453 – O Esquartejador de Nova York (1982)

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Lo squartatore di New York / The New York Ripper

1981 / Itália / 93 min / Direção: Lucio Fulci / Roteiro: Dardano Sacchetti, Vincenzo Mannino, Gianfranco Clerici, Lucio Fulci (história e roteiro) / Produção: Fabrizio De Angelis / Elenco: Jack Hedley, Almanta Suska, Howard Ross, Andrea Occhipinti, Alexandra Delli Colli, Paolo Malco

 

 

Existe um xiitismo (nem sei se essa há essa palavra no dicionário, mas é o que se aplica ao que eu quero dizer) que todo filme do Fulci, do Bava, do Argento, são bons, cults, clássicos e não podem ser espinafrados. Se O Esquartejador de Nova York, porcaria de marca maior de Lucio Fulci não puder ser espinafrado, então nem vale a pena assisti-lo ou resenha-lo.

Sempre acho que o último filme de Fulci que presta é A Casa do Cemitério, que encerra sua famosa Trilogia da Morte, onde o diretor estava no auge do movimento splatter italiano que ajudara a estabelecer com seu Zumbi 2 – A Volta dos Mortos. A parceria com o produtor picareta Fabrizio De Angelis prossegue, mas aí o sujeito já tinha perdido completamente a mão para a coisa.

O Esquartejador de Nova York é uma prova cabal do início de sua decadência cinematográfica. Esse thriller erótico chega a ser uma afronta ao suspense e ao giallo. Sim, Fulci nunca foi um Bava, até um Argento, ou um De Palma ou mesmo um Hitchcock. Mas sabia trabalhar bem o suspense, principalmente em seus gialli de começo de carreira, como Uma Lagartixa no Corpo de Mulher ou Uma Sobre a Outra e outros bons filmes intermediários como O Estranho Segredo do Bosque dos Sonhos e Premonição.

No fio da navalha!

A primeira faz tchan…

Mas isso daqui é um pastiche grosseiro, com atuações do mais baixo calibre, um desenvolver de trama estrambólico, roteiro cheio de buracos (mais uma vez assinado por Dardano Sacchetti e sua trupe), cafonice musical e esquizofrenia visual sofrível. Vale por três motivos: o primeiro é o gore intenso, principalmente da versão uncut. A maquiagem é visceral e impactante. O segundo é a nudez. Peitos, bundas e xoxotas peludas desfilam durante boa parte do longa. O terceiro é a ambientação em uma Nova York podre e decadente, retrato da degradação da cidade durante os anos 70 e 80, que já havia sido explorada em longas como o icônico Taxi Driver de Martin Scorcese e O Assassino da Furadeira de Abel Ferrara, por exemplo.

Em meio a clubes de sexo ao vivo, prostituas, gigolôs, modelos decadentes, drogas, sexo, fetiches do bravo e voyeurismo, um assassino psicopata começa a estripar mulheres com sua navalha, em ataques de fúria violentíssimos. OK, premissa interessante que Fulci joga na privada e dá a descarga ao COLOCAR A PORRA DA IMITAÇÃO DE UM PATO NO SUJEITO QUANDO ELE FALA E ATACA SUAS VÍTIMAS. CARALHO, FULCI! Ele queria despistar a polícia e colocar a culpa em quem? No Pato Donald? No Howard, o Pato? Naquele maluco do vídeo do Youtube que matou o amigo porque o chamava de rádio fora de estação?

E sabe o que mais me deixa puto? É que o tenente Fred Williams (Jack Hedley) se une a um proeminente psicólogo, o Dr. Paul Davis (Paolo Malco) que insiste que o afetado assassino é um gênio, dotado de um QI altíssimo, e por isso, ele disfarça usando a voz de pato. Ah, faça-me o favor, né! Como se isso não fosse o bastante, um enredo sem pé nem cabeça se segue, metendo personagens dúbios, pervertidos, sexualmente insinuantes, na tentativa de fundir a cabeça do espectador, e que logo são descartados apenas para termos mais sangue, mais peitos, mais bundas e mais xoxotas peludas.

Sangue nos olhos!

Sangue nos olhos!

Todos os defeitos orçamentários de um filme claramente sem inspiração visual nenhuma e feito em toque de caixa apenas para ser chocante e apelativo poderiam ser suprimidos por uma história interessante, mas não. Os realizadores do filme estavam se lixando para isso, quando na metade para frente, uma vítima sobrevivente, Fay Majors (Almanta Suska) é jogada no saco de gato para incriminar um michê com dois dedos faltantes na mão direita, chamado Mickey Scellenda (Howard Ross), que começa a ser caçado pela polícia (mas se mostrará inocente) e pincela rapidamente seu relacionamento com seu namorado, Peter Bunch (Andrea Occhipinti), brilhante físico que tem uma filha, Susy (Chiara Ferrari), hospitalizada por ter sido mutilada em um acidente provocado pelo próprio pai. A salada mista está pronta para o final estapafúrdio.

