423 – Cannibal Ferox (1981)

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Cannibal Ferox / Make Them Die Slowly / Woman From Deep River

1981 / Itália / 93 min / Direção: Umberto Lenzi / Produção: Mino Loy e Luciano Martino (não creditados), Antonio Crescenzi (Produtor Executivo) / Roteiro: Umberto Lenzi / Elenco: John Morghen, Lorraine de Selle, Bryan Redford, Zora Kerowa, Walter Lloyd, Robert Kerman

Dentre o ciclo canibal italiano, Cannibal Ferox é uma das produções mais famosas. Pegando carona no sucesso de Cannibal Holocaust de Ruggero Deodato lançado no ano anterior, o diretor Umberto Lenzi, nos apresenta mais do mesmo no quesito “pessoas perdidas na selva e sendo prato principal de índios canibais”, como é de se esperar.

Lenzi é o pai do gênero, o primeiro italiano que resolveu explorar o canibalismo nas telas, em seu filme inaugural desse Mundo Canibal em 1972. De lá para cá, essa fórmula foi repetida a exaustão (até a Emanuelle tem sua versão canibalesca no infame Emanuelle e os Últimos Canibais do picareta Joe D’Amato), atingindo seu auge em Cannibal Holocaust, o tal mais controverso filme já feito, e hors concours do exploitation. Mas essa sua última incursão no gênero (um ano depois de ter lançado o também polêmico e famoso Os Vivos Serão Devorados) não é lá grande coisa.

Na verdade, se pararmos para analisar friamente, Cannibal Ferox é quase um rascunho do irmão Holocaust. Vejam só: os dois se passam na selva amazônica, os dois tem como pano de fundo índios que vivem isolados da civilização e praticam a antropofagia, os dois tem a presença do homem branco sendo um grandessíssimo babaca e aloprando a tribo para que eles depois se revoltem, o ator Robert Kerman atua nas duas produções (em Holocaust ele é o Prof. Monroe e em Ferox é um detetive de Nova York) e os dois tem cenas de crueldades com animais (incluindo bichos se atacando como se fosse um programa do Animal Planet, com uma sucuri gigante atacando um pobre quati indefeso que fica guinchando ao ser triturado, uma onça devorando um macaco e uma iguana trucidando uma cobra) e até outra cena com uma tartaruga gigante. Sério, não sei o que esses pobres répteis fizeram aos cineastas italianos para mereceram tão trágico destino em todos esses filmes. Inclusive um dos atores do longa, Giovanni Lombardo Radice, era veemente contra matar os animais, e Lenzi tentou convence-lo dizendo que “De Niro faria isso”, e o compatriota respondeu: ˜De Niro chutaria seu rabo daqui até Roma”. SENSACIONAL! VIREI FÃ DESSE CARA!

Gourmet

Gourmetização do canibalismo

Na trama, a antropóloga Gloria Davis (Lorraine De Selle) parte para o Paraguai afim de comprar muamba completar sua tese de doutorado, que consiste em derrubar o mito dos canibais, e que não existe essa coisa de homem comendo homem, não! Isso é apenas um subterfúgio que os conquistadores espanhois utilizaram para dizimar raças inteiras de indígenas. Junto com seu irmão Rudy (Danilo Mattei) e a libidinosa Pat Johnson (Zora Kerova), eles se embrenham na mata em busca de uma tribo perdida que mora próxima ao rio Manioca. No caminho eles encontram Mike Logan (Radice), um traficante nova-iorquino que deu um pelé em dois bandidos barra pesada e fugiu para não ser assassinado. Por que a floresta? Junto com seu comparsa Joe Costolani, ele quer encontrar esmeraldas e se tornar rico.

Logan é um bastardo viciado em cocaína, que cheira mais que aspirador de pó, e em um momento de raiva e de noia, ele culpa os indígenas por não encontrar pedra nenhuma, e aproveitando que os mais novos haviam saído para pescar, ele toca o terror na tribo e tortura um dos pobres coitados, seu antigo guia, inclusive castrando-o. Não demora para que os demais índios retornem e resolvam retribuir na mesma moeda, colocando Glora, Rudy e Pat, que não tinham nada a ver com o pato, no mesmo patamar de “homem branco mau”.

Aí meu amigo, se prepare que vai começar a vingança regada a requintes de crueldade e muito sangue, justificando porque nos EUA ele ganhou o infame título de Make Them Die Slowly. Logan tem seu pênis decepado como havia feito com outro índio, prontamente comido pelo próprio canibal que o cortou fora. Assim, cru, de bate e pronto, sem nenhum temperinho e nem nada. Além disso ele tem o cocuruto arrancado com uma facada certeira e os índios se servem de seu cérebro como aperitivo. Outra que sofre horrores é Pat, que fica durante um dia inteiro pendurada em ganchos enfiados em seus seios. No final das contas, a única que consegue sair com vida desse pesadelo é Gloria, que termina o filme agraciada com seu título de PhD, porém desmistificando o canibalismo, encobrindo os verdadeiros fatos horrendos que se passaram na selva.

Carne de sol

Carne de sol

Diferente de Cannibal Holoacaust, que ousou e foi um dos predecessores do found footage, Cannibal Ferox tem uma narrativa linear básica, não é nem um pouco chocante como o irmão mais famoso, é cheio daqueles takes que enchem o saco ao mostrar os animais em seu habitat natural e a maquiagem é bem mais tosca. Primeiro que os canibais mais parecem índios cobertos com farinha. Segundo que os efeitos de gore nem são realistas e é tudo bem falso mesmo. Aquela coisa típica italiana.

A história também é bem meia boca, inclusive as desnecessárias sequências filmadas em Nova York, ao som de ítalo disco, contando a sub-trama do tenente Rizo e dos traficantes em busca do desaparecido Mike Logan. Fora as atuações que como todo bom filme italiano que se preze, são sofríveis. Mas claro que foi uma fita polêmica, controversa, entrou na lista famigerada dos Nasty Videos do DPP e foi banido em 31 países. Engraçado como os filmes gostavam de alardear isso na jogada de marketing de distribuição. O lance para eles era fazer filme que país nenhum assistia.

Mas vale a pena dar uma conferida em Cannibal Ferox, se você é fã do ciclo italiano canibal, ou mesmo pela curiosidade. Ou então só pela podreira mesmo.

SM e canibalismo

SM e canibalismo


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Matheus L. Carvalho disse:

    Eu gostei do filme.
    9,5/10,0

  2. […] indígenas contra o homem branco, etc), mas a diversos outros filmes do subgênero, principalmente Cannibal Ferox, de Umberto Lenzi  (a sequência final e a decisão da protagonista ao retornar à selva de pedra […]

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