391 – Fantasma (1979)

phantasm_1_poster_01

Phantasm

1979 / EUA / 88 min / Direção: Don Coscarelli / Roteiro: Don Coscarelli / Produção: D.A. Coscarelli, Paul Pepperman / Elenco: Michael Baldwin, Bill Thornbury, Reggie Bannister, Kathy Lester, Terrie Kalbus, Angus Scrimm

 

OK, temos que respeitar os clássicos. Fantasma é um filme de terror cult, que deixou muita molecada em parafusos, traz um dos personagens mais icônicos do gênero, o Tall Man, e foi feito na cara e na coragem por um iniciante e guerreiro Don Coscarelli. Mas tenho que confessar que o filme não me desce. Acho muito ruim, chato, sem pé nem cabeça e por mais que eu o assista, não consigo gostar. Opinião pessoal, sabe como é.

Mas meu gosto não invalida sua necessidade de estar neste blog como o devido clássico que é. É cinema barato que apela para a criatividade. Dirigido, escrito, fotografado, co-produzido e editado pro Coscarelli com um orçamento de 300 mil dólares, atores amadores e gravado só aos finais de semana, já que os equipamentos necessários eram alugados em uma sexta-feira e eram entregues na segunda, para que fossem pagas apenas uma diária, levando quase um ano para ficar pronto. Cinema independente até a última gota de suor, o que já é louvável.

Além disso, rola uma pegada folk em Fantasma, uma pegada interiorana já que é ambientado em uma típica cidadezinha dos EUA, mas que nas suas entrelinhas fala sobre aceitação e sentir-se deslocado, não pertencer ao local onde vive ou quadro social ali existente. Também é sobre dor da perda, descobertas sexuais e taras e principalmente sobre o medo da morte, que sim, é o maior medo de qualquer ser vivo. De como nem com a morte, o chamado descanso eterno, teremos sossego e podemos ser transformados em escravos anões de uma força maligna personificada na figura de um coveiro interdimensional alto pra chuchu.

A premissa de Fantasma é de bizarrice atrás da bizarrice. Além do sinistro Tall Man interpretado por Angus Scrimm (que também se transforma em uma loira gostosona maneater às vezes), temos esferas voadoras assassinas, anões malignos que se vestem como os Jawas de Star Wars, sangue amarelo que jorram de dedos decepados que depois se transformam em moscas esquisitas… Tudo bem sem noção, que prende (e impressiona) o espectador pela esquisitice. Tanto as críticas positivas e negativas, e os motivos que o levou a se tornar um objeto de culto e estar sempre presente nas listas de melhores filmes de terror é por conta da narrativa surreal e a imagética que brinca com a tênue linha sobre o que é sonho e o que é realidade.

Tall Man

Homem alto

A história surgiu na mente de Coscarelli em um sonho que teve durante o final de sua adolescência, quando sonhou que estava fugindo por longos corredores de mármore perseguido por uma esfera prateada que queria penetrar em seu crânio com uma agulha. Deste momento onírico do diretor e roteirista surgiu a mais emblemática cena do longa, quando essa esfera atinge a cabeça de uma vítima dentro de um mausoléu e começa a sair um potente esguicho de sangue.

A trama envolve três pessoas: Mike (Michael Baldwin), um garoto de 13 anos que parece não ter medo de nada, exceto que seu irmão, o andarilho metido a rock ‘n’ roll, Jody (Bill Thornbury), pegue sua moto e parta sem destino, após os pais deles terem morrido em um trágico acidente e os deixado órfãos; e o melhor amigo deles, o sorveteiro boa praça Reggie (Reggie Bannister). Eles estarão às voltas com o terrível Tall Man que anda profanando túmulos e assassinando outros membros da comunidade (geralmente usando uma tática de se transformar em mulher) para torna-los anões (que são interpretados por crianças) enviados para uma maligna dimensão paralela onde são feitos de escravos. E há um gigantesco ponto de interrogação em seu final sobre o que realmente aconteceu ou foi devaneio (ou válvula de escape psicológica) do garoto.

Mas o grande trunfo de Fantasma é a criação de Tall Man, com todo seu visual sinistro, e como ele se tornou um ícone do horror em uma década que não havia ícones do horror. Desde os monstros da Universal e suas reformulações da Hammer, o gênero não via vilões marcantes há um bom tempo. O niilismo e hedonismo dos anos 70 não permitia essa construção, e durante todo uma década, apenas Leatherface fora criado, mas que tornaria-se um ícone propriamente dito algum tempo depois, e Michael Myers havia nascido apenas um ano antes do lançamento do filme de Coscarelli e não se tornado um movie-maniac ainda. Dr. Phibes era muito excêntrico e camp para se encaixar neste grupo. Então aquele grande coveiro com seu terno preto e sobrancelha levantada foi sim um sujeito que meteu medo em muita gente e enraizou-se no imaginário popular dos fãs.

