405 – Cannibal Holocaust (1980)

cannibal_holocaust_poster_091980 / Itália / 95 min / Direção: Ruggero Deodato / Roteiro: Gianfranco Clerici / Produção: Franco Di Nunzio, Franco Palaggi / Elenco: Robert Kerman, Francesca Ciardi, Perry Pirkanen, Luca Barbareschi, Gabriel Yorke

 

O que falar de um filme que se auto-intitula o mais controverso já feito? Pense em uma produção que resolve colocar todos os elementos possíveis para chocar o espectador em uma única película: estupro, empalamento, canibalismo, aborto, crueldade com animais, desmembramento, nudismo frontal… Isso é Cannibal Holocaust, o hors concours dos filmes exploitation.

Em 1980, Ruggero Deodato revolucionava o cinema. Sabe essa febre de filmes de found footage que vemos hoje em dia a rodo? Que Já tem até exemplo produzido no Brasil? Foi Deodato o percursor. Pois é, antes de A Bruxa de Blair virar um fenômeno cinematográfico e de marketing, Cannibal Holocaust já trazia esse conceito de exibir cenas gravadas como se fossem filmagens reais. E A Bruxa de Blair é filme de escoteiro perto desse daqui.

Cannibal chocou tanto o mundo e de maneira tão transgressora que o diretor acabou sendo preso, dez dias depois do lançamento nos cinemas e todas as fitas foram apreendidas, sob a acusação de que estava sendo exibindo um snuff movie, aqueles filmes, meio lendas urbanas, onde as pessoas são mortas de verdade em cena. Isso por dois motivos: o primeiro é que Deodato proibiu todos os atores do filme de fazer qualquer campanha de promoção do filme. Não apareceram em TV, nada. A segunda é porque as filmagens são extremamente reais, os efeitos visuais são fantásticos, obtidos através da magnífica maquiagem de Massimo Giustini e realmente parece que a galera está sendo trucidada em cena, tamanho o realismo.

Conclusão: Deodato só conseguiu sair do xilindró depois que apresentou os atores vivinhos da silva no tribunal e jurou de pé junto que não matou ninguém. Ninguém humano, para bem dizer. Porque o diretor promove uma verdadeira chacina explícita contra vários animaizinhos da selva: quatis, antas, ratazanas e uma tartaruga gigante de água doce, que é aberta e dissecada em pleno close, na cena mais nojenta já vista no cinema. Sério. Depois Deodato se arrependeu dessa barbaridade, mas também conseguiu escapar de uma multa pesada após alegar que os animais eram servidos de comida para a produção e os índios das tribos que participaram do longa. E só em 1983 ele conseguiu na justiça o direito de exibir o filme novamente.  Não preciso nem falar que foi proibido em diversos países. Foram 33 para ser mais preciso.

Me dá imagens!

Ah sim, a história. Um grupo de documentaristas, ao melhor estilo National Geographic, só que mega sensacionalistas, resolve viajar até a floresta Amazônica para encontrar uma tribo de canibais perdida do resto da civilização e fazer seu filme. Eles desaparecem e a Universidade de Nova York e uma rede de televisão financiam uma busca, liderada pelo antropólogo, Prof. Harold Monroe. Ao chegar lá, descobrem que a equipe tinha realmente encontrado essa tribo canibal e que foram o prato principal deles. O Prof. Monroe consegue recuperar as gravações e a todo custo, os executivos do canal querem exibi-las. Até realmente verem seu conteúdo inteiro e descobrirem porque os documentaristas foram devorados.

