410 – Intermediário do Diabo (1980)

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The Changeling

1980 / Canadá / 107 min / Direção: Peter Medak / Roteiro: William Gray e Diana Maddox, Russell Hunter (história) / Produção: Garth H. Drabinsky, Joel B. Michaels, Mario Kassar e Andrew G. Vajna (Produtores Executivos) / Elenco: George C. Scott, Trish Van Devere, Melvyn Douglas, Jean Marsh, John Colicos

     

Ah, o Brasil e seus títulos maravilhosos! Mesmo que depois tenha recebido o nome de A Troca quando lançado em DVD, ao chegar aos cinemas, esse excelente suspense sobrenatural do diretor Peter Medak e magistralmente elencado por George C. Scott, recebeu o infame nome de Intermediário do Diabo.

O título não condiz em nada com a realidade (o Diabo, coitado, nem dá as caras por aqui, e nunca imaginei o Tinhoso tendo um intermediário, enfim…), mas foi obviamente pensado em capitalizar na onda dos filmes que traziam a temática do Coisa-Ruim na década passada, como O Exorcista e A Profecia. Na verdade, Intermediário do Diabo é daquele típico filme de fantasma vingativo, que leva uma pessoa que se muda para um casarão assombrado a entrar em uma profunda investigação, conduzida por manifestações sobrenaturais do espírito que ali não descansa, e descobrir a causa de seu assassinato.

Essa pessoa no caso é o personagem de Scott, o pianista John Russell, que após sua esposa e filha morrerem em um trágico acidente de carro, muda-se para um casarão pertencente a Sociedade Histórica de Seattle, doado pelo poderoso senador Joe Carmichael (Melvyn Douglas). Lá, ele pretende recomeçar a vida em frangalhos por conta da perda, dando aulas na Universidade local, porém, logo ao se mudar, o bater de portas, ruídos ritmados e sons estranhos típicos de uma casa mal assombrada começam a atormentar ainda mais Russell, que descobre um sótão trancado nos andares superiores do casarão e lá conhecerá as pistas com as quais montará seu quebra cabeças.

Na marca da cal

Na marca da cal

Ao descobrir uma cadeira de rodas infantil e uma caixa de música, Russell, com a ajuda de Claire Norman (Trish Van Devere – esposa de Scott na época), começa a revirar os arquivos do local, antiga morada dos Carmichael, para tentar descobrir alguma pista sobre a presença, quando ao realizar uma sinistra sessão espírita (um dos pontos altos do filme), realiza que um garotinho de nome Joseph, detentor de paralisia, foi afogado pelo próprio pai na banheira em seu quarto (onde é o atual sótão).

Este será o estopim para uma intrincada conspiração política, já que Eugene Carmichael, pai do atual senador, matara o próprio filho inválido para garantir sua participação no poderoso império dos Carmichael e ter direito sobre a fortuna futura de sua família. Após a morte de Joseph, o nefasto Eugene trocou seu filho por um sósia, enviou-o para a Europa onde anos mais tarde milagrosamente se curou da paralisia, e desde então, o proeminente Senador vem passando-se por outro e tornando-se uma das pessoas mais poderosas dos EUA, como se nada tivesse acontecido.

Cabe a Russell tentar aplacar a ira do espírito do pequeno Jospeph original, brutalmente assassinado e de alguma forma buscar por justiça, enquanto ainda é assolado pela tragédia (explorada pelo fantasma para aproximá-lo psiquicamente) da perda recente de seus familiares. E claro, que o espírito não medirá esforços em assombrar a casa e utilizar até de modos traiçoeiros para garantir a ajuda de Russell, como, por exemplo, usando uma pequena bola branca e vermelha pertencente à filha morta do pianista para chamar sua atenção. Baita sacanagem.

O filme é todo de Scott, mostrando mais uma vez porque ele é um PUTA ator. Com personagens secundários completamente descartáveis (exceto a breve e também excelente participação de Melvyn Douglas – que faz aqui seu penúltimo filme, seguido por outro fantasmagórico thriller, História de Fantasmas, lançado no ano seguinte), o ator leva o filme inteiro nas costas, em uma interpretação ora sofrida e comedida, hora explosiva em busca de respostas.

Medo!

Medo!

A atmosfera sobrenatural também é muito bem construída, principalmente quando se desenvolve dentro do casarão gótico vitoriano (construído em estúdio) e serviu facilmente como referência para diversas obras do gênero vindouras e tornado-se um verdadeiro clássico. Alejandro Amenábar, diretor de Os Outros, mesmo já disse que Intermediário do Diabo é uma de suas maiores inspirações, além da fita estar presente na famosa lista dos filmes de terror preferidos de ninguém menos que Martin Scorcese.

