409 – O Iluminado (1980)

The Shining

1980 / EUA, Reino Unido / 144 min / Direção: Stanley Kubrick / Roteiro: Stanley Kubrick, Diane Johnson (baseado na obra de Stephen King) / Produção: Stanely Kubrick, Robert Fryer, Mary Lea Johnson e Martin Richards (Produtores Associados), Jan Harlan (Produtor Executivo) / Elenco: Jack Nicholson, Shelley Duvall, Danny Lloyd, Scatman Crothers

 

Talvez O Iluminado seja, até hoje, a mais assustadora e impactante obra prima do cinema de terror. Três forças poderosíssimas convergem nessa produção, sendo destinado a todos eles uma fama inabalável daqui por diante: o diretor Stanley Kubrick, o escritor Stephen King, e o ator Jack Nicholson.

Antes de mais nada, O iluminado é um filme de diretor. É um respeito conquistado por uma produção do gênero que nenhuma outra conseguiu, e dificilmente conseguirá. E isso só foi possível graças a técnica de filmagem empregada por Kubrick, que até aqui já nos havia brindado com outros marcos do cinema como 2001, Uma Odisseia no Espaço e Laranja Mecânica.

São os planos abertos em corredores labirínticos minuciosamente decorados, em enquadramentos que alternam os personagens totalmente centralizados (o tal do ponto de fuga de Kubrick, presente em grandes partes de seus filmes, como você pode conferir aqui) com planos em close em ambientes fechados e de menor espaço físico, dando ao mesmo tempo o contraste entre a real magnitude do Hotel Overlook e a sensação do aprisionamento claustrofóbico em seu interior. É a direção de arte precisa. É o jogo de cores berrantes. A fotografia impecável. A trilha sonora assustadora e paranoica. É o ritmo que por vezes é arrastado e por vezes é alucinante. Tudo isso faz de O Iluminado o clássico que ele é hoje.

Jack Nicholson provavelmente tem o papel mais marcante de sua carreira como Jack Torrance, ex-alcoólatra que aceita o emprego de zelador do hotel de veraneio Overlook, localizado nas montanhas do Colorado, durante o inverno. Ele acredita que lá terá cinco meses de paz para poder terminar de escrever o seu livro. Logo na sequência de abertura do filme, um pequeno Fusca está em uma estrada subindo até as montanhas, com uma exuberante e imensa paisagem a sua volta, acompanhado de uma trilha sonora fúnebre tocada em órgão, a Dies Irae, tudo para mostrar o quão isolado esse homem estará durante todo um rigoroso inverno

Perdi meu amor no Overlook!

Jack muda-se para o Overlook com sua esposa Wendy (Shelley Duvall) e seu filho Danny (Danny Lloyd), dotado de poderes psíquicos que o cozinheiro do hotel, Dick Halloran (Scatman Crothers), chama de ser “iluminado”. Esses poderes fazem com que Danny tenha o dom de prever o futuro, conversar telepaticamente com outros iluminados e também ter capacidades pós-cognitivas de ver fantasmas. E disso o Overlook está cheio. Fantasmas esses, que inclui o zelador anterior, Delbert Grady (Phillip Stone), que se suicidou e esquartejou sua família, que tem como missão póstuma influenciar Jack, que aos poucos vai perdendo sua sanidade, fazendo com que sua loucura gradual o leve a perseguir esposa e filho com um machado pelo interior do hotel.

Bom, apesar de ser um filme esteticamente perfeito, com uma direção magnífica e com uma atuação magnânima de Nicholson, para mim o grande pecado de O Iluminado está no roteiro. Pode ser que você até para de ler esse post e nunca mais volte no meu blog depois de ler isso, mas tenho que confessar uma coisa: com relação a história, eu prefiro a minissérie feita para televisão em 1997, dirigida por Mick Garris e com roteiro do próprio King, praticamente ipsis literis do seu livro. Ora, não me joguem pedras. Até o próprio Stephen King DETESTOU o filme de Kubrick, que nem é o meu caso, pelo menos.

Mas vamos lá, eu explico: O Iluminado é meu livro preferido do Mestre do Terror. E apesar das quase duas horas de metragem do filme, ele acaba ficando bem raso e todo o potencial explosivo do Overlook é simplesmente deixado de lado, para mostrar o personagem de Nicholson ficando maluco gratuitamente. Parece muito mais que ele está sofrendo de febre da cabana do que realmente influenciado pelas forças sobrenaturais que residem no hotel. E isso só começa a ser explorado, e de forma bem superficial, quando ele encontra pela primeira vez o garçom (ou melhor, o espírito dele) no salão de baile. Kubrick ignora completamente até aí o fato de que Torrance era um alcoólatra inveterado (assim como o próprio Stephen King) e já havia agredido o filho antes, quebrando seu braço. Além disso o álcool destruiu sua vida como professor e escritor, o que o levou ao fundo do poço de ter de buscar um emprego como zelador, seu último recurso. Fora que a família se desestabilizou após essa agressão e sempre há um clima de desconfiança pesando sobre os ombros de Jack, principalmente de Wendy, que não é a songa monga que Shelley Duvall personificou aqui.

Venha brincar com a gente Chuvisco…quer dizer, Danny.

Outro lance é do Tony, o amigo imaginário com quem Dany conversa e pede auxílio quando está com medo. No livro, Tony é REALMENTE um amigo imaginário, uma projeção espectral, e não o dedo indicador do moleque que fala com ele com uma voz diferente. A história do Overlook também nem dá as caras aqui. Como ele virou um local mau assombrado? Kubrick passa batido sobre todas as mortes trágicas que ocorreram ali. Quando houve um acerto de contas da máfia durante o famoso baile, ou quando, como e por que a madame do quarto 237 (ou 217 no livro) cortou seus pulsos na banheira. Uma pena.

Claro que há todo um mérito de liberdade poética e narrativa do diretor. E faça-se justiça: não posso deixar de comentar que essa liberdade rendeu cenas que entraram para os anais da história do cinema de terror, que não estão no livro, que são simplesmente espetaculares. Como Danny andando nos corredores do hotel com seu triciclo, ou a aparição terrivelmente macabra das duas garotinhas mortas chamando o coitadinho para brincar, intercalada com a imagem delas ensanguentadas caídas ao chão. Ou o mar de sangue que sai de dentro do elevador e invade um dos corredores do hotel. E mesmo brilhantemente trocar um taco de críquete usado no livro por um ameaçador machado, com o qual Jack “recepciona” Dick Halloran que saiu das suas férias na ensolarada Flórida para tentar ajudar o menino, e que usa para arrebentar a porta do banheiro ao perseguir uma apavorada Shelley Duvall e dizer a famosa frase que entra para a história da sétima arte: Aqui está Johnny!!!!

Quer duas dicas? Assista O Iluminado de Stanely Kubrick. Depois leia o livro de Stephen King. E finalmente assista a minissérie para TV. Nessa ordem! Assim você desfruta de três visões diferentes de uma das histórias de terror mais famosas do século XX. A outra é que se você é fã de teorias da conspiração das mais malucas, não deixe de assistir ao documentário Room 237, que revela algumas das ideias mais chapadas possíveis sobre os diferente subtextos por trás do filme e da cabeça louca da Kubrick. Entre eles, de que O Iluminado era um filme sobre o genocídio indígena na América, ou de que na verdade é uma alegoria nazista ou que é uma confissão do diretor por ter feito o filme falso do primeiro homem pisando na Lua.

“Heeeeeeere is Johnny”

Serviço de utilidade pública:

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E o Blu-ray aqui.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

26 Comentários

  1. […] seu eu lhe contasse que a cena mais famosa de O Iluminado, um dos grandes clássicos do terror, dirigido por um sujeito genial com Stanley Kubrick, que 11 em […]

  2. Alana De Carvalho disse:

    Adoro a atuação de Jack Nicholson! O personagem interpretado vai se consumindo pela insanidade, algo que o ator consegue retratar de uma forma espantosa e, ao mesmo tempo, cômica em dados momentos. Um colega leu o livro e disse que é ainda mais fantástico.