ALERTA DE SPOILER. Pule para o próximo parágrafo ou leia por sua conta e risco. Ao melhor estilo filme de suspense italiano, eis que em sua conclusão, descobrimos que o esquartejador psicopata é o próprio (e inteligentíssimo) Peter, que desenvolveu uma culpa tão grande pelo que aconteceu com sua filha pequena, que começou a eviscerar toda e qualquer mulher bonita e sensual, porque sua prole nunca poderá ficar daquele jeito quando se tornar mais velha. Assim que Fay descobre, quase é morta pelo maníaco, salva na hora H pelo tenente Williams, que acerta com sua pontaria incrível, um tiro na bochecha do assassino, esfacelando o rosto do bonecão. Quantas pessoas você já viu morrendo em um filme com um tiro específico na bochecha?

Lógico que como dois mais dois são quatro, O Esquartejador de Nova York foi banido do Reino Unido. Mais um daqueles que entraram na fatídica lista dos nasty videos, com louvor, afinal com a tonelada de gore e sexo, não seria diferente. Após ser rejeitado em 1984, o censor chefe James Ferman, sabendo que aquele tipo de material iria ferir a moral e os bons costumes dos britânicos tomadores de chá, ordenou que todas as cópias fossem escoltadas até o aeroporto e deportadas da ilha! Ponto para Fulci!!! Só em 2002 ele foi certificado pelo BBFC, e ainda com 22 segundos de corte. Mas ainda assim, os puritanos de plantão das distribuidoras se recusaram a distribui-lo. Acabou que somente em 2007 (que século nós vivemos mesmo, gente?) foi lançado em DVD, com 19 segundos de corte, lá na terra do bebê George.

Estribuchada

Estribuchada

Serviço de utilidade pública:

O DVD de O Esquartejador de Nova York não foi lançado no Brasil.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

7 Comentários

  1. Marcus Vinícius disse:

    Marcos, você tem como por resenhas no meio da lista, tipo uma nos anos 60? Porque entre os filmes do Vincent Price, eu dei falta de uma comédia chamada Farsa Trágica, de 1964, que tem o Price, o Boris Karloff, Peter Lorre e Basil Rathbone. Ah, vai que o Horrorcast tá de volta (YEAH).

    • Oi Marcus. Então, infelizmente esse já passou e não vou conseguir resenhar agora. Mas na Fase 3 do blog, quando acabar a lista, eu farei resenhas aleatórias sem ordem cronológica e dá eu escrevo sobre esse filme! Valeu pela dica.

      Sim, Horrorcast de volta com TUDO!!!!

      Abs

      Marcos

  2. Diego Lobato disse:

    Adoro esse filme…assassino com a voz do pato donald é mô mara!!!!

  3. Este é um dos meus filmes favoritos, na minha opinião o pior filme de Fulci (e olha que sou super fã dele) é o Demonia (aquele das freiras!)!
    Heheh,sempre que vejo fico com dó da menina da bicicleta e da filha do Peter!

  4. CONCORDO PLENAMENTE COM SUA ÓTIMA E HONESTA CRÍTICA, PORQUE ATÉ ANTES DE LÊ-LA, SÓ HAVIA ME DEPARADO COM MUITA RASGAÇÃO DE SEDA PRA CIMA DESSE MEDÍOCRE FILME. ENTÃO EU PENSAVA: SERÁ QUE SÓ EU NÃO ENXERGO QUALIDADE NENHUMA NESSA OBRA INFELIZ DO FULCI? O FILME TRANSBORDA CANASTRICE E A MAIORIA DAS PESSOAS QUE INTERPRETAM ” ATORES ” PROVOCAM VERGONHA ALHEIA DE TÃO CARICATOS. E O QUE FOI A CENA DA NINFOMANÍACA COM 2 LATINOS NO BAR ? NÃO FICOU DEVENDO EM NADA AS PORNOCHANCHADAS BRASILEIRAS. NEM O GORE, TÃO COMENTADO, ME SURPREENDEU. INÍCIO DOS ANOS 80, ÁPICE DA EPIDEMIA E DESCOBERTA DA AIDS, ROTULADA COMO PESTE GAY, APOSTO QUE MEIO MUNDO DESCONFIOU DO ÚNICO PERSONAGEM GAY DO FILME, É ÓBVIO!!! OS HOMOSSEXUAIS VIVIAM SOB O ESTIGMA DA PROMISCUIDADE E PERVERSIDADE E O MUNDO OS TRATAVA COMO DOENTES. CLARO QUE FULCI TINHA QUE INSERIR UM TIPO QUE CHAMASSE MUITO A ATENÇÃO PRA SI , NOS DESVIANDO DE OUTRAS HIPÓTESES. O FINAL ME PEGOU DE SURPRESA PRA SER HONESTO MAS PUTA MERDA, AQUELA VOZ DE PATO É UMA AFRONTA AO BOM GOSTO MAS COMO NADA DE BOM TEM O FILME, JÁ ERA DE SE ESPERAR ALGO BIZARRO PRA FECHAR COM CHAVE DE OURO ESSE FIASCO DE ROTEIRO E TODA PATIFARIA PRESENTE NESSA OBRA EXECRÁVEL DE LUCIO FULCI. UMA PENA, NÉ? ABRAÇO E ATÉ MAIS.

  5. […] e começo de década, mesmo continuando na ativa com filmes como O Gato Negro, Um Gato no Cérebro, O Esquartejador de Nova York