Interessante é que a história do filme é baseada em fatos reais, em uma “casa mal assombrada de verdade” conhecida como Henry Treat Rogers Mansion, localizada em Denver, no Colorado, próximo ao Chessman Park. Foi lá que o escritor Russel Hunter morou durante os anos 60 e presenciou vários fenômenos paranormais. Os roteiristas Adrian Morrall e William Gray gastaram seis meses fazendo pesquisas em artigos de jornais, encontros com parapsicólogos, lendo mais de 700 livros e vários estudos de casos de histórias que envolvem fantasmas para complementar o roteiro. Outro detalhe bacana é que o nome original, “The Changeling”, remete a uma lenda do folclore europeu de uma criatura que era secretamente deixada no lugar das crianças que eram roubadas durante à noite.

Intermediário do Diabo, ou A Troca (não confundir com o filme de Clint Eastwood com a Angelina Jolie) é um daqueles clássicos eternos do cinema de terror, e presente em qualquer lista dos melhores filmes de cunho sobrenatural ou de casas mal assombradas. Climático, é uma produção típica do final dos anos 70 que assusta para valer, completamente calcado no terror psicológico, algo bem raro no gênero nos dias de hoje.

Queima a casa...

Burn, baby burn!

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Intermediário do Diabo está atualmente fora de catálogo.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Eduardo Farias disse:

    Bah cara, que bela resenha para um dos meus filmes favoritos! Lembro que assisti este clássico pela primeira vez sozinho, no escuro do meu quarto, há uns anos atrás. Confesso que a cena da sessão espirita, e mais ainda, a cena em que o protagonista escuta o áudio gravado durante a sessão, me causou arrepios. Aliás, este lance do áudio deve ter influenciado o diretor M. Night Shyamalan, pois lembro de uma cena semelhante no seu “O Sexto Sentido”, feito quase 20 anos depois.
    Mas voltando ao “Changeling”, o diretor dá uma aula de como criar uma “puta” de uma atmosfera sem ser explicito e avacalhar o filme, como muitos tem acontecido em produções mais moderninhas. O que dizer da bolinha rolando escada abaixo na escura mansão? Brrrr… Sem dúvida este filme está na minha lista de melhores de todos os tempos!
    Cara, agora que conheci o teu site vou ter que te encher o saco mais um pouco, rs. Já vistes o filme “Woman In Black”, a produção para TV inglesa de 1989? É outro filme “atmosférico” que vale estar no teu site.
    Parabéns pelo trabalho!

    • Salve, Eduardo. Obrigado pelo comentário e pelos elogios.

      Já assisti, sim. O original de A Mulher de Preto, que até ganhou uma versão recente da Hammer com o Harry Potter e tal! É uma boa dica para o blog, com certeza.

      Abs!

  2. Cristiano disse:

    Sensacional como sempre Marcos!!!

    Sabiam fazer bons filmes de suspense/mistério

    Grande abraço

  3. […] O filme é uma tragédia só, pior do que ser queimado vivo pela garota. Tudo é enfadonho, clichê, arrastado, sem um pingo de ousadia e transformando a obra num resultado medíocre, tal qual o próprio livro de King. Salvam-se mesmo apenas Martin Sheen que sempre faz um belo vilão (como já havia feito em outra adaptação anterior do escritor, A Hora da Zona Morta) que ficou com o papel com a recusa de Burt Lancaster e o sempre gabaritado George C. Scott, ganhador do Oscar® de melhor ator por Patton – Rebelde ou Herói? e o excelente thriller sobrenatural Intermediário do Diabo. […]

  4. […] 5) Intermediário do Diabo /  A Troca (1980) […]

  5. Eduardo G N Ferreira disse:

    Filme com belas sequencias de camera… principalmente pelo interior da casa …. cenas de supense bem montadas e um ótimo roteiro … sem duvida o ator George C. Scott prende vc o tempo todo para entender o que de fato esta acontecendo na Grande e Bela Mansão. Esse é daqueles filmes que já foi feito clássico… onde tudo se encaixa roteiro fotografia atores sequencia … pra mim leva 5 estrelas !!! Pra galera nova que gosta de anjos da noite, resident evil e afins e passar longe pois esse e terror clássico … não tem ação e vai lentamente se montando como quebra cabeça…

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