  3. […] o corpo de Michel com seus olhos revirados, levantando lentamente da banheira, colocando a velha de O Iluminado no chinelo no quesito […]

  4. […] por Scatman Crothers, nome inesquecível, que logo lembramos de seu papel como Dick Halloran em O Iluminado de Stanley Kubrick. O diretor Walter Grauman, mais conhecido pelo seu trabalho em telefilmes e […]

  5. Luis disse:

    Link off.

  6. Paulão Geovanão disse:

    “redrum!”, “Redrum!”

  7. […] era um best-seller por conta de seus livros adaptados para o cinema como Carrie – A Estranha e O Iluminado, passava por uma terrível fase em seu alcoolismo e admitiu diversas vezes que mal se lembra de ter […]

  8. […] “Five Characters in Search of an Exit” traz o Sr. Bloom (Scatman Crothers, o Dick Halloran de O Iluminado de Stanley Kubrick), um idoso que traz para os velhinhos de um asilo as saudosas lembranças das […]

  9. […] corretamente no cinema. É de conhecimento público que King simplesmente DETESTOU a adaptação de O Iluminado de Stanely Kubrick, por exemplo. Então baseado na premissa do “se quiser fazer algo bem feito, […]

  10. […] como Carrie – A Estranha e Christine – O Carro Assassino, puto com o que Kubrick tinha feito em O Iluminado, e depois de uma enxurrada de filmes de qualidade duvidosa produzidos por Dino De Laurentiis, King […]

  11. […] VHS nacional cometeu, ao escrever bem a seguinte frase em sua capa: “Stephen King aterrorizou em O Iluminado e Carrie. Desta vez ele se superou”. Só faltou assinar: LISPECTOR, Clarice. O filme ainda teve a […]

  12. […] pelo refrigerador, e aos poucos vai sendo “possuído”, ou “controlado” por ele, tipo O Iluminado, saca? Também entram em cena alguns dos personagens mais caricatos, clichês e esquisitos da […]

  13. […] Jim Gardner (interpretado pelo tosquíssimo Jimmy Smits), ou até mesmo o Jack Torrance de O Iluminado ou o Thad Beaumont de A Metade Negra, você pega, olha e fala: ah tá, mas uma vez o cara tá se […]

  14. […] Noturno está anos luz dos clássicos como O Iluminado, Carrie – A Estranha, Louca Obsessão, Cemitério Maldito e tantos outros. Porém faz um voo […]

  15. […] seu eu lhe contasse que a cena mais famosa de O Iluminado, um dos grandes clássicos do terror, dirigido por um sujeito genial com Stanley Kubrick, que 11 em […]

  16. […] o corpo de Michel com seus olhos revirados, levantando lentamente da banheira, colocando a velha de O Iluminado no chinelo no quesito […]

  17. […] mais de um ano foi anunciado que O Iluminado ganharia uma prequela. Qual a necessidade disso eu não sei, uma vez que tem aí o “Doutor […]

  18. […] e ainda consegui captar até algumas referências visuais obviamente inspiradas no clássico O Iluminado em alguns detalhes do hotel, como o carpete e o bar. Também há conexões com as outras […]

  19. […] nenhum esforço para os fãs de literatura de horror. Apenas uma pergunta fica no ar: será que O Iluminado, lançado em 1980 e conhecido como uma das melhores adaptações de King, irá ganhar também uma […]

  20. […] 1)“Aqui está Johnny!” – Jack Torrance – O Iluminado […]

  21. […] não vai encontrar uma imagem elegante e impactante em Sexta-Feira 13 como você encontra em O Iluminado. Consequentemente, O Iluminado é um suspense psicológico, enquanto Sexta-Feira 13 é apenas um […]

  22. […] A-DO-RA retratar alguns causos pessoais transportando-os para seus personagens (Jack Torrance de O Iluminado que o diga, ou então o maluco que é atropelado e fica em coma em Kingdom Hospital, e por aí […]

  23. […] o inconsciente, causando um estranhamento no público, semelhante ao que Kubrick fez em O Iluminado. Para mais detalhes sobre estes aspectos, recomendo para quem souber inglês a leitura do artigo […]

  24. […] Lisa e Louise Burns, as irmãs Grady de O Iluminado: […]

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