43 anos de horrores em Amityville

Fato ou Ficção? A construção de uma das franquias mais emblemáticas do horror


Minha bisavó costumava me dizer que em toda tragédia existe uma oportunidade. O infame casal Ed e Lorraine Warren, por exemplo, não tardou a colocar os pés em Amityville, clamando todo tipo de atenção para si próprios. Bem, eles nunca fizeram nada naquela casa, mas tudo bem, eu nunca conheci minha bisavó. Mas realmente, em toda tragédia existe uma oportunidade e muita gente tem colhido frutos de um desses casos há mais de 40 anos.

O que se passou naquela fatídica noite de novembro de 74, às 3h da madrugada, na avenida Ocean número 112 deixou um país em choque. Ronald DeFeo Jr., munido de uma espingarda, assassinou toda sua família: pai, mãe, dois irmãos e duas irmãs. Depois tomou banho e trocou de roupa. Horas mais tarde, foi até um bar e anunciou que havia encontrado sua família morta. Mentiu sobre o ocorrido, dizendo que o crime fora cometido por um assassino de aluguel da máfia, mentira que não se sustentou. Disseram depois que DeFeo queria o dinheiro do seguro de vida do pai. Disseram também que DeFeo ouvira vozes naquela noite, comandando-o a matar.

Essa então tornou-se a versão popular,  corroborada por um detalhe insólito: não havia qualquer sinal de luta por parte de nenhum dos DeFeo. Cada um deles estava morto em sua própria cama, de bruços. A hipótese inicial é de que eles haviam sido dopados na véspera do ataque, mas os exames toxicológicos não revelaram quaisquer substâncias nas vítimas. Também foi descartada a possibilidade de um silenciador ter sido anexado a arma. Basicamente, Ronald DeFeo Jr. foi de quarto em quarto, recarregando, engatilhando e atirando, sem que ninguém acordasse e nenhum vizinho ouvisse os disparos.

No ano seguinte, moradores conscientes sobre a tragédia mudam-se para o casarão. A estada da família Lutz no local foi breve – 28 dias – e, segundo eles, por pouco não terminou em tragédia. Fugiram no meio da noite, levando só a roupa do corpo, após serem atormentados por todo tipo de força maligna no local.

Pesquisadores do paranormal foram até o local, incluindo aí os Warren, como já mencionado. A equipe deles fez um registro fotográfico que supostamente mostrava uma das crianças DeFeo e Lorraine contou ter vivido uma das experiências mais impactantes de sua carreira como médium. Muitos consideraram toda a história balela e uma tentativa desonesta daquela família em conseguir levantar uma grana. Verdade seja dita, chegamos em um momento em que veracidade e motivações tornaram-se coadjuvantes e a história, inventada ou não, concretizou-se como uma das lendas urbanas mais populares da atualidade.

Por muito tempo o casal Lutz ganhou mídia com suas histórias bizarras, detalhando rigorosamente os tormentos que viveram. As minúcias do caso foram exploradas pelo autor americano Jay Anson que, em 1977, publicou o livro Horror em Amityville. A maneira com que George e Kathy expuseram estes acontecimentos em rede nacionalmente permaneceu a mesma até o dia de suas mortes. Porém, mais recentemente, em entrevista concedida para um documentário, Daniel Lutz, que era uma criança na época, trouxe à tona algo que nunca havia sido discutido. Segundo ele, o local realmente era assombrado, mas aquilo que lhes acometeu não veio de graça. Seu padrasto George Lutz teria o costume de explorar o oculto, sendo ele o responsável por acordar algo de ruim que ali existia. Informações como essa podem ser encontradas no documentário My Amityville Horror de 2012.

Dois anos depois de ser retratada em livro, a história dos Lutz alcançou o cinema, com a direção de Stuart Rosenberg. Ainda antes de vários outros ícones como Freddy e Jason darem as caras, a mansão com janelinhas que se parecem com olhos já galgava os primeiros degraus para tornar-se figurinha pop carimbada do horror.  E aqui estamos, 43 anos depois, prestes a visitar esse mesmo mal pela décima nona vez! (Décima nona??!?!!)

Visitando Amityville

Imagino que o primeiro contato de muitos leitores – e o meu próprio – com a série tenha sido por meio do remake, aquele estrelado por Ryan Reynolds, durante a febre das refilmagens do início dos anos 2000. O longa original é bem mais antigo, data de 1979 e, apesar de quase quarentão, permanece uma obra singular e talvez o maior expoente do subgênero casa mal assombrada, próximo de filmes como Intermediário do Diabo, de Peter Medak e Desafio do Além, de Robert Wise.

Batizado de, Terror em Amityville (ou Cidade Maldita, como foi lançado aqui originalmente) se destaca pela atmosfera e ambientação, introduzindo a casa do número 112 como lar de uma força maligna e profana, capaz de transformar pessoas comuns em assassinos em massa. Chances são de que o mal provém de um misterioso quarto vermelho, que parece ser um portal para o inferno. Encontrei, recentemente, um vídeo no youtube em que uma amiga de uma das crianças DeFeo revela o tal quarto vermelho real. Longe de ser um cômodo misterioso com paredes cor de sangue, este era apenas uma despensa, localizada no porão, com uma porta bem visível, onde as crianças guardavam brinquedos. O vermelho fica por conta de um pouco de tinta em um canto do quarto. Mas como mencionado anteriormente, o intuito desse texto não é desacreditar a lenda urbana, então vamos lá! Tendo faturado mais de 80 milhões de dólares, a fita de Rosenberg é uma das obras mais lucrativas do cinema independente de todos os tempos.

Em 82, já navegando na popularidade das novas franquias de horror e do mar de dinheiro feito por seu precursor, Damiano Damiani conta a história que se passou antes dos Lutz se mudarem para a casa. Amityville 2 – A Possessão coloca os Montelli em perigo iminente, quando o filho mais velho é possuído pela coisa ruim que ali habita e ameaça matar a família inteira. Os Montelli são uma versão ficcional dos DeFeo, alteração que permitiu alterar a gosto a realidade das relações daquela família, incluindo até incesto.

Ao passo em que o anterior se sobressai pelo elemento casa-assombrada, essa sequência toma um caminho tipicamente oitentista, acrescentando temas de outros subgêneros como possessão, exorcismo e até efeitos práticos protéticos e coisas nojentas. Considerando por muitos um dos melhores da franquia, chegou a ser lançado no Brasil juntamente com a sequência, em uma daquelas revistas com DVD nos anos 2000. Existem diversas inconsistências relativas a continuidade entre esses dois, mas nada que se compare ao que está por vir.

Há alguns anos atrás, James Cameron e seu Avatar encabeçaram o movimento 3D que chamo de versão leite ninho. Lá nos 80, por vez, temos movimento 3D de raiz, cheio de objetos pontiagudos protuberantes alcançando nossas cadeiras, objetos sendo arremessados em direção ao o público e coisas do tipo. O terceiro Amityville embarcou nessa onda, juntamente com Tubarão 3 e Sexta-Feira 13 Parte III. Nunca tive a felicidade de assistir Amityville 3: O Demônio nesse formato, mas posso imaginar que beleza de experiência.

Estranhamente, parece que cada novo filme ignora em certo grau a existência do anterior. Não há qualquer tipo de reconhecimento de que os Lutz ou os Montelli tenham vivido na casa antes dos Baxter, os moradores da vez. Cada parte parece dialogar apenas com o caso original da família DeFeo e olhe lá. Como a mão de três dedos no cartaz do filme bem sugere, o mal que outrora fora etéreo, metafísico, agora assume formas monstruosas e perde todo tipo de sutileza: o capeta veio para te levar pessoalmente para o inferno!

O capeta tem três dedos

A Saga dos Móveis

A terceira parte termina com a destruição da casa, após um confrontamento dos diabos, fato este que foi sistematicamente ignorado para o filme seguinte, Amityville 4: O Mal Escapa. Aqui temos o que gosto de chamar de “Saga dos Móveis”, que passou a dominar a franquia. Uma pobre infeliz compra um abajur que, muito provavelmente, pertencera aos Lutz, levando um pedacinho de desgraça para o próprio lar. Obviamente o mal secular do número 112 atormenta a vida da mulher. Mesmo passando por cima de seu predecessor, reconhece, mesmo que de forma débil, a existência dos dois primeiros. Da sequência 3D em diante, Amityville segue destrambelhado ladeira abaixo, passando por lugares cada vez mais profundos dentro do poço de ruindade em que a maioria das franquias também caiu em algum momento.

Lançado quase que em concomitância com este último, Amityville 5: A Maldição de Amityville parece ser um estranho no ninho. Até então a franquia girava em torno da mesma casa assombrada, com uma outra extensão. Dessa vez, o balde foi chutado e a casa simplesmente trocada. Inspirado no livro The Amityville Curse, essa sequência traz um novo set de personagens e um novo local, ainda na mesma cidade. Mais uma vez, apenas o caso DeFeo é mencionado, mas teóricos dizem que a nova casa pode estar conectada com o antigo casarão por meio de túneis. De um modo ou de outro, a cidade inteira parece estar amaldiçoada.

De volta a “Saga dos Móveis”, temos Amityville 6: Uma Questão de Tempo, cujo título original seria melhor traduzido para “AMITYVILLE: JÁ ERA HORA!” (It’s About Time). O móvel da vez é um daqueles relógios macabros antigos. O fato do título ser uma piadinha diz muito sobre a obra… para piorar, os personagens parecem ter saído diretamente de algum sitcom dos anos 90.  Surpreende grandemente que essa pérola seja dirigida por Tony Randel, responsável por Hellraiser 2: Renascido das Trevas. Para um filme sobre um relógio imbuído de trevas, Uma Questão de Tempo não é assim tão ruim.

Já em 93 fomos agraciados com Amityville: A Nova Geração, sétimo filme nesse mundaréu de assombrações e terceira sequência na “Saga dos Móveis”. Acreditem se quiser, mas este filme é legal DE VERDADE! Depois do abajur e do relógio, o objeto maldito da vez é um espelho. Sem dúvidas a ideia mais interessante, se considerarmos a vastidão de sentidos e significados que podem ser associados ao espelho. Mais interessante ainda é o fato do filme ser diretamente influenciado por Alucinações do Passado, horror dos mais graúdos da década de 90. Não se enganem demais com os meus elogios, apesar de divertidíssimo e cheio de ideias legais, Amityville: A Nova Geração ainda é um filme B de baixo orçamento dos anos 90, então… Ah, e ainda rola uma participação de Lin Shaye, a paranormal Elise de Sobrenatural.

Sexta-Feira 13, A Hora do Pesadelo, Halloween, Hellraiser… todas essas séries têm em comum o fato de que se tornaram tão ruins, que em algum momento tiveram de desistir ou recomeçar. O último prego no caixão de Amityville veio com A Casa Maldita ou Amityville 8: Casa de Bonecas. Basicamente, uma garotinha ganha uma casa de boneca que é uma réplica do casarão ominoso. Sério, seríssimo! Uma casa de boneca do capiroto! Durante todo o filme, só consegui pensar no comercial de humor do grupo Hermes e Renato, PENTAGRAMA TOYS, e seus brinquedos que incluíam o CAIXÃOZINHO DA BABI e o JOGO DA VIOLÊNCIA. Vale a pena ser assistido pela quantidade de bizarrices que acontecem do começo ao fim.

Daí para o filme seguinte passaram-se quase 10 anos. Em 2005, seguindo a onda interminável de remakes, a Platinum Dunes trouxe a família Lutz novamente às telonas, desta vez com Ryan Reynolds e Melissa George. Apesar de tecnicamente melhor e com atuações vastamente superiores a tudo que aconteceu no mundo de Amityville desde o advento do 3D, Horror em Amityville sofre com a falta de personalidade, e têm aquele mesmo tom pesado comum ao cinema de horror da época. Compartilha também outros problemas, como escolhas estéticas baseadas mais em estilo e uma necessidade imensa de explicações, chegando ao ponto de apelar para o bom e velho “antigo cemitério indígena”. Ainda assim, é vastamente superior à A Casa Maldita ou Uma Questão de Tempo, especialmente por conta de Ryan Reynolds, sempre muito carismático.

Um George Lutz de fazer qualquer casa assombrada ficar louca

Amityville Exploitation  – A franquia não oficial

Desse ponto em diante, a trajetória cinemática de Amityville torna-se mais controversa e obscura. Cada uma das partes parece ter sido produzida e distribuída por uma empresa diferente. Essa novela é infinitamente mais complexa e cheia de reviravolta que todos os filmes anteriores e envolve compra e venda de direitos e até falência de distribuidoras e produtoras. Por este motivo, os filmes que foram lançados em sequência compõem a série original, ficam dispostos como descrito anteriormente.

Após a saída da família Lutz da casa número 112 na avenida Ocean, nenhum outro relato paranormal foi registrado no lugar. A minha teoria é de que as forças malignas ficaram de saco cheio dos filmes intermináveis, preferindo assim voltar para as profundezas abissais do inferno. Ao contrário do Príncipe das Trevas, eu e mais meia dúzia de entusiastas ainda temos apreço pelo casarão em Long Island e estamos dispostos a voltar pra lá enquanto existirem histórias para serem contadas naquele lugar. É exatamente por conta de gente como este humilde redator que vos escreve empresas com The Asylum existem.

Em 2011, a infame produtora de trasheiras iniciou um novo ciclo que chamarei aqui de “Amityville Exploitation”, com o abismal The Amityville Haunting, um dos piores filmes que já assisti na vida. Este é um dos milhares de found-footage lançados no início da década atual, daqueles dignos de manchar o nome do subgênero para sempre. No fiapo de trama apresentada, a família Benson se muda para a casa assombrada onde os DeFeo foram assassinados. Por motivos óbvios, a casa real não é utilizada e nem os Lutz são mencionados. A picaretagem chegou no ponto de criarem um cartaz com uma casa parecida, enganando os mais desprevenidos pelas janelinhas em forma de olhos, marca registrada do lugar, tática já manjada da Asylum.

Dois anos depois foi a vez de The Amityville Asylum aparecer pra compor esse cenário deplorável. Como o título indica, a trama se passa em um hospital psiquiátrico localizado na cidade. Fato curioso é o tal hospital se chamar High Hopes, que fora o nome dado pelos Lutz para sua nova casa, na vida real. O décimo primeiro longa-metragem inspirado no mesmo caso consegue ser tão ruim quanto o anterior. Veja bem, costumo fazer um registro pessoal de cada filme que assisto, já há alguns anos. Para este filme, escrevi apenas a mensagem “Por favor, me matem”. Diz muito sobre a qualidade do mesmo, não é?

Nos anos seguintes, o “Amityville Exploitation” seguiu firme e forte, entregando os títulos Amityville Death House (2015); The Amityville Playhouse (2015); The Amityville Terror (2016); Amityville: No Escape (2016); Amityville: Vanishing Point (2016); The Amityville Legacy (2016). Estes eu ainda não tive o desprazer de assistir, alguns por não conseguir encontrar (sim, eu fui atrás, confesso…), outros por vergonha na cara, medo e até melhora na minha auto-estima. Só para exemplificar, a nota média desses filmes no IMDb é algo em torno de 3. TRÊS!

Prestes a finalizar o presente artigo, descobri a existência de um outro Amityville, lançado em 2017! Amityville Exorcism reforça as linhas do “Amityville Exploitation”. Por um misto de curiosidade e masoquismo, resolvi encarar a obra com meus próprios olhos. Arrependi.

Esse consegue ser ainda pior que os outros dois nessa mesma linha que eu já havia visto. Pega um pouco da ideia da “Saga dos Móveis”, mas utilizando madeira da casa assombrada como fonte do mal. Como é ruim este filminho! É um trabalho claramente amador, coisa que seria até passável se melhor intencionado. Mas ao explorar o nome Amityville gratuitamente e fazer um filme 100 % chupado de O Exorcista, na cara dura, mas envolvendo um brother de roupão e máscara vermelhas. Não há como respeitar.

Eu assistindo os filmes do Amityville Exploitation

Já era hora! A Nova Nova Geração

O recém-lançado Amityville: O Despertar que estreia amanhã nos cinemas brasileiros é décima parte da franquia oficial e 19ª fita inspirada no crime de DeFeo e nas assombração dos Lutz. O projeto nasceu em 2014, com direção e roteiro de Franck Khalfoun, que nos entregou o perfeito remake de Maníaco. A primeira versão não satisfez os produtores e o longa foi retirado da lista de lançamentos. Uma série de problemas, que envolveram a venda da empresa originalmente envolvida na produção e refilmagens que se estenderam até 2016, seguraram-no por um tempo muito maior do que o imaginado. Nos Estados Unidos, seu país de origem, sequer há uma data fixa de lançamento.

Cronologicamente, esta seria a décima segunda parte deste todo, já que a primeira data de estreia fora 02 de janeiro de 2015. O atraso foi tão grande que, do anúncio ao lançamento, outros sete filmes foram feitos, se aproveitando do retorno aos holofotes. Talvez por se tratar de um lugar real e não de uma figura específica, como Freddy ou Jason, Amityville tenha se tornado a vítima perfeita para os exploradores, o que explica a existência de 19 fucking filmes. Ou 20, se contarmos o documentário sobre Daniel Lutz.

Analisando o conjunto, o maior ponto positivo deste novo longa é retomar a ideia de uma malignidade sem forma, que atua de forma psicológica, em primeiro plano. Saem de cena os demônios e criaturas e há um retorno mais que necessário à atmosfera. Infelizmente, dada a complexidade de eventos ao redor deste último filme, é difícil imaginar um caminho viável para a franquia original vingar novamente, sem que recorram à um novo começo.

Provavelmente o “Amityville Exploitation” continuará por mais algum tempo, ao menos enquanto as conversas sobre O Despertar continuarem lá fora. Atualmente, no meio mainstream, Eli Roth está envolvido na produção de 1974, descrito até então como um thriller que contará a história real de Ronald DeFeo Jr.. A direção fica por conta de Casey La Scala, um dos produtores de Amityville: O Despertar.

Plenos


Daniel Rodriguez
Daniel Rodriguez
Fã de horror em suas diferentes formas, principalmente cinematográfica. Incapaz de adentrar igrejas, pelo risco de combustão espontânea, dedica sua vida pagã a ensinar inglês, escrever sobre o gênero e, mais recentemente, fazer seus próprios filmes.

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