Fantasma é um horror existencialista que mistura elementos para lá de estranhos, gore barato e improvisado, e jogos mentais psicológicos que causam uma mistura desfocada proposital entre a vigília e o sono, misturado com acontecimentos bizarros que se alocam na imaginação de um garoto perturbado pela perda. Consegue ser complexo enquanto simples e isso é um ganho. Talvez eu ainda tenha que assistir mais algumas (muitas) vezes para realmente gostar do filme, mas ainda assim o recomendo.

Doação de sangue

Doação de sangue

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Fantasma não foi lançado no Brasil.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

12 Comentários

  1. Paulão Geovanão disse:

    Fantasma é o meu salário no fim do mês rs.

  2. Allan disse:

    Filme bem maluco e parece mesmo um pesadelo. Acho a franquia boa, no geral, mas as bizarrices só aumentam.
    E realmente, o Tall Man é um dos grandes vilões do cinema de terror.
    “BOOOOOY!!”, ehehe
    Se não me engano, Phantasm consta no livro 101 Horror Movies.

  3. Guilherme disse:

    Marcos, é claro que gosto realmente não se discute, mas fiquei um tanto surpreso ao saber que você não gosta tanto assim do filme, e ainda mais você, que tem se mostrado extremamente eclético em suas resenhas, gostando de praticamente todos os subgêneros em que se divide o Terror. Mas isso acontece com todo mundo, eu também não simpatizo nem um pouco com alguns filmes de terror que são venerados pelos fãs e que se eu dissesse aqui quais são, acho que eu seria linchado do blog. Rs!! Bom, acho que a melhor forma de ver, ou enxergar, este filme é ter em conta que se trata apenas de um filme B, e, portanto, não esperar muito dele. Partindo dessa premissa, um filme que a gente aparentemente não dava nada por ele começa a surpreender a cada nova cena, usando de muita criatividade e muita engenhosidade, misturando elementos sobrenaturais inusitados, como os assustadores duendes por exemplo, com ingredientes de ficção científica, como a tal esfera assassina e a parte interplanetária do enredo. O diretor consegue, muito inteligente e habilmente, driblar um orçamento baixíssimo usando de muita inventividade e criar um filme B que deixa aquele gostinho nostálgico de quero mais, e não foi à toa que surgiram as sequências, e que já puderam contar com uma produção mais caprichada. Este filme é tipo o caso de “Palhaços Assassinos”, um filme pequeno mas que, de tanta criatividade e inovação, surpreende o espectador o tempo todo e que, por isso mesmo, acaba tornando-se um grande filme e uma grata surpresa para os fãs do gênero. É também um horror um pouco na linha de filmes adolescentes, o que não o faz menos assustador por isso, e com um certo sabor de revistinhas em quadrinho no estilo de “Creepshow”, de George Romero e Stephen King. E tudo isso sem contar com o mérito de ter entregue ao gênero uma figura icônica inesquecível, que é o Tall Man. Quer dizer, é um filme que simplesmente tem um pouco de tudo e que mostra que nem de grandes produções vive o Terror. Até muito pelo contrário, uma parte significativa dos meus filmes de terror favoritos é constituída de filmes de baixo orçamento que conseguiram brilhantemente passar por cima desse empecilho e obter sucesso em seu propósito maior, que é provocar medo de verdade; e sempre cito o meu tão amado “Armadilha para Turistas” como o melhor representante.

  4. Eloísa disse:

    Gostei do filme pela nostalgia que ele passa. Para aproveitá-lo ao máximo, temos que assisti-lo sem pretensões, ou esperar muito, porque é perceptível o orçamento curto na elaboração do mesmo. Concordo com a postagem do Guilherme quanto a semelhança com “Crrepshow”, de Stephen King. Acrescento ainda, que o filme me lembrou ” Depois da meia noite”, uma produção que conta com 3 ou 4 contos de terror, também de autoria de King. Vale dar uma espiada.

  5. […] especiais de vários atores do cinema de terror, entre eles Angus Scrimm, o Tallman de Fantasma; Tony Todd, o Candyman; Kane Hodder, o Jason Voorhees a partir de ; e Ted Raimi, irmão de Sam […]

  6. […] confesso que tenho lá minhas restrições com Don Coscarelli. Eu não gosto tanto de Fantasma como muita gente por aí, e tampouco quanto deveria, e acho John Morre no Final miseravelmente ruim […]

  7. […] Scrimm, o Tall Man da cinesérie Fantasma e David Bowie, faleceram, respectivamente aos 89 e 69 […]

  8. Lucas disse:

    Me recordei desse filme hoje é uma pena que não estou conseguindo ele, me recordei do tempo de infância.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: