403 – Anthropophagus (1980)

ANTHROPHAGUS-1-1

The Grim Reaper / Man Beast / Savage Island

1980 / Itália / 90 min / Direção: Joe D’Amato / Roteiro: Joe D’Amato, George Eastman / Produção: Joe D’Amato, George Eastman, Oscar Santaniello / Elenco: Tisa Farrow, George Eastman, Saverio Vallone, Vanessa Steiger, Margaret Donnelly, Mark Bodin

 

Sem rodeios, Anthropophagus promete mais do que cumpre. Na verdade nem promete também. O que acontece é que o filme do canastríssimo diretor Joe D’Amato ganhou uma fama desproporcional no boca a boca, tanto na época de seu lançamento, quando mesmo incrivelmente nos dias de hoje em tempos de Internet e listas a rodo de filmes mais polêmicos, controversos, malditos, desgraçados, chocantes e por aí vai.

Tudo que envolve a produção da fita é mentira deslavada, mas que foi uma mola propulsora para se tornar tão famoso e tão cultuado entre os amantes dos filmes de horror (e curiosos em geral). Qualidade técnica zero, fiapo de história, trilha sonora esdrúxula, ritmo arrastado, atuações pavorosas… tudo é completamente deixado de lado por conta da famosa e infame cena do feto sendo arrancado do útero da mãe e devorado pelo malfadado canibal de George Eastman, assim como o fatídico auto-canibalismo.

Anthropophagus é um slasher movie italiano no final das contas, com cenas de suspense longuíssimas, muito blá blá blá, um vilão que só aparece realmente faltando vinte minutos para o filme acabar, e pasmem, sem nenhuma insinuação sexual ou nudez (tirando o vislumbre de um peitinho da esposa do canibal quando viva). E olha que estamos falando do excelentíssimo Aristide Massaccesi, nome verdadeiro de Joe D’Amato, na direção, sujeito responsável por Emmanuelle e o Últimos Canibais, Erotic Nights of the Living Dead e Porno Holocaust (esses dois últimos pornozão mesmo, com penetração e tudo mais).

Porcaria trash sem tamanho, feito com uma mixórdia de orçamento e tempo curtíssimo (algo que magistralmente D’Amato sabia contornar e extrair o melhor resultado possível dada essas combinações perigosas), Anthropophagus ganhou mesmo seu lugar no panteão na história da sétima arte por conta do anti-marketing. Acontece que a fita entrou na famigerada lista de nasty movies do DPP e foi banido da Inglaterra pelo BBFC. Primeiro que rolou na boca miúda aquela velha história de que um feto de verdade fora usado na cena e devorado vivo. Pasmem que tem gente que acreditou nisso tanto quando a morte do vilão foi real.  Pior, o filme até hoje NUNCA foi lançado em sua versão sem cortes na Terra da Rainha, mesmo quando foi reclassificado depois de 18 anos de seu lançamento, ganhando uma versão com quatro minutos a menos.

Canibal bonitão!

Canibal bonitão!

Bom, cá entre nós, em tempos de torture porn, slasher movies violentíssimos e da grosseria selvagem do novo cinema gore francês, Anthropophagus é muito dos sem graça e fraquinho. Poxa vida, como alguém em sua sã consciência vai acreditar que um feto foi arrancado e comido de verdade? Do jeito que a cena se desenvolve é anatômicamente impossível aquilo ter acontecido. Pera lá!!! Tudo bem que nos anos 80 temas como aborto e canibalismo eram muito mais tabus que hoje em dia (senão, o que seriam dos filmes italianos de canibais?). Mas daí para achar que aquilo se tratava de um filme snuff é um abismo gigantesco. D’Amato teve que jurar de pé junto que o tal feto na verdade era um coelho depelado.

Assim como a cena do auto-canibalismo, quando Nikos, o personagem antropófago de George Eastman, come suas próprias entranhas, abertas por um golpe de picareta. Sim, o maluco ia DE VERDADE comer suas tripas como se fossem salsichas, ahan!!! Isso sem contar que dá para sacar que a cena é falsa, cortesia do maquiador Gianetto Di Rossi, responsável pela maquiagem de alguns filmes de Lucio Fulci. Se tinha de ser banido, deveria ser pela sua ruindade e não por essas bobagens. Mas, fato é que tudo isso fez bem para o filme, e tem muita gente por aí que nunca o assistiu apenas por “não se atrever a ver um filme tão perverso e violento”.

