452 – O Enigma do Mal (1982)

TheEntity

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1981 / EUA / 125 min / Direção: Sidney J. Furie / Roteiro: Frank De Felitta (baseado em seu livro) / Produção: Harold Schneider, Michael Leone e Andrew Pfeffer (Produtor Executivo) / Elenco: Barbara Hershey, Ron Silver, David Labiosa, George Coe, Margaret Blye

 

Fato: O Enigma do Mal (que porcaria de título em português é esse, meu Brasil? Custava traduzir A Entidade de forma literal?) é muito melhor que Poltergeist – O Fenômeno. Falo isso porque os dois filmes foram lançados em 1982 (o longa de Carol Anne não indo para a luz em junho e este em setembro no Reino Unido e apenas em 83 nos EUA exatamente para fugir das comparações) e tratam de um tema bastante similar: manifestações de entidades espirituais.

Mas enquanto o filme de Spielberg é, digamos, um filme de Spileberg, O Enigma do Mal explora um tema muito mais pesado e se aprofunda muito mais no quão maligno um espírito zombeteiro pode ser. Independente do sempre marqueteiro alarde de “baseado em fatos reais”, o que choca na película de Sidney J. Furie e escrita por Frank De Felitta, baseada em seu best seller, é a tal entidade escolher uma mulher à esmo e passar a violenta-la e tortura-la física e psicologicamente. Coisa que aquele espírito que sai do guarda-roupa e troca ideia na estática da TV de Poltergeist nunca faria em um milhão de anos.

Essa mulher é Carla Moran, papel da futura indicada ao Oscar® de atriz coadjuvante por Retratos de Uma Mulher, Barbara Hershey. Mãe solteira, a moça tem uma vidinha miserável em todos os seus sentidos. Na sua infância, sofria abusos sexuais do pai pastor. Aos 16, fugiu de casa, engravidou e se casou com um bad boy, que lhe deu seu filho mais velho, Bill (David Labiosa). Bêbado e drogado, acabou se matando em um acidente de moto. Depois conheceu o pai de suas outras duas filhas menores, Julie (Natasha Ryan) e Kim (Melanie Gaffin), que não era um sujeito muito de compromisso e a abandonou. Carla batalha para manter a família unida sob um teto, deve aluguel, trabalha durante o dia e faz um curso de datilografia à noite (só os fortes sabem o que é isso) para tentar uma melhor qualificação profissional.

Típica família americana atazanada por fantasmas

Típica família americana atazanada por fantasmas

Com todo esse ambiente à sua volta, lógico que quando os violentos ataques sexuais da entidade começam, logo um psiquiatra afetadíssimo (indivíduo que deveria ser proibido de praticar, pois chega em certo momento em uma cena patética a bater boca ferozmente com a paciente), o Dr. Phil Sneiderman (Ron Silver), vai procurar um distúrbio psicológico, uma fuga da realidade por conta das sequelas de sua vida sexual reprimida e instável, insistindo em manifestações de fantasias eróticas, incluindo aí um desejo incestuoso por seu filho, forte e másculo.

Mas fica claro com o decorrer do filme, mesmo sendo enfaticamente refutado pelo Dr. Sneiderman, e com manifestações físicas da entidade em forma de raios elétricos e sendo avistado e sentido por pessoas próximas de Carla, que não se trata de um desvio psicológico e sim de um fantasma que deseja o corpo da indefesa e sofrida mulher. É atormentada em seu quarto, onde é tocada pela entidade (em mais uma excelente e impressionante cena do mestre Stan Winston, onde sua equipe projetou um sistema de fluxo de ar quente para simular dedos invisíveis tocando os seios da atriz), durante o banho (em uma impactante cena de estupro “invisível”), na casa de seus amigos e até em seu próprio carro. O espectro a persegue, ela é a vítima escolhida da vez e não haverá escapatória.

Até que entra em cena uma dupla de parapsicólogos que começam a estudar o fenômeno e têm uma ideia completamente estapafúrdia, que por pouco, mas por muito pouco, não compromete o resultado final do filme, por conta de uma experiência nababesca onde Carla entra em um ambiente controlado e eles pretendem aprisionar o espírito em hélio líquido lançado por uma traquitana (!!!). Fora também, que damos um desconto, que o quanto a maquiagem dos ataques sexuais é interessante, aqueles raios azuis são toscos, mas por conta de limitações tecnológicas de época.

Peitinho muuuuuurcho...

Peitinho muuuuuurcho…

A atuação de Barbara Hershey no limiar da estafa física e mental, sua batalha por uma causa perdida e até abnegação em certo momento, quando, parecido com muitas mulheres indefesas em uma metáfora de um casamento violento, decide que não lutará mais e dará o que o espírito quer, seu corpo, é digna de nota. E olha que uma caminhão de atrizes foram cogitadas para o papel antes dela: Jane Fonda, Jill Clayburgh, Bette Midler e Sally Field. Há toda uma mensagem feminista e misógina que fica nas entrelinhas também para aqueles que querem enxergar algo mais por esse lado da fita.

O livro de De Felitta, como disse lá em cima, é supostamente baseado em um caso real, acontecido em Los Angeles na Califórnia, em outubro de 1976. Foi considerado pela comunidade psíquica um dos maiores casos da história da parapsicologia, e os fenômenos sobrenaturais nunca terminaram, apenas diminuíram em frequência e intensidade. Isso é tudo que alardeia os dizeres antes dos créditos finais.

O Enigma do Mal é um daqueles filmes de terror com cara de final dos anos 70 e começo dos anos 80, que vale muito pelo seu tema controverso. Martin Scorcese o incluiu em sua lista dos 11 filmes de terror mais assustadores de todos os tempos, então só por isso, já vale a conferida.

A ameaça de Electro

A ameaça de Electro

Serviço de utilidade pública:

O DVD de O Enigma do Mal está atualmente fora de catálogo.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Adoro o site. Não só baixo os filmes, como leio os textos e vejo os horrorcasts e horroviews… mas eu preferia o layout antigo. =P

  2. Celle disse:

    Gosto muito desse filme, Barbara Hershey está ótima. Aquela ‘maravilhosa’ ideia de aprisionar o fantasma foi mesmo o único ponto fraco do filme. Ah, como o amigo acima, preferia o antigo layout do site. Adoro as resenhas.

  3. Raphael Travassos disse:

    Quando eu vi esse filme pela primeira vez, num dvd bem ralé que comprei no feirão de uma locadora finada, eu adorei. Até o ato final. Não consigo engolir como um exercício tão primoroso de horror psicológico (o que é uma surpresa levando em conta a direção do pé rapado Sidney J Furie) descamba daquele jeito. Sério, eu acho uma pena. Resta a maravilhosa, MARAVILHOSA, atuação de Barbara.

  4. Douglas disse:

    Vocês são muito engraçados e de brinde muito competentes. Continuem melhorando cada vez mais e parabéns pelo que já fizeram, por vocês e por nós amantes das tranqueiras de horror!

    • Hey, Douglas!! Ahhh muito obrigado!! Fico mega feliz com seu comentário! Nossa meta é essa mesmo: melhorar cada vez mais e sempre servir aos amantes das tranqueiras de horror!

      Grande abraço.

      Marcos

  5. joão disse:

    gostei muito do teu texto!e a Barbara é linda até “endemonhada”!!muito sucesso e vida longa ao site!!

  6. Marcelo disse:

    Eu. Amo. Esse. Site. <3

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