No tradicional choque de cultura entre homem branco e os nativos, os americanos alopram os índios de todas as formas possíveis e imagináveis. Primeiro eles acabam com o acampamento onde eles vivem, enfiando todos os locais em uma única oca e metendo fogo, gratuitamente, matando vários deles carbonizados. Depois eles transam na frente de vários outros índios pequenos que assistem a cena. Depois fazem um rodízio para estuprar uma nativa. E atiram nos coitados. E os humilham. E por aí vai. “Sobrevivência do mais forte˜, um deles dispara. Mas as coisas não iam ficar baratas. Eles são impiedosamente caçados, e violentamente assassinados. A única mulher do time é a que tem a pior morte. Ela é estuprada por vários selvagens, depois é linchada pelas mulheres da aldeia e depois desmembrada, com seus braços e pernas arrancados, sobrando só o tronco, até ser destroçada e comida ali mesmo pelos canibais. E lembrem-se, não estamos falando aqui de zumbis… E sim de pessoas que comem carne humana. Vai vendo…

E no meio de toda carnificina desmedida, há uma puta crítica social oculta por trás do filme. Que os americanos se acham os donos do mundo, superiores e que tem o completo direito de fazer o que quiserem com outras culturas ou povos que consideram inferiores. Tanto que depois de tanta barbaridade, a primeira reação no final do filme é choque, claro, mas a segunda com certeza é não sentir nem um pingo de dó daqueles infelizes mortos de forma tão brutal. Esse paralelo para mim foi muito claro pela época em que assisti o filme da primeira vez. Foi bem tardio, passado mais de 20 anos de seu lançamento. Vi durante a primeira metade dos anos 2000, em plena invasão americana no Afeganistão e Iraque e aquele política escabrosa de George W. Bush de chegar detonando tudo por lá e pouco se lixando para baixas civis e para o povo que morava nos países ocupados.

Amaciando a carne para preparar o jantar

E para mim era muito contundente a mensagem de Cannibal Holocaust, apesar de todo o exploitation. Isso sem falar nos inescrupulosos executivos da TV que querem editar o documentário e passar em rede nacional de qualquer jeito, pois é aquilo que dá audiência. Imagina se uma fita dessas cai na mão do Datena hoje em dia? E se levantam alguns questionamentos pertinentes ao terminar o filme: Qual é pior, a selva de verdade ou a selva de concreto? Quem são os verdadeiros selvagens, eles ou nós?

A trila sonora  de Riz Ortolani é um capítulo a parte. O filme começa com um take aéreo da floresta Amazônica e seus rios, enquanto uma doce música lenta e melodiosa, típica dos anos 70, vai sendo tocada ao fundo. Você nem faz ideia do que está por vir. E essa mesma música é usada em várias cenas, inclusive de canibalismo e desmembramento. Vai entender. Isso além de outras músicas com batidas e efeitos sonoros de sintetizadores, toques minimalistas que vão crescendo e tornando-a cada vez mais tensos, e que quando essa música começa a tocar, você pode prever que vai dar merda.

Se você ainda não assistiu essa preciosidade do mau gosto, não pode dizer que é fã de filmes de terror! Quando eu assisti, era um parto pra baixar na Internet. Vamos lembrar que era começo dos anos 2000 e sua única saída era o E-Donkey da vida, e acho que eu deveria ter um Speedy com a conexão de 512kbps (não sei como vivia com essa velocidade na época). Levou semanas para completar o download. Hoje em dia você consegue baixar Cannibal Holocaust fácil, fácil, incluisve por aqui no blog, e já foi até lançado em DVD no Brasil, coisa que não havia também naquela época.

Não é de verdade não, seu juiz

 

Assista ao episódio do videocast do 101 Horror Movies comentando Cannibal Holocaust:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=6Yxb5gR6fAk]

Serviço de utilidade pública:

Compre o DVD de Cannibal Holocaust aqui.

Download: Torrent + legenda aqui.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=cZ-Xp6VC7RQ]


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

25 Comentários

  1. […] outros. A única coisa perto dessa ideia de cinema verité que já havíamos visto no gênero era Cannibal Holocaust de Ruggero Deodato, no início dos anos 80. E a ideia de A Bruxa de Blair era se virar com um […]

  2. […] mas com certeza é o mais próximo do que deve ter sido um filme transgressor na época.  Foi o Cannibal Holocaust ou o Serbian Film da sua geração. Tanto que foi até proibido em diversos […]

  3. […] Fato é que A Mansão do Homem sem Alma é uma espécie de percursor do gênero pois aqui veríamos diversos elementos cinematográficos e estéticos que seriam utilizados nos filmes da terra da bota e que o tornariam característicos: a dose exagerada de violência estilizada e sangue, assassinos impiedosos, belas mulheres indefesas, situações claustrofóbicas ou de cárcere e completo domínio da fotografia, que tirariam todo e qualquer foco do orçamento baixo, primando pela excelência do jogo de cores, geralmente quentes, com um pé no barroco e com vermelho vivo acentuado, acompanhada sempre por uma bela direção de arte e a trilha sonora contundente, aqui, assinada por Riz Ortolani, o mesmo que criou a famosíssima trilha sonora de Cannibal Holocaust. […]

  4. […] Leia a minha resenha sobre Cannibal Holocaust aqui. […]

  5. […] com animais (de galinhas, a ratos e bodes), uma década antes de Ruggero Deodato barbarizar em seu Cannibal Holocaust. E tudo isso com os efeitos de maquiagem mais podres possíveis, filmagem precária, trilha sonora […]

  6. […] A completa falta de moralidade do longa, o tema controverso e chocante, e algumas cenas de violência gráfica mais brutais feitas até então, misturada com aquela poesia inquietante, visceral e grosseira que só Fulci é capaz de imprimir, transformam a experiência de se assistir O Estranho Segredo do Bosque dos Sonhos em um deleite cinematográfico para qualquer fã do gênero.  E todos estes elementos magistralmente executados explodem sob a ótica do espectador, passados em um ambiente árido e sufocante, auxiliado pela excelente fotografia de Sergio D’Offizi e ainda com a sempre ótima trilha sonora de Riz Ortolani (aquele mesmo da trilha de Cannibal Holocaust). […]

  7. […] tarde iria entregar um dos mais famosos filmes do ciclo, Cannibal Ferox, que sempre compete com Cannibal Holocaust de Ruggero Deodato como o suprassumo do gênero, mostra não ter a menor dó de pessoas e animais, […]

  8. Paulão Geovanão disse:

    Um dia tomo coragem e assisto a esse.

  9. Paulão Geovanão disse:

    Recomende para o pessoal do youtube hehe

  10. Bia Zombie disse:

    Já assisti, quase morri kkkk Mas é muito legal a visão do diretor de trazer o found footage para este filme! Realmente um clássico =)

  11. raphael de araujo disse:

    Esse filme é muito bom! Só tenho como crítica a morte do animais. A cena da tartaruga é uma das piores coisas que já vi! Mas recomendadíssimo pra quem quer uma parada bem pesada. Sem essa merda de CGI!

  12. alucardcorner disse:

    Filme mais sobrevalorizado de sempre, lembro-me bem no “burburinho” que este filme causava quando andava na escola, toda a gente dizia que era demasiado chocante. Não envelheceu bem, hoje passa ao lado como outro filme de violência extrema que existe agora por ai aos montes.. mas com tudo isso não deixa de ser um marco na história do cinema de terror!

  13. […] canibal italiano, Cannibal Ferox é uma das produções mais famosas. Pegando carona no sucesso de Cannibal Holocaust de Ruggero Deodato lançado no ano anterior, o diretor Umberto Lenzi, nos apresenta mais do mesmo […]

  14. […] que o lance é comer carne humana como se fosse fast food mesmo. E antes do polêmico e chocante Cannibal Holocaust, de Ruggero Dedodado, o filme de D’Amato já começa a abrir as portas para todos os absurdos […]

  15. […] e esfolado vivo tem sua razão se estar ali no meio da película (diferente, por exemplo, de Cannibal Holocaust). Você pode compreender isso como um apreciador do cinema, ou você pode estar se lixando e só […]

  16. […] muito me lembrou Cannibal Holocaust, onde Ruggero Deodato foi até a julgamento por seu filme ter sido confundido com um snuff devido a […]

  17. […] A Forca). A única coisa perto dessa ideia de cinema verité que já havíamos visto no gênero era Cannibal Holocaust de Ruggero Deodato, no início dos anos 80, ou Aconteceu Perto de Sua Casa no começo da década de […]

