418 – Vestida para Matar (1980)

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Dressed to Kill

1980 / EUA / 105 min / Direção: Brian De Palma / Roteiro: Brian De Palma / Produção: George Litt, Fred C. Caruso (Produtor Associado), Samuel Z. Arkoff (Produtor Executivo – não creditado) / Elenco: Michael Caine, Angie Dickinson, Nancy Allen, Keith Gordon, Dennis Franz

 

No ano de 1980, morria Alfred Hitchcock. E neste mesmo ano, o já considerado Mestre do Macabro (como o próprio pôster do filme alardeia), Brian De Palma, lançava Vestida Para Matar, que não só é (mais) uma homenagem ao Mestre do Suspense, como uma passagem de bastão digna entre os diretores.

Claramente influenciado por Psicose, mas com o toque pessoal e irrefutável de De Palma na direção (com seus planos sequência, travellings de câmera, campos e contracampos, câmeras subjetivas, justaposição de imagens e planos simultâneos e por aí vai), Vestida Para Matar desconstrói a obra clássica de Hitchcock e transforma-o num suspense de primeiro escalão, daqueles para nenhum botar defeito (até mesmo os buracos do roteiro são deliciosamente interessantes).

A trama gira em torno de Kate Miller (Angie Dickinson, uma MILF deliciosa com seus quase 50 anos na época), que vive um casamento enfadonho e uma vida sexual reprimida, com um marido que simplesmente não consegue satisfazê-la. Ela chora as pitangas com seu psiquiatra, o Dr. Robert Elliott, papel na medida de Michael Caine, e ao sair do consultório, durante uma visita a um museu, sente-se atraída por um sujeito e resolve sair do marasmo de sua vida conjugal entediante e ter uma noite de sexo casual com o estranho. Detalhe na fantástica cena do museu onde acontece uma espécie de jogo de sedução entre os dois, no momento de maior inspiração de De Palma, com sua câmera vouyer perseguindo-os, sem nenhum diálogo, pontuado pela inebriante trilha sonora de Pino Donaggio.

Chuveiro, chuveiro, não faça assim comigo...

Chuveiro, chuveiro, não faça assim comigo…

No término da noitada, após quebrar as regras de sua vida de classe média monótona e se arriscar ao perigo (tal qual Marion Crane, de Psicose), Kate é brutalmente assassinada por uma figura sinistra usando uma peruca loura e óculos escuros, sendo retalhada por uma navalha afiada, em uma cena da mais pura brutalidade gráfica, que me lembra muito os gialli italianos. A prostituta de luxo Liz Blake (Nancy Allen – esposa do diretor na época) é testemunha ocular do crime e vê de relance o possível assassino(a). Paralelo a isso, o Dr. Elliott começa a receber telefonemas ameaçadores de Bobbi, uma ex-paciente transexual a qual ele vetara a cirurgia de mudança de sexo, que havia roubado sua navalha para praticar o hediondo crime e tentar incriminá-lo.

Juntam-se a trama o filho órfão de Kate, Peter (Keith Gordon), um nerd que decide começar uma investigação particular utilizando de seus gadgets, com auxílio de Liz, e o policial ítalo-americano estereótipo (que funciona como o alívio cômico do longa) Detetive Marino, vivido por um desbocado e jovem Dennis Franz antes de sua famosa batalha contra o crime como Andy Sipowicz nas ruas de Manhattam no seriado televisivo Nova York Contra o Crime.

A partir daí uma série de desdobramentos da investigação irão levar ao final que pode ser impactante e previsível ao mesmo tempo, explorando com requintes os desvios psicológicos da repressão sexual, transformado em tendências homicidas, tudo isso dividido em momentos ímpares de construção de cenas e estética absurda, como o quase assassinato de Liz no vagão do metrô (salva por Peter na hora H), e as duas lascivas cenas do chuveiro com Angie Dicksinson e seu nu frontal no começo e Nancy Allen ao seu final, mostrando que o chuveiro pode mesmo ser um local perigoso (mais uma vez uma homenagem a Psicose) e que sexo é culpa, ponto final.

Fio da navalha

Fio da navalha

Até por isso, tal quais os filmes de Hitchcock, Vestida Para Matar foi acusado por feministas de se tratar um filme misógino. A fita de De Palma sem dúvida pode ser apelativa, mas não é misógina, por favor. Fato é que como Psicose, mulheres liberais em busca de sexo casual são brutalmente assassinadas. É como um prejulgamento machista de que a mulher nunca pode buscar seu prazer pleno, mas a bem da verdade, a personagem de Angie Dickisnon em nenhum momento mostrou-se uma “mulher indefesa” e “pecadora” pedindo para ser assassinada por um tarado. A morte dela antes da primeira meia hora acaba se tornando um trauma para o espectador (Psicose de novo?) logo depois dela ter encontrado alguma felicidade em sua vida modorrenta. Talvez, só talvez, haja uma mensagem subentendida quando a personagem descobre de forma chocante que seu parceiro de cama daquele momento havia contraído uma doença venérea (mais uma vez, sexo é culpa), mas eu acredito que tenha sido mais um subterfúgio para o aumento do suspense do filme, afinal todos os crimes aqui são baseados em causa e consequência.

ALERTA DE SPOILER. Pule para o próximo parágrafo ou leia por sua conta e risco. Pois bem, desde já é preciso se dizer que o roteiro do filme não deve ser levado muito a sério, pois a forma de fazer cinema de De Palma compensa os buracos gritantes, mas ainda assim, é um final que pode ser até interessante. Na verdade, o assassino transexual é o próprio Dr. Elliott, que criou essa dupla personalidade, Bobbi (que seria diminutivo de Robert) esquizofrênica e tentava reprimi-la ao máximo. Porém, toda vez que se via excitado por alguma mulher e sentia uma ereção, Bobbi surgia em cena para assassinar aquelas que haviam tentado a libido do psiquiatra e manter sua masculinidade reprimida. Após ser baleado ao tentar matar Liz, o Dr. Levy (David Marguiles), psicólogo o qual o Dr. Elliott se consultava para “tratar o problema de Bobbi”, explica sobre a dupla personalidade do mesmo e até sobre sua confissão, ao procurá-lo para dizer que Bobbi estava cometendo os crimes, sendo que era a mesma pessoa. Ainda há espaço no final para uma cena de pesadelo (que é de uma beleza e suspense ímpar), com Robert assassinando uma enfermeira no manicômio, fugindo e tentando matar Liz no chuveiro.

Artistica e esteticamente impecável, tenso, surpreendente e extravasando sensualidade, Vestida Para Matar é filme obrigatório para qualquer fã de suspense, mostrando toda a versatilidade e excelência de Brian De Palma em seu auge, assim como nos fazendo de testemunha do total controle de todo e qualquer elemento cinematográfico necessário para se fazer um longa metragem.

Sangue no elevador

Sangue no elevador

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Vestida Para Matar está atualmente fora de catálogo.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Marcus Vinicius disse:

    Os filme 417 e 418 nao aparecem na lista. Parece que voce pulou do 416 para o 419.

  2. […] rasgada ao Mestre do Suspense, como já havia feito anteriormente em Irmãs Diabólicas ou Vestida Para Matar (que considero sua obra-prima até então). Você respira tanto Janela Indiscreta quanto (e […]

  3. […] Hitchcock) lá no final dos anos 70 até meio dos anos 80, principalmente por conta de filmes como Vestida Para Matar, Um Tiro na Noite e Dublê de Corpo. Depois ficou famoso, dirigiu Scarface e Os Intocáveis, e na […]

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