OK, o filme é marginal e extremo (principalmente para a época), mas realmente não é para tanto. A trama (antes que eu me esqueça) começa com um casal de turistas felizes andando pelas vielas de uma ilha mediterrânea indo para a praia. Mais cara de filme slasher é impossível. Só faltou eles irem nadar sem roupa ou se pegarem, coisa que milagrosamente não acontece. Enquanto o sujeito fica na areia ouvindo música em seu fone/ walkman gigante, a moça vai nadar e, pelos diabos, o assassino canibal ESTÁ NO FUNDO DO MAR espreitando-a como um tubarão (inclusive usando a mesma técnica de Spielberg). Após dar cabo da garota (provavelmente com um ataque subaquático com um cutelo!!!) ele acerta a arma de cozinha no pobre coitado que ouvia música, alheio ao que acontecia ao seu redor.

Vem cá, minha filha!

Vem cá, minha filha!

Corta para um grupo de turistas que conhecem Julie (Tisa Farrow, irmã sem talento de Mia Farrow, que também está em Zumbi 2 – A Volta dos Mortos de Lucio Fulci) em um passeio de bonde, e resolvem ir com ela até uma ilha paradisíaca grega, encontrar uns amigos que moram por lá. Acontece que essa ilha é a residência do canibal, e ao chegarem, todo mundo ou desapareceu, ou foi devorado. Sim, um sujeito só foi capaz de dizimar e jantar toda uma ilha. É praticamente o Rambo canibal. Quer dizer, toda não, pois em determinado momento do filme, o grupo encontra uma garota semi-catatônica que se escondeu, sabe-se lá quanto tempo, em um tonel de vinho! Vai ficando cada vez melhor, não é?

Bom, não preciso dizer que nesse grupo tem uma grávida e ela é sequestrada pelo monstro desumano e levada para sua dispensa, isso depois de decapitar um dos sujeitos que estava no barco (ela havia ficado para trás por ter torcido o tornozelo logo ao sair do barco, enquanto os demais, incluindo o maridão gente boa, foram fazer um reconhecimento no local) – também embaixo d’água, detalhe – e colocar sua cabeça em um balde que a moça usava para fazer escalda pé. Isolados na ilha, os personagens terão de ao mesmo tempo, descobrir o que está acontecendo por lá, se há outros moradores, e tentar sobreviver da perseguição implacável de Nikos. Só descobrimos sua história através de fotos, um diário queimado e um rápido flashback onde mostra que ele, mulher e filho estavam à deriva e o sujeito surtou com o sol na cabeça e a fome, assassinando sua família para fazer uma boquinha. Depois disso, tomou gosto pelo crime e por carne humana.

Mas como polêmica é polêmica, Anthropophagus ficou imortalizado, mesmo sendo ruim de doer até a alma, cheio de furos no roteiro e todas as suas tosqueiras. Claro que há de se louvar a coragem de D’Amato e de Eastman em sambar na cara da sociedade e criar um filme tão controverso e com seus dois momentos chocantes de selvageria desmedida, e obviamente, as cenas de gore que recheiam as poucas mortes do longa. Porém o maior pecado é não aproveitar, sabe-se lá por falta de orçamento, deficiência técnica, falta de capacidade de elaborar um roteiro melhor, o personagem de Nikos, que renderia um incrível vilão, psicologicamente perturbado, dotado de uma estatura avantajada e força bruta tremenda, sem os menores princípios religiosos e morais, insano e deformado, jogando-o só nos vinte minutos finais da película, andando irritantemente devagar munido de seu cutelo preferido, sem nenhuma exploração mais profunda de sua persona, enquanto aquele monte de personagem ali na ilha só para morrer, com a profundidade de um pires, ficam enchendo linguiça com conversas triviais e pseudo cenas de suspense durante quase o filme todo.

Auto comendo-se a si mesmo!

Auto comendo-se a si mesmo!

Assista ao episódio do videocast do 101 Horror Movies comentando Anthropophagus:

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Anthropophagus não foi lançado no Brasil.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

4 Comentários

  1. RAFINHA disse:

    E eles falam de mim —-
    Quem acreditou que eu sou o Rafinha comenta

  2. […] Leia minha resenha sobre Anthropopgahus aqui. […]

  3. […] do ciclo italiano canibal misturado com a personagem ninfomaníaca safada, o controverso Antrhopophagus e sua infame cena onde o vilão devora um feto recém-abortado, e o pornô hardcore com zumbis […]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: