381 – As Uvas da Morte (1978)

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Les raisins de la mort / The Grapes of Death

1978 / França / 85 min / Direção: Jean Rollin / Roteiro: Jean Rollin, Christian Meunier, Jean-Pierre Boyxou (história) / Produção: Claude Guedj, Jean-Marie Ghanassia (Produtor Associado), Christian Ruh (Produtor Executivo) / Elenco: Marie George Pascal, Félix Marten, Serge Marquand, Mirella Rancelot, Paul Bisciglia

 

O roteirista e diretor francês Jean Rollin, depois de uma extensa filmografia de filmes de vampiros calcados no erotismo (sem contar seus pornôs), resolve voltar suas lentes para o gênero zumbi em As Uvas da Morte, sensacional título tirando uma com a cara do livro “As Vinhas da Ira” do americano John Steinbeck (cujo título em inglês é The Grapes of Wrath).

Com mais de 50 filmes em seu currículo, Rollin, assim como sua “alma gêmea” Jesús Franco, foi um dos pioneiros na arte de misturar o erótico com o terror descaradamente e ser eternizado no gênero, tornando-se um nome cultuado da escola europeia do cinema barato de horror, e enquanto isso também vivia dirigindo muita pornografia sob pseudônimos para levantar financiamento para suas obras autorais ou por mera sobrevivência (tal qual o próprio Franco ou mesmo José Mojica Marins, se quisermos um exemplo mais próximo de casa).

Assistir aos filmes vampirescos de Rollin necessita estar no clima, pois ele costuma usar de metalinguagem, desconstrução narrativa, abuso da estética nonsense, roteiros por vezes confusos e situações lisérgicas. Está aí Le vioul du vampire (ou The Rape of the Vampire) que não me deixa mentir, lançado em pleno maio de 68, com os vampiros considerados alienação política e subproduto artístico pela barricadas de Sorbonne, o qual reza a lenda que a sala de exibição do filme escapou por pouco de ser depredada.

Mas As Uvas da Morte não é tão insólito e delirante quanto as aventuras de suas vampiras lésbicas anteriores. A narrativa é linear e segue dentro do possível o convencionalismo do cinema morto-vivo tradicional. Mas ali está todo o conjunto de excentricidades que Rollin sempre coloca em seus longas: erotismo, violência gráfica, gore, mulheres nuas e protagonistas que pouco falam, sem expressão, sem veias morais bem definidas e motivações por vezes escusas, frustrando o arquétipo dos personagens das mitologias em que eles se encaixam.

Cabeças irão rolar...

Cabeças irão rolar…

Escrito por Rollin e Christian Meunier (em uma história do diretor e de Jean-Pierre Boyxou), a trama simples enfoca no efeito colateral em algo trivial: um agrotóxico é utilizado em uma vinícola como pesticida para acelerar a produção de vinho de forma mais barata (já que em certo momento é declarado que esse agrotóxico foi criado por conta das altas taxas submetidas aos agricultores), só que acaba transformando a todos que tomaram aquele vinho em zumbis (algo que me lembra a trama de Zumbi 3 de Jorge Grau). Mas não são aqueles zumbis no sentido bíblico de mortos-vivos sedentos por carne humana à lá George Romero. E sim um grupo de aldeões que começam a apresentar erupções cutâneas nojentas e são acometidos por um surto de raiva.

A nossa protagonista, Elisabeth (Marie-Georges Pascal) está viajando de trem até Roublés, no interior da França onde irá encontrar o noivo, Michel (Michel Herval) que justamente trabalha nessa vinícola. Sua amiga é atacada e morta por um desses infectados com o rosto necrosado e começa então uma luta pela sobrevivência da heroína em um ambiente desconhecido e sem conseguir entender muito bem os motivos do porque estar ocorrendo essa insurreição. E muito menos que os motivos são etílicos!!!

Para piorar, ela encontra nessa escapada a cega Lucie (Mirella Rancelot) que também não será de muita valia por conta da sua deficiência visual (algo que me lembrou a garota cega de Terror nas Trevas de Lucio Fulci – que é posterior a As Uvas da Morte), enquanto a própria Elisabeth está tão aturdida, que não consegue simplesmente tentar ajudar ninguém que não seja ela mesma, enquanto mantém-se focada no objetivo de encontrar seu noivo. Mas isso não a colocará como vítima indefesa contra os moradores do vilarejo sedentos por matança e personagens excêntricos, como uma ninfomaníaca chamada no IMDb como “La grande femme blonde”, vivida por Brigitte Lahaie – musa pornô do diretor – que sem a menor explicação, é mancomunada com os demais moradores, parece ter um elo psíquico com eles e a responsável pela cena de nudez frontal do filme.

Fulci esteve aqui?

Fulci esteve aqui?

Nessa jornada ela ainda será ajudada por dois caipiras Paul (Felix Marten) e Lucien (Serge Marquand) a chegar até seu noivo, ambos responsáveis pelo alívio cômico do filme, que em determinado momento tem a brilhante ideia de explodir os infectados com dinamite (!!!???). Elisabeth passa por toda aquela provação só para ter uma má notícia (que já esperamos desde o começo do filme) e aí sim ter uma reviravolta interessantíssima no final, quando a vemos em uma situação desesperadora e tomada pelos seus sentimentos, beirando o choque e o desequilíbrio, mas mesmo assim, ciente de seus atos, deixando de lado toda a alienação que carregava até aqui, ao melhor estilo filme zumbi onde vale tudo na hora que a necessidade aperta, pois senão você está fadado a entrar em colapso ou não sobreviver nesse mundo selvagem.

Quanto à produção, não há o que dizer senão que é um filme B tosco europeu com pretensões artísticas. Maquiagem precária (tanto que o filme foi gravado em locações com temperaturas tão baixas que os efeitos no rosto dos personagens começaram a congelar e ficou impossível eles parecem mais “realistas” nas câmeras), situações que beiram o ridículo, atuações do mais baixo calibre (Rollin sempre optava por atores amadores ou oriundos do cinema pornô), mas com certeza não decepciona na dose de violência em profusão com cenas de decapitação, sangue, nojeira, mutilação, crucificação e nudez, claro.

Mas ainda assim, As Uvas da Morte é a “obra prima barata” de Rollin. O melhor filme para se assistir se quiser conhecer a filmografia desse excêntrico diretor sem se chocar com suas viagens absurdas anteriores. Abra um vinho e deixe se levar pela película sem muita pretensão. Só não se esqueça de conferir a safra. Se for Roublés ano 78, melhor evitar.

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Bela de uma garfada

Serviço de utilidade pública:

O DVD de As Uvas da Morte não foi lançado no Brasil.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

2 Comentários

  1. […] o melhor que pode, até por já estar familiarizado com o gênero, já que dirigiu anteriormente As Uvas da Morte, que é Cidadão Kane perto disso […]

  2. Matheus L. CARVALHO disse:

    Um filme maravilhoso.
    Um dos melhores do cinema de terror europeu.

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