388 – Buio Omega (1979)

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Buio Omega / Beyond the Darkness / Blue Holocaust

 1979 / Itália / 94 min / Direção: Joe D’Amato / Roteiro: Ottavio Fabbri, Giacomo Guerrini (história) / Produção: Marco Rossetti / Elenco: Kieran Carter, Cinzia Monreale, Franca Stoppi, Sam Modesto, Anna Cardini


Que Joe D’Amato é um sujeito xarope, quem é fã de terror já sabe. Para quem não está familiarizado com o nome, pense que ele foi responsável por Emanuelle e os Últimos Canibais, representante do ciclo italiano canibal misturado com a personagem ninfomaníaca safada, o controverso Antrhopophagus e sua infame cena onde o vilão devora um feto recém-abortado, e o pornô hardcore com zumbis Erotic Night of Living Dead. Pronto, esses três exemplares o credenciam como um dos cineastas mais transgressores e retardados do gênero.

Mas Buio Omega é a comprovação por A + B que Aristide Massaccesi (seu nome de batismo) tem alguns parafusos a menos. Essa é sua “obra prima”, não que o termo possa ser aplicado a qualquer conotação artística que o filme possa ter, pois não tem nenhuma. E sim porque nessa história de amor suja, doente, repugnante e odiosa de um homem pelo cadáver de sua amada empalhada, é uma peça bruta, visceral e só para aqueles que têm estômago forte e não sejam impressionáveis.

Necrofilia sempre foi um tabu, até no cinema de horror. D’Amato como de praxe manda qualquer convenção cultural sobre o tema às favas e explora essa tara grotesca sem colocar o pé no freio, testando todos os limites possíveis do exploitation, abusando de vísceras, sangue, canibalismo e algumas das mortes mais escabrosas do cinema de terror. Buio Omega é um festejo à morte. A sublimação do amor na sua mais pura esfera, só que esse amor é doente para caralho, de alguém que não quer de nenhuma forma se desligar da pessoa amada, não tendo a morte como uma barreira.

Perdeu a cabeça

Perdeu a cabeça

E vamos pensar que estamos no ano de 1979 e Buio Omega foi feito muito, mas muito antes de outras produções consideradas perturbadoras e entrarem naquelas fatídicas listas dos filmes que farão nego perder a fé na humanidade, serem lançadas, como Nekromantik ou Aftermath (isso para ficarmos só no campo da necrofilia). Roteiro? Não tem. Uma única história serve de fiapo condutor para a loucura demente de Frank Wyler (Kieran Carter), taxidermista endinheirado que mora em uma pequena vila cuidada por Íris (Franca Stoppi), uma governante rabugenta, possessiva e que vive fazendo joguinhos sexuais com o mesmo.

Frank tem uma namorada, Anna Völki (Cinzia Monreale) que está enferma no hospital e acaba por perder sua vida por conta de um ato vodu praticado pela ciumenta Íris. Inconformado e incapaz de superar a dor da perda, Frank rouba o corpo da garota do cemitério e transforma-a em sua boneca empalhada. A cena didática e extensa mostrando os procedimentos de evisceração da garota nua em pelo sobre a mesa, quando os seus órgãos são retirados e jogados dentro de um balde, depois todos seus fluídos corporais sendo sugados para serem substituídos por um líquido embalsamante, é de deixar o mais vivido espectador de filmes de terror nauseado, tamanha impassividade e nojeira com que D’Amato dirige a cena.

Daí pra frente, uma sequência de cenas absurdas sem o menor sentido vão se seguindo somente para o diretor compor sua ópera da morte, onde a vida humana passa a ter valor zero e mostrar uma estranha relação de subserviência entre Frank, Íris e claro, o corpo sem vida de Anna, maquiada e deitada em sua cama. Primeiro uma gordinha pega carona com o rapaz e adormece fumando um gigantesco baseado. Ela acorda na garagem de Frank e o pega com a boca na botija embalsamando a “noiva cadáver”.  Não basta ela ser morta estrangulada não. Primeiro ele arranca com um alicate TODAS as unhas de seus dedos, e depois de morta, com a ajuda de Íris, que decapita a moça nua e decepa todos os seus membros, joga os pedaços em uma banheira de ácido para decompô-la. Essa cena seguida de um jantar onde Íris come porcamente uma refeição escrota, é preciso muito sangue frio e autocontrole para segurar o vômito.

