bonecos de ventríloquo!

Medo de bonecos de ventríloquo!

O “embate” final entre um perturbado Corky e um endemoniado Fats é a cereja do bolo. E o melhor de tudo é conclusão em aberto, quando fica aquela pergunta no ar sem esclarecimento aparente, sobre a verdadeiro influência do boneco em seu mestre: é tudo culpa de um transtorno psicótico de Corky ou há alguma coisa sobrenatural em Fats? Magia Negra então dá uma pista bem em sua última cena que o deixa estupefato.

Agora aquele boneco é realmente de cagar nas calças. Principalmente nas cenas arrastadas de suspense magistralmente conduzidas por Attenborough, onde vemos o boneco parado, com aquele sinistro rosto de madeira, réplica de Hopkins, esperando que o desgraçado vá se mexer sozinho ou dar uma piscadela. Reza a lenda que o ator levou o boneco para sua casa para trabalhar o personagem, mas ele ficou tão nervoso com a presença da marionete que chamou o ventríloquo consultor no meio da noite, ameaçando jogar Fats em um buraco se alguém não fosse tirá-lo de sua casa imediatamente. Precisou Attenborough ir até lá para acalmar o ator.

Magia Negra é um filmaço. Simples, muito bem conduzido, atuações impecáveis, que vai cozinhando o espectador em banho-maria (mas já pressentindo que alguma coisa errada vai acontecer) até o trem descarrilhar e Hopkins simplesmente dar uma aula de atuação até seu final de cair o queixo. Um suspense com S maiúsculo.

Anthony & Hopkins

Anthony & Hopkins

Serviço de utilidade pública:

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Paulão Geovanão disse:

    Esse é bem obscuro. Eu nunca ouvi falar nele.

  2. […] por Rod Serling e com William “Capitão Kirk” Shatner no elenco e também inspirou o excelente Magia Negra, com Anthony Hopkins. Fora isso, o boneco do filme Gritos Mortais, de James Waan, lembra muito a […]

  3. […] Boneca do Demônio, os filmes com bonecos de ventríloquos do mal como Na Solidão da Noite ou Magia Negra mesmo o sensacional conto da antologia de José Mojica Marins em O Estranho Mundo de Zé do […]

  4. Vinicius Rosa disse:

    Olá, perdoe a ignorância, mas onde está o link para o download. Parabéns pelo belo trabalho.

  5. […] Lauren Cohan (The Walking Dead) o trailer clama por Chucky, Annabelle, Pinóquio, o boneco Fats de Magia Negra ou mesmo de Gritos Mortais, e ainda mistura aquele clima de casarão gótico vitoriano e uma babá, […]

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