424 – A Casa do Cemitério (1981)

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Quella villa accanto al cimitero / The House by the Cemetery

1981 / Itália / 87 min / Direção: Lucio Fulci / Roteiro: Lucio Fulci, Giorgio Mariuzzo e Dardano Sacchetti, Elisa Briganti (história) / Produção: Fabrizio De Angelis / Elenco: Katherine MacColl, Paolo Maco, Ania Pieroni, Giovanni Frezza, Silvia Collatina

A Casa do Cemitério é o terceiro filme da Trilogia da Morte do italiano Lucio Fulci, que começa com Pavor na Cidade dos Zumbis, passa por Terror nas Trevas e termina nessa bagaceira, que ao mesmo tempo em que é considerado o último filme que presta de Fulci, também é o pior dos três em minha opinião (e o mais sem pé nem cabeça, diga-se de passagem).

Aqui Fulci também continua sua parceria com o produtor Fabrizio De Angelis, responsável por produzir seu maior sucesso, Zumbi 2 – A Volta dos Mortos, uma espécie de divisor de águas na carreira do diretor, que antes era mais conhecido pelos seus gialli e western spaghetti, colocando-o no mapa do cinema de terror de vez e mais ainda, revolucionando-o, dando início ao ciclo splatter italiano.

Com um dos seus característicos roteiros com mais buracos que queijo suíço (impressionantemente escrito a seis mãos, pelo próprio Fulci, Giorgio Mariuzzo e seu parceiro habitual Dardano Sacchetti, baseado em uma história de Elisa Briganti, que por si só se inspirou lá de longe, mas beeeeem de longe, na obra de H.P. Lovecraft), Luci começa A Casa do Cemitério com uma cena apenas para mostrar peitinhos e gore (YEAH!). Depois de uma transa, uma garota e seu namorado são brutalmente assassinados por uma figura misteriosa no sótão de uma casa, ao melhor estilo filme slasher.

Quando o filme começa de verdade, em um clima soturno até bem construído por Fulci, pontuado pela trilha sonora de Walter Rizzati, em um dos momentos de rara felicidade do longa, essa mesma casa está presente em uma fotografia em preto e branco na casa dos Boyle, e o garoto insuportável Bob (Giovanni Frezza), aquele típico menino de oito anos de filme de terror que você torce para ele virar presunto logo, vê uma garotinha na janela e pergunta para a mãe, a sonsa Lucy (papel de Katherine MacColl, estrela dos três filmes da Trilogia da Morte), por que a garotinha (que só ele vê, e só ele continuará vendo até os créditos subirem) está dizendo para eles não irem para lá. Sinistro!

Mortinho da silva

Mortinho da silva

Acontece que eles VÃO para lá, pois o Dr. Norman Boyle (Paolo Malco), pesquisador da Sociedade Histórica de Nova York, é convencido pelo seu chefe, o Prof. Muller (cameo de Lucio Fulci) a mudar-se para a Nova Inglaterra para terminar a pesquisa do Dr. Eric Petersons, que se suicidou na biblioteca da cidade e matara sua amante, e com isso ganhar uma “fortuna” de bônus, que seria mais cinco mil dólares anual!

Daqui para frente, A Casa do Cemitério vira o samba do crioulo doido zumbi com pitadas de sobrenatural. A corretora imobiliária Laura Gittelson (Dagmar Lassander) coloca os Boyle na malfadada “Casa dos Freudstein”, antiga moradia de um médico louco, o Dr. Jacob Alan Freudstein (e esse sobrenome mistura do Sigmund com o Victor, hein?), que durante o século XIX fazia experiência ilegais com seres humanos e foi banido e impedido de exercer a profissão. A pesquisa do Dr. Petersons que lhe trouxe o conhecimento dos experimentos do famigerado cientista lhe levou a loucura, conforme o Dr. Boyle vai descobrindo durante suas investigações.

A primeira metade do filme é focada nessa investigação paranormal e estranhos acontecidos sobrenaturais que rondam a casa. Nisso, o boboca Bob conhece Mae (Silvia Collatina), a garotinha ruiva sardenta que lhe deu um pito para não mudar-se para a casa, e começa uma amizade além túmulo com ela, Laura e a babá Ann (Ania Pieroni) começam a ter atitudes suspeitas, mostrando nas entrelinhas que de alguma forma elas estão mancomunadas com a presença maligna que habita a casa (ou não, já que o futuro delas não é dos melhores), e algumas coisas estapafúrdias acontecem, como a pobre Lucy, já às raias da loucura pelo ranger de assoalho e bater de portas da casa, encontrar o túmulo do Dr. Freudstein bem no meio da sala, e nem sequer se importar muito com isso, assim como quando vê a suspeita Ann limpando um rastro enorme de sangue no chão, e não dá a mínima bola. Mas nunca espere muito do roteiro dos filmes de Fulci, né, a não ser aqueles closes nos olhos dos personagens sem o menor sentido.

