428 – O Gato Negro (1981)

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Gatto nero / Black Cat

1981 / Itália / 92 min / Direção: Lucio Fulci / Roteiro: Lucio Fulci, Biagio Proiettu (inspirado na obra de Edgar Allan Poe) / Produção: Giulio Sbarigia / Elenco: Patrick Magee, Mimsy Farmer, David Warbeck, Al Cliver, Dagmar Lassander, Bruno Corazzari

 

O Gato Preto é um dos mais famosos contos de Edgar Allan Poe e já foi adaptado diversas vezes às telas de cinema. A primeira incursão do bichano foi no clássico da Universal de 1934 com Boris Karloff e Bela Lugosi no elenco. Em 1941, foi a vez de Basil Rathbone enfrentar o felino. Na década de 60 durante o ciclo Poe de Roger Corman, Vincent Price e Peter Lore estiveram às voltas com o gato em Muralhas do Pavor, de 1962. Dez anos mais tarde, Sergio Martino aproveitava a vilania do animal no afetado No Quarto Escuro de Satã. O Gato Negro de Lucio Fulci é a segunda versão spaghetti do conto, que mais tarde seria novamente dirigido por outro italiano, Dario Argento, em Dois Olhos Satânicos, em 1990.

Aqui veremos Fulci meio mozarela, meio calabresa, misturando a técnica e o viés sobrenatural utilizado em filmes como Premonição ou O Estranho Bosque dos Sonhos, com um breve perfume da grosseria presente em Zumbi 2 – A Volta dos Mortos ou os filmes anteriores da Trilogia da Morte, claro, sem apertar o foda-se como fez em Terror nas Trevas, por exemplo.

Na verdade, O Gato Negro, que foi dirigido pelo italiano como um favor ao produtor Giulio Sbarigia, por isso a direção no automático de Fulci, mas mesmo assim contando com a sempre ótima fotografia do parceiro desde a época dos westerns, Sergio Salvati, e graciosa trilha sonora de Pino Donaggio, evoca aos velhos tempos do cinema fantástico italiano, com apreço ao gótico e seus casarões velhos ladeados por árvores de galhos retorcidos, neblina e pitadas de sobrenatural, escola desenvolvida de forma sublime por Mario Bava lá nos anos 60, deixando um pouco de lado todo o gore e violência gráfica que tonaram-se marca registrada de Fulci em seus últimos trabalhos.

Como é impossível construir um longa metragem fidedigno ao conto de Poe, coube a Fulci e ao roteirista Biagio Proietti pegar os limões e transformar em uma limonada, expandindo, distorcendo e voltando às origens vez ou outra da obra literária, e conseguir construir uma trama de 92 minutos com um gato serial killer vingativo. Só por isso, o sujeito já merece ser ovacionado de pé, afinal, Fulci é mestre em fazer filmes sobre o nada.

MEOW

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O Dr. Robert Milles (Patrick Magee, mas papel originalmente oferecido para Donald Pleasence e rejeitado também por Peter Cushing, por conta da fama sanguinolenta do diretor, e que já havia lidado com gatos em Trama Sinistra) é um psíquico que tenta se comunicar com os mortos, possui um leve mediunidade e ainda por cima tem a habilidade de controlar a mente de seu gato preto, usando o animalzinho para cometer assassinatos e praticar atos de vingança para o sujeito que vive isolado e ridicularizado pelo resto da cidadezinha onde mora. Logo na primeira cena do longa, Fulci mostra ao que veio, com o felino espreitando um homem na rua, sendo que a câmera é o POV do bichano, e já faz com que o pobre diabo sofra um acidente de carro e seja lançado para fora do para-brisa, com seu bonecão ensanguentado sobre o capô do veículo.

A fotógrafa Jill Trevers (Mimsy Farmer) está visitando a cidade para tirar fotos das ruínas do local, quando se depara com um microfone em uma tumba, deixada pelo Dr. Milles para tentar gravar a conversação dos mortos. Enquanto isso, um casalzinho safado se esconde em uma sala perto da marina para fornicar, quando o gato entra pelo tubo do ar-condicionado, provoca um curto-circuito e rouba a chave da porta (!!!!!), deixando os dois ali trancados sufocando e cozinhando por conta do calor. O inspetor Gorley (David Warbeck) da Scotland Yard é enviado para investigar o sumiço dos jovens e acabará se envolvendo com Jill (até romanticamente) em uma série de assassinatos bizarros que vem sendo cometidos pelo felídeo, que inclui aí um bêbado que cai de uma construção e é empalado por canos de metal e uma dondoca que é queimada viva junto de sua casa.

Todas as mortes terão ligação com o pirado Dr. Milles, e ao chegar naquele momento fatídico do plot twist quando Jill descobre toda a verdade, é melhor você apertar fundo o botão da descrença para poder curtir o restante do filme, apesar de quê o próprio conto de Poe já trás em sua narrativa a ideia do comportamento errático do dono do gato ser alterado pelo bicho maligno. E acredito que você já deva conhecer o famoso desfecho da história do escritor americano, senão já sabe, ALERTA DE SPOILER, pule para o próximo parágrafo ou leia por sua conta e risco: tal qual manda o figurino, Milles mata o gato e empareda a mocinha viva, mas quando os policiais investigando o desaparecimento da fotógrafa chegam à casa do médium, eis que o gato começa a miar e eles descobrem ele lá vivinho da silva, atrás da parede junto com o corpo da donzela. Vale lembrar que Fulci já usou do expediente de pessoas emparedadas vivas em Premonição, que tem um final quase idêntico a O Gato Negro (ou ao conto de Poe, melhor dizendo).

Com todo clima de suspense bem construído, seus famosos closes nos olhos, doses de violência, porém mais atenuadas que o de costume, uma ode ao cinema gótico italiano ou ao mestre Hitchcock, as baboseiras e furos de roteiro de sempre, os efeitos de maquiagem capengas, e por saber levar um filme de uma hora e meia de mortes praticada apenas por um gato, ponto para Lucio Fulci e ponto para O Gato Negro.

Gato, o empalador!

Gato, o empalador!

Serviço de utilidade pública:

O DVD de O Gato Negro está atualmente fora de catálogo.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. eduardo macedo disse:

    O dvd foi lançado no Brasil pela Continental. Qualidade boa.

  2. […] adquirido neste final dos anos 70 e começo de década, mesmo continuando na ativa com filmes como O Gato Negro, Um Gato no Cérebro, O Esquartejador de Nova York e Manhattan Baby, todos muito inferiores. Então […]

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