376 – Os Olhos de Laura Mars (1978)

Eyes-of-Laura-Mars-poster

Eyes of Laura Mars

1978 / EUA / 104 min / Direção: Irvin Kershner / Roteiro: John Carpenter, David Zelag Goodman / Produção: Jon Peters, Laura Ziskin (Produtora Associada), Jack H. Harris (Produtor Executivo) / Elenco: Faye Dunaway, Tommy Lee Jones, Brad Dourif, Rene Auberjonois, Raul Julia, Frank Adonis

 

Os Olhos de Laura Mars é o retrato da cafonalha dos anos 70. Se houve um filme de terror que fosse o reflexo do hedonismo daquela década, com certeza foi esse daqui. Tudo aqui remete ao glamour, superficialidade, “culto ao eu” e futilidade dos seventies, desde sua trilha sonora repleta de disco music, sensação musical da época (e aquela música tema piegas de Barbra Streisand) até a profissão dos envolvidos na trama.

Mas tirando as aparências, Os Olhos de Laura Mars só consegue funcionar por causa de um nome: John Carpenter, que escreveu a história original e o roteiro do longa. Isso nos remete a momentos de suspense, violência e sexualidade, só que tudo de forma comedida para americano ver. A trama se baseia em um serial killer que começa a matar brutalmente com um picador de gelo, pessoas próximas a tal Laura Mars do título (vivida por Faye Dunaway), fotógrafa nova-iorquina de moda que insere elementos gráficos e violentos por meio de cenas de morte e assassinato em suas fotos e seu trabalho com modelos.

Acontece que Laura tem uma espécie de clarividência e consegue de alguma forma psíquica se conectar com a mente do assassino e enxergar através de seus olhos, o que a transforma em uma atormentada testemunha ocular e vê seus amigos e pessoas que trabalham com ela sendo cruelmente assassinados. O detetive John Neville (um jovem Tommy Lee Jones) é encarregado de investigar os crimes e tentar proteger a moça.

Diga "X"

Diga “X”

Surge entre eles um desnecessário romance dos mais piegas (e aquela cena dele se declarando em um belo jardim durante o outono?), para claramente agradar plateias e estúdio, que quase consegue fazer o filme naufragar (para mim, não para o público americano que fez de Os Olhos de Laura Mars um dos campeões de bilheteria daquele ano, faturando mais de 20 milhões de dólares, contra seu orçamento de 7 milhões).

Quanto a identidade do assassino? Vários suspeitos são jogados na trama, só que todos óbvios demais. E só saberemos quem é o verdadeiro maníaco psicopata e sua verdadeira perversão e motivos quando a própria Laura Mars o faz. Tá, um pouco antes vai, na cena da morte no elevador do prédio onde ela mora. Discutível sua identidade e toda aquela ladainha sentimentaloide final. Mas o que não conseguia sair da minha cabeça durante os 104 minutos de projeção eram dois pensamentos:

O primeiro era como seria Os Olhos de Laura Mars se ele tivesse sido feito na Itália? Sim, porque ele tem todas as características do giallo: o assassino psicopata frustrado que passou por alguma experiência traumática e gosta de matar principalmente mulheres; a estrutura policial digna dos whodunint? de Edgar Wallace; mortes brutais vistas em POV (no caso de Laura) onde vemos apenas um sujeito de capote e luvas com seu picador de gelo; e a reviravolta estrambólica em seu final. Mas acredito que seria um baita giallo a meu ver, pois claro que teríamos mais violência e nudez em primeiro lugar, e porque na verdade Laura iria se relacionar emocional e sexualmente com algum escroque ao invés do policial solícito.

Cafonalha setentista

Cafonalha setentista

Outro pensamento era como seria Os Olhos de Laura Mars se ele tivesse sido dirigido por Carpenter, pupilo e admirador confesso de Alfred Hitchcock. Se em Halloween – A Noite do Terror e Alguém me Vigia ele já tinha nos mostrado que sabia fazer (e bem) a coisa, o fraco suspense imprimido pelo diretor Irvin Kerschner, que obviamente por motivos comerciais preferiu mais se ater a ostentação do mundo da moda e da fotografia de Nova York, sua efervescente cena de discoteca e aquele romancezinho barato, poderia ter se tornado um senhor suspense se Carpenter estivesse por trás das lentes. Coisa que só ficaremos no “e se…”. Podia ser pior e Barbra Streisand, então namorada do produtor John Peters, ter aceitado o papel originalmente oferecido a ela.

Um detalhe interessante é que a inspiração para o trabalho de Laura Mars veio dos ensaios do fotógrafo alemão Helmut Newton, famoso por revolucionar a atitude na fotografia de moda ao publicar nos anos 70 composições que misturavam sexo, sadomasoquismo, violência, lesbianismo e nudez, retratados num contexto de luxo e beleza. Suas fotografias reais que emolduram as paredes do estúdio de Laura no filme.

Os Olhos de Laura Mars é um suspense que tem seus dois pés fincados nos estereótipos da década de 70 e repleto de exagero, que hoje, soa brega e superficial, mas que foi um arasa-quarteirão na época, servindo como o primeiro trabalho de Carpenter para um grande estúdio e como um ponto de ascensão na carreira de Tommy Lee Jones e na constatação do estrelato de Dunaway.

Atire ali

Atire ali

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Os Olhos de Laura Mars está atualmente fora de catálogo.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: