436 – A Morte do Demônio (1981)

The Evil Dead

1981 / EUA / 85 min / Direção: Sam Raimi / Roteiro: Sam Raimi / Produção: Robert G. Tapert, Irvin Shapiro, Gary Holt (Produtor Associado), Sam Raimi e Bruce Campbell (Produtores Executivos) / Elenco: Bruce Campbell, Ellen Sandweiss, Richard DeManincor, Betsy Baker, Theresa Tilly

 

Se me pedissem para definir o gênero splatter em um único filme, esse filme seria A Morte do Demônio, ou Evil Dead para os íntimos! E sem dúvida nenhuma, Sam Raimi é o cara. Ele mudou o destino do cinema de terror para sempre provando que se pode fazer algo experimental extremamente inteligente, com um roteiro bacana apenas reciclando ideias já existentes, mesclando forte inspiração do cinema gore italiano com o cinema adolescente americano, orçamento irrisório, efeitos especiais beirando o ridículo e cinco atores amadores para sustentar 85 minutos de fita. É o terror cult definitivo!

Hoje é praticamente impossível enxergar algo além do trash e do cômico em A Morte do Demônio. Uma garota sendo estuprada por galhos de árvore, bonecões mal feitos, sangue falso abundante, maquiagem de quinta categoria e animações de massinha em stop-motion. Mas eu me lembro muito bem de quando era pequeno e vi o filme pela primeira vez, lá nas noites da Rede Bandeirantes (antes de Cine Trash existir e coisa e tal). Eu tinha ficado realmente muito impressionado, tanto que era um dos filmes mais assustadores na minha opinião, até revê-lo com mais idade. E isso também aconteceu com a plateia em 1981, tanto que o filme foi censurado e proibido (novidade) e fez mais de 29 milhões de dólares de bilheteria mundial, contra um orçamento de 300 mil dólares. Imagine então que esse cara depois veio a dirigir a milionária trilogia do Homem-Aranha com um caminhão de dinheiro!

Sam Raimi partiu do famoso princípio “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” e juntou seus amigos de faculdade, Robert Tapert para produzir (com que tem uma produtora de filmes de terror hoje em dia, a Ghost House Pictures) e um até então desconhecido Bruce Campbell para estrelar. Bebendo na fonte dos diretores dos anos 70 como Dario Argento, Tobe Hooper e Brian De Palma, Raimi utiliza toda a criatividade que se é possível com dinheiro de pinga e cria movimentos de câmera ousados, em um travelling que faz às vezes da terrível criatura kandariana despertada na floresta ao perseguir suas vítimas, que o levou a ser considerado um dos novos diretores mas promissores da época e virou uma de suas marcas registradas.

Na história, cinco jovens vão passar uma noite em uma cabana abandonada no meio da floresta. No porão da cabana, encontram uma gravação feita por um arqueólogo que fazia expedições nas ruínas da antiga cidade de Kandar e também um livro que é denominado O Livro dos Mortos, claramente inspirado no Necronomicon de H.P. Lovecraft (o livro ganharia até o mesmo nome nas continuações). Numa diversão sadia e despretensiosa, começam a ouvir a gravação (originalmente os personagens fumariam maconha enquanto escutavam, e os atores resolveram fazer o mesmo para dar mais, hã, realidade à cena, que teve de ser refeita pois todos estavam MUITO LOUCOS), que faz com que um mal secular desperte no bosque lá fora, atacando um por um, que vão se transformando em criaturas demoníacas de maquiagem tosca.

O último grande herói!

O último grande herói!

E eis que surge Ashley ‘Ash’ J. Williams, personagem eternizado por Bruce Campbell (brother the Raimi, sendo que ambos fizeram vários curtas de 8mm durante a faculdade, incluindo aí Within the Woods, em 1978, que deu origem ao A Morte do Demônio – dá para assistir aqui) que começa como um baita loser cagando de medo das criaturas e no decorrer do filme ao ser banhado por sangue, obrigado a decepar a própria namorada, e ter que tomar outras medidas extremas, vai se transformando em um maluco afetado até virar um verdadeiro badass da Idade Média no terceiro filme da trilogia, com uma das mãos cortadas sendo substituída por uma motosserra e sua espingarda cano duplo de cabo de nogueira comprada na S. Mart (“This is my boomstick!”).

E todos esses toques peculiares de podreira que Raimi conferiu ao filme com sua genialidade para driblar os problemas orçamentários, fora a criação de toda uma mitologia até hoje serve como inspiração, transformaram no cult de horror definitivo (repito), e também o mesmo vale em suas continuações, o que faz da trilogia Evil Dead algo deliciosamente imperdível, para fã do gênero nenhum botar defeito! Afinal, Ash é adorado por 11 em cada 10 amantes do horror!

Como bem sabemos, no ano passado o tão esperado remake/reboot/continuação/whatever de A Morte do Demônio chegou às telas, com uma pegada completamente diferente do original, deixando todo o tom criado por Sam Raimi de lado, apostando mais em uma carga dramática diferente nos personagens, cenas realmente apavorantes e com um violento apelo visual e ótimos efeitos especiais e de maquiagem, maaaaaaaas que acaba não tendo o mesmo charme que o filme de Ash e companhia. Eu particularmente não gosto muito, porém vale a conferida.

Ah, uma outra dica BEM bacana para quem é fã de carteirinha do filme, como eu, é o livro Evil Dead – A Morte do Demônio [Arquivos Mortos] da excelente editora Darkside Books, lançado inclusive em edição limitada de capa dura aqui no Brasil, trazendo os bastidores, entrevistas e curiosidades da filmagem deste clássico, compilados e escrito por Bill Warren.

Com mil diabos!!!

Assista ao episódio do videocast do 101 Horror Movies comentando A Morte do Demônio:

Serviço de utilidade pública:

O DVD de A Morte do Demônio está atualmente fora de catálogo.

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Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] E em determinada noite, Nancy está assistindo televisão e o filme que está sendo exibido é A Morte do Demônio, que foi a retribuição de uma homenagem a Sam Raimi, que em seu filme havia colocado o pôster de […]

  2. […] pega a mesma fórmula criada por Sam Raimi em A Morte do Demônio e a mistura com a inspiração do cinema gore italiano para contar a história do Dr. Frankenstein […]

  3. […] verde para produzir uma sequência? Foi o que aconteceu com Sam Raimi. Com o estrondoso sucesso de A Morte do Demônio, Raimi resolveu fazer uma sequência/reboot/remake do seu clássico seis anos depois, e eis que […]

  4. […] coisa que bebe diretamente na fonte de Sam Raimi e seu A Morte do Demônio e Uma Noite Alucinante é a forma como o personagem de Lionel, que é um babaca no começo do […]

  5. […] após a usina ser destruída. Lembra, dadas as devidas proporções, o stop motion utilizado em A Morte do Demônio, de Sam Raimi, quando os possuídos começam a virar purê de […]

  6. Filme genial!!!!!!!!!!!!!

  7. […] Leia aqui a minha resenha de A Morte do Demônio aqui. […]

  8. Andrigo Mota disse:

    que?
    ” (originalmente os personagens fumariam maconha enquanto escutavam, e os atores resolveram fazer o mesmo par dar mais, hã, realidade à cena, que teve de ser refeita pois todos estavam MUITO LOUCOS) ”

    Da onde surgiu isso???? Eu hein.

    By the way, melhor filme ever mesmo da minha saudosa infancia anos 80.

    By the way part 2, sempre vejo o site aqui e vcs mandam ultra bem!

  9. […] pega a mesma fórmula criada por Sam Raimi em A Morte do Demônio e a mistura com a inspiração do cinema gore italiano para contar a história do Dr. Frankenstein […]

  10. […] E em determinada noite, Nancy está assistindo televisão e o filme que está sendo exibido é A Morte do Demônio, que foi a retribuição de uma homenagem a Sam Raimi, que em seu filme havia colocado o pôster de […]

  11. […] coisa que bebe diretamente na fonte de Sam Raimi e seu A Morte do Demônio e Uma Noite Alucinante é a forma como o personagem de Lionel, que é um babaca no começo do […]

  12. […] verde para produzir uma sequência? Foi o que aconteceu com Sam Raimi. Com o estrondoso sucesso de A Morte do Demônio, Raimi resolveu fazer uma sequência/reboot/remake do seu clássico seis anos depois, e eis que […]

  13. […] e as pessoas transformadas em grotescos demônios, que por sinal foram nitidamente copiadas de A Morte do Demônio de Sam […]

  14. […] pega a mesma fórmula criada por Sam Raimi em A Morte do Demônio e a mistura com a inspiração do cinema gore italiano para contar a história do Dr. Frankenstein […]

  15. […] na cabeça e uma câmera na mão, apreço pela bagaceira e inspiração rasgada em Sam Raimi e seu A Morte do Demônio, sem recursos financeiros disponíveis (o filme teve 30 mil dólares neozelandeses de orçamento), […]

  16. […] A Noite das Bruxas e A Noite dos Arrepios) e o eterno Bruce “Ashley J. Williams” Campbell (de A Morte do Demônio e Uma Noite Alucinante) e uma baita dose de crítica contra a política, a corrupção e a […]

  17. […] praticamente todos os filmes de terror que chegavam ao país, como O Massacre da Serra Elétrica, A Morte do Demônio e Dia dos Mortos, não submetendo o filme para avaliação do órgão regulador do […]

  18. Um dos filmes que mais me deixou com cagaço na infância. Engraçado que, ainda hoje, a despeito de stop motion e maquiagem tosca, eu acho o clima criado aterrador pra cacete. Pra mim, um dos filmes de terror definitivos de todos os tempos.
    Sobre a exibição na Bandeirantes…engraçado que esse eu tenho certeza absoluta que vi na gazeta lá pelos idos de 90/91(só lembro de dois filmes de terror que passaram na gazeta; o evil dead e o black demons, que me fazia borrar de medo daqueles escravos brasileiros zumbis hehehe)

  19. […] Ahhhhhh, os filmes de demônios dos anos 80. Impossível você, se for da minha geração (e preferencialmente do sexo masculino) simplesmente não amar A Noite dos Demônios, exemplo gritante de uma década, uma cultura e um subgênero que nasceu com Sam Raimi em A Morte do Demônio. […]

  20. […] Violência e Terror (sério, que diabo de título é esse que ele ganhou no Brasil, ao invés de um simples “Intruso” que seria a tradução literal?) poderia ser apenas mais um filme slasher dos anos 80, igual a zilhões de tantos outros lançados naquela década, e cair no esquecimento total do fã do horror, se não fosse um pequeno detalhes: ele é todo realizado pela patota de A Morte do Demônio. […]

  21. Tonino disse:

    Não concordo quando vocês tacham o filme de trash. Esse filme não é trash.

  22. […] que semelhanças com os dois primeiros filmes. A mais clara de todas é o tom cômico. Enquanto A Morte do Demônio é trash com toda aquela pegada do gore e da gosma, Uma Noite Alucinante já envereda pelo caminho […]

  23. […] no elenco, uma vez que era fã de Re-Animator – A Hora dos Mortos-Vivos, que certeza, junto com A Morte do Demônio, o influenciara na sua trajetória cinematográfica iniciada no país do kiwi e seus primeiros […]

  24. […] dirigisse o longa, Scott Spiegel escrevesse o roteiro e Robert Tapert produzisse, toda a patota de A Morte do Demônio. Mas como todos estavam envolvidos em Uma Noite Alucinante, acabou não saindo do papel. Só fica […]

  25. […] Kane Hodder, o Jason Voorhees a partir de ; e Ted Raimi, irmão de Sam Raimi, fake shemp em A Morte do Demônio e a velha Henrietta possuída em Uma Noite Alucinante, entre outros.. E os sobrenomes dos […]

  26. […] contra as terríveis forças demoníacas, continuação dos acontecimentos que se iniciaram lá em A Morte do Demônio em […]

  27. […] após a usina ser destruída. Lembra, dadas as devidas proporções, o stop motion utilizado em A Morte do Demônio, de Sam Raimi, quando os possuídos começam a virar purê de […]

  28. […] Bruce Campbell) em um asilo para criminosos insanos, como resultado de tudo que aconteceu em A Morte do Demônio e Uma Noite Alucinante. Porém um dos doutores do asilo (coincidentemente o doutor de Ash), o Dr. […]

  29. […] Robert Tapert e Bruce Campbell se juntaram pela primeira vez para criar o terror cult definitivo: A Morte do Demônio. Raimi mudou o destino do cinema de terror para sempre provando que se pode fazer algo experimental […]

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