A tal casa do cemitério

A tal casa do cemitério

A segunda metade é daquela grosseria visual que estamos acostumado em ver na filmografia do italiano, entre um e outro momento de tosqueira pura e inverossimilhança das bravas. Para quem espera o spatter em todo seu esplendor, A Casa do Cemitério não é tão visceral quanto os dois filmes anteriores, mas tem lá sua sanguinolência, como a clássica cena ridícula de um morcego de borracha que vive no porão da casa atacando o Dr. Boyle e depois levando umas facadas que lhe trará uma enxurrada de sangue (como é que um morcego pode ter tanto sangue dentro de seu corpo, nunca saberemos), ou na morte da corretora Laura sendo apunhalada por um espeto de metal diversas vezes, até o derradeiro golpe perfurando sua jugular, ou mesmo Ann, que tem sua cabeça decepada por uma faca, também ao melhor estilo slasher movie, tal qual Bob havia tido uma premonição logo ao chegar à cidade e ver um manequim parecido com a babá perder a cabeça também. Coloque tudo na conta da maquiagem do sempre competente Gianetto de Rossi.

ALERTA DE SPOILER, pule para o próximo parágrafo ou leia por sua conta e risco. Finalmente em seu terceiro ato, descobrimos a explicação vagabunda de que o Dr. Freudstein vive no porão da casa, desde o século XIX, como um zumbi putrefato, porém forte e ágil, e precisa de novas vítimas para manter a sua imortalidade. Trava-se uma luta entre o Dr. Boyle e a criatura, e aparentemente apenas o pequeno Bob consegue escapar do porão, auxiliado por Mae. Para no final, ele andar de mãos dadas com Mae e a Sra. Freudstein (mãe e filha, se você ainda não tiver se ligado) e caminham para a penumbra, deixando a safada conclusão em aberto sobre o destino do garotinho pentelho. E para completar a canastrice, Fulci atribui uma frase pouco antes dos créditos, “ninguém nunca saberá se as crianças são monstros, ou se os monstros são crianças” ao escritor Henry James, aquele do seminal “A Volta do Parafuso”, mas que na verdade foi criada por ele mesmo.

A Casa do Cemitério é cinema italiano de terror dos anos 80 sem ter o que por e o que tirar. Pobreza de um roteiro confuso para brindar o espectador fanático por gore com cenas violentíssimas de morte e sangue em profusão, algo que Fulci sabia fazer e muito bem. Depois daqui, o diretor nunca mais conseguiria atingir o status adquirido neste final dos anos 70 e começo de década, mesmo continuando na ativa com filmes como O Gato Negro, Um Gato no Cérebro, O Esquartejador de Nova York e Manhattan Baby, todos muito inferiores. Então por isso mesmo, assista A Casa do Cemitério com um certo olhar saudosista de despedida do mestre.

Zumbi spaghetti

Zumbi spaghetti meio Sigmund, meio Victor

Assista ao episódio do videocast do 101 Horror Movies comentando A Casa do Cemitério:

Serviço de utilidade pública:

O DVD de A Casa do Cemitério não foi lançado no Brasil.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

21 Comentários

  1. Daniel disse:

    Bom dia Senhores,

    O link para o download está errado. Está apontando para o arquivo de cannibal ferox.
    Parabéns pelo ótimo trabalho.

  2. alucardcorner disse:

    Admito que conheço poucos filmes de Fulci, ando nos últimos tempos atirar de cabeça para os realizadores de terror italiano, mas você não gostou do O Estripador de Nova York ? Achei um bom policial/erótico/gore lol

  3. Allan disse:

    Também gosto do Estripador de Nova York. Pra mim é melhor que A Casa do Cemitério.

  4. Marcus Vinícius disse:

    Não vai direito o spoiler, mas deu a impressão de que tem um quê de A Volta do Parafuso, e só isso vale pra se assistir. Uma vez ouvi que o Walter Lima Jr ia fazer uma adaptação de A Volta… mas parece que desistiram do projeto. Se bem que eu ouvi uma notícia que a Mel Maia da Globo vai fazer um filme de terror com ele. Será que é a tal adaptação?

  5. Marcus Vinicius disse:

    Eu nao vi direito o spoiler, mas parece que tem um lado A Volta do Parafuso, e so por isso ja merece ser assistido. Eu ouvi que o Walter Lima Jr andava querendo fazer uma adaptacao de A Volta do Parafuso, mas deve ter desistido. Se bem que no Altas Horas deu que a Mel Maia ia fazer um filme de terror com ele! Sera?!

  6. […] acho que o último filme de Fulci que presta é A Casa do Cemitério, que encerra sua famosa Trilogia da Morte, onde o diretor estava no auge do movimento splatter […]

  7. […] como a famosa Trilogia da Morte, que conta com Pavor na Cidade dos Zumbis, Terror nas Trevas e A Casa do Cemitério, que eu considero seu último bom […]

  8. […] dos Zumbis, primeiro filme da chamada Trilogia da Morte de Fulci, que segue com Terror nas Trevas e A Casa do Cemitério (ambos de 1981) é um festival de escatologia gore, mortes violentas, nojentices, grosseria e […]

  9. […] toscas e estapafúrdias de toda sua filmografia, seguido de pertinho por outro membro da trilogia, A Casa do Cemitério. O lance do diretor é ser visceral, gráfico, sujo, violento ao extremo e profano até o talo. […]

  10. Braiam Carati disse:

    Eu adorei o filme. Há tempos que um filme não me prendia a atenção do início ao fim. Sim, o roteiro tem alguns furos, e quando me deparo com isso uso a imaginação para criar alguma resposta, hipoteticamente falando. Até porque eu preciso acreditar na história. Prosseguindo, eu nem queria assistir ao filme devido a crítica de vocês, mas mudei de ideia logo os créditos iniciais, pois a história fez sentido para mim, eu achei deveras empolgante. O pai da família (esqueci o nome e estou com preguiça de pesquisar) investigando a pesquisa do cara que se suicidou, a reviravolta, enfim, não vou falar pra não dar spoiler. Poxa, adorei o filme. Super recomendo. Abração! Voltem com o horrorcast.

    • Oi Braiam.

      Que bom que você curtiu. Fulci é assim: ou você gosta, ou você odeia. Vamos voltar com o Horrorcast no final de fevereiro, e está programando neste ano um episódio exatamente de A Casa do Cemitério, para fechar a trilogia, já que já fizemos de Terror nas Trevas e Pavos Na Cidade dos Zumbis.

      Abs

      Marcos

  11. […] 2 – A Volta dos Mortos é um marco no subgênero e a trilogia com Pavor Na Cidade dos Zumbis, A Casa do Cemitério e Terror Nas Trevas carrega todo um clima sobrenatural fúnebre, de desalento e resignação que […]

  12. Matheus L. Carvalho disse:

    Horror de primeira.
    Gore de primeira!
    Filme de Terror Italiano de Primeira!!!!

    10/10

  13. MARCOS, PRIMEIRAMENTE PARABÉNS PELA CRITICA. PASSEI A PRESTAR ATENÇÃO EM ALGUNS ” BURACOS” DO FILME E CONCORDO PLENAMENTE CONTIGO, ALGUNS EU AINDA NEM HAVIA ME DADO CONTA, COMO QUANDO A BABÁ ANN ESTÁ LIMPANDO A IMEEEEENSA MANCHA DE SANGUE DE FORMA EXTREMAMENTE NATURAL E O PIOR, SUA PATROA LUCY NEM AO MENOS OLHA COM ATENÇÃO OU DÁ QUALQUER IMPORTÂNCIA KKKKKKKKK. QUANDO VI ESSE FILME EM 1998 FOI POR INDICAÇÃO DO VIZINHO DA FRENTE QUE ALUGAVA FITAS VHS, ME LEMBRO DEMAIS DA CENA COM O MANEQUIM E LOGO DEPOIS DA CENA MAIS ATERRADORA, ATEMPORAL E CLÁSSICA, DA DECAPITAÇÃO DE ANN. APÓS BAIXA-LO AQUI E REVÊ-LO, OUTRO PROBLEMA ME IRRITOU UM POUCO, PORQUE O DR. FREUDSTEIN CHORA COPIOSAMENTE??? AQUELE CHORO DE RECÉM NASCIDO ME DEIXOU IRADO DEMAIS, TAL QUAL A VOZ DE PATO DONALD DO ASSASSINO DE O ESQUARTEJADOR DE NOVA YORK. FORA ISSO É UM DESLUMBRE VISUALIZAR UM GORE QUE COLOCA QUALQUER EFEITO DE CGI NO INFERNO.
    OBRIGADO PELO POST E SIGO SEMPRE TE ACOMPANHANDO, GRANDE ABRAÇO.

  14. […] Leia a minha resenha sobre A Casa do Cemitério aqui. […]

  15. […] Reeves (“O Caçador de Bruxas”) e o último grande papel do astro Boris Karloff. DISCO 2 A CASA DO CEMITÉRIO (“Quella villa accanto al cimitero”, 1981, 86 min.) De Lucio Fulci. Com Catriona MacColl, Paola […]

  16. Anderson dias disse:

    Mano vcs colocam muito defeito no filme meu é um puta filme da de 10 a zero nessas perdas de hj q chamam de terror

  17. Anderson dias disse:

    Da de 10 a zero no tal centopeia humana e a serbian film q todo mundo fica impactado de ver …meu sou mil vezes esses filmes clássicos antigos

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