  18. Matheus L. CARVALHO disse:

    Com toda certeza, CANNIBAL HOLOCAUST se enquadra entre os melhores filmes de terror de todos os tempos, e também merece o título de Filme Mais Polêmico da História.
    Tudo em CANNIBAL HOLOCAUST funciona para nos assustar: o clima perturbador, a trilha sonora arrepiante, o elenco afiado, e principalmente, os Canibais e as cenas violentas!
    A violência não pára na tela em nenhum minuto, deixando-nos com uma dúvida: Nós paramos de ver, ou vemos o filme até o fim?
    Dois exemplos são a cena da pobre tartaruga e o final, onde os jovens são torturados e mortos pelos Canibais – destaque para a terrível cena de estupro de Faye, com o índio montado sobre ela, penetrando sua vagina. É uma cena absolutamente chocante, que, misturada com a trilha sonora tensa, se torna ainda pior, e realista; chegamos a imaginar como Faye se sente ao ser estuprada por ele; e ele o faz com a maior violência, sem nenhuma descrição, em frente aos companheiros, que seguram as pernas da moça e permitem que ele a estupre!
    Outro momento assustador é o ataque final dos Canibais, que correm em direção a Alan, que ainda está com a câmera na mão. Os gritos dos índios são assustadores e sua aproximação de Alan, numa tomada em PDV nos faz pensar que estamos vivendo aquilo tudo.
    Vale lembrar que CANNIBAL HOLOCAUST faz parte do chamado Green Inferno, subgenero de terror italiano que surgiu nos anos 70 e durou até o inicio dos anos 80.
    O primeiro filme de Ruggero Deodato no gênero, LAST CANNIBAL WORLD, possui quase os mesmos toques de CANNIBAL, além de mostrar cenas de violência gráfica sem cortes.
    Mas, CANNIBAL HOLOCAUST é O Filme de Ruggero Deodato, sua Marca Registrada e mais polêmica, considerada um snuff-movie na época de seu lançamento, e por que não, hoje em dia também, apesar de o elenco ter comparecido em uma conferencia de horror recentemente…
    Um ano depois, o diretor Umberto Lenzi lançou CANNIBAL FEROX (1981), que segue a mesma linha do filme de Deodato, inclusive, uma cena de tartaruga sendo morta, desta vez, pelos indios, sem trilha sonora aterradora. CANNIBAL FEROX, assim como CANNIBAL HOLOCAUST, não é filme para todos, pois as cenas de violência gráfica são igualmente fortes e sangrentas, com direito a um corpo sendo aberto pelos índios, que comem as viceras, tudo on-camera.
    Enfim, CANNIBAL HOLOCAUST é um verdadeiro Clássico do Terror e sem dúvida, o Filme Mais Polêmico da História!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    ALTAMENTE RECOMENDÁVEL!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    10-10

  19. minosilva disse:

    Ah galerinha do Mal, só um aviso: Ruggero Deodato também lançou um peplum (aqueles filmes épicos, geralmente europeus, com halterofilistas) gloriosamente horroroso nos anos 80 chamado Os Bárbaros (pense em Double Dragon misturado com Golden Axe em uma adaptação cinematográfica). É estrelado pelos caras que fizeram aquele filme Duas Babás Nada Perfeitas, exibido exaustivamente na Sessão da Tarde

  20. […] mas com certeza é o mais próximo do que deve ter sido um filme transgressor na época.  Foi o Cannibal Holocaust ou o Serbian Film da sua geração. Tanto que foi até proibido em diversos […]

  21. […] é um antigo desejo de Roth, fã confesso do ciclo italiano canibal e que decreta Cannibal Holocaust de Ruggero Deodato como seu filme preferido ever. O próprio nome original, The Green Inferno é um […]

  22. […] 3) Cannibal Holocaust (1980) […]

  23. […] na Itália em 1972 com o clássico Mundo Canibal de Umberto Lenzi e chegou ao seu auge em 1980 com Cannibal Holocaust de Ruggero Deodato, considerado o suprassumo do […]

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