Breaking Bad feelings

Breaking Bad feelings

Continuando o nonsense, uma gracinha está fazendo cooper perto da vila de Frank, torce o tornozelo e é levada para a casa dele para que ele possa fazer um curativo. Ela vai querer dar para o cara, assim fácil, fácil, e então ele a leva para o quarto para fazerem um, digamos, ménage à trois com o defunto. Mais doentio é impossível. Como se não bastasse, Frank também tem um lado meio canibal e ataca a moça com dentadas em sua jugular (ele já havia dado umas mordidelas no coração de Anna durante o processo de extração de órgãos) e depois, novamente com a ajuda de Íris, vai ser metida na imensa fornalha no porão para ser incinerada viva (com destaque para close no bico do peito da moça pegando fogo). Enquanto tudo isso acontece, o agente funerário pago pelos pais de Anna para que tomasse conta do corpo, começa a investigar por sua conta própria o roubo do cadáver e tenta recuperá-lo. As ações de todos os personagens culminam quando Elena, a irmã gêmea de Anna, vai até a vila despedir-se do ex-cunhado.

D’Amato pouco se importa com o discurso e a com a construção de uma história sensata. Tudo é motivo para mais e mais cenas de choque e terror, transgressão, violação do corpo humano, que nada mais é quem um saco de carne, sangue e tripas. É cinema cru, simples, tosco, sem papas na língua e sem nenhum pudor com uma passividade assustadora. E para piorar, aqui o vilão é o mocinho. Não há nenhum maniqueísmo aparente. O responsável pelos atos necrófilos e de barbárie é o protagonista. Aquele que somos testemunha ocular de seus atos nefastos, e que nos aproxima do longa. E isso que deixa mal aquele que assiste. Porque ele é um maluco de pedra, mas nas entrelinhas, faz tudo por amor, o mais nobre dos sentimentos.

D’Amato é um demente mestre da baixeza. Buio Omega é seu retrato mais cruel e perverso dos desejos obscuros da mente humana, e difícil acreditar que o cara não está sentindo tesão naquilo que está fazendo com tamanha maestria. Contestadora e desafiadora de limites, a fita não é nem um pouco recomendada para puritanos, casais apaixonados ou aqueles que apenas desejam uma sessão pipoca de filme de terror. É bom que você esteja ciente que o assistindo está entrando em um caminho sem volta, mostrando que o cinema pode sim explorar psicoses sombrias e fetiches que simplesmente gostaríamos que não existisse ou que ficassem embaixo do tapete, mas que vai além da escuridão.

Preparando linguiça

Preparando linguiça

Assista ao episódio do videocast do 101 Horror Movies comentando Buio Omega:

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Buio Omega não foi lançado no Brasil.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

6 Comentários

  1. Danilo disse:

    belo post, sempre bom ver uma introdução ao tema antes de baixar o filme!

  2. MARCOS MUITO OBRIGADO MAIS UMA VEZ PELO SERVIÇO GRATUITO QUE VOCÊ SE PROPÕE A FAZER DISPONIBILIZANDO ESSAS JÓIAS DO CINEMA DA TERRA DA BOTA E ESSA BOTA CHUTA BUNDAS!!!! ESSE FILME É AO MESMO TEMPO REPUGNANTE E UM DELEITE VISUAL, É OFENSIVO E UMA AULA DE COMO ENOJAR COM SUA PERVERSIDADE. A CENA FINAL ME ARREPIOU. QUE MENTE INSANA TEM ESSE JOE D`AMATO, NÉ? UM GRANDE ACHADO, UMA PÉROLA, UM DESLUMBRAMENTO. AS CENAS SÃO GRÁFICAS AO EXTREMO E COMO IMPRESSIONAM, DEMAIS!!!! CONTINUO COM MINHA MISSÃO DE GARIMPAR MAIS TÍTULOS DESCONHECIDOS POR MIM MAS NÃO SEM ANTES LER SUAS ÓTIMAS CRITICAS, GRANDE ABRAÇO.

  3. […] Leia a minha resenha sobre Beyond the Darkness aqui. […]

  4. Giovanni disse:

    Conserta o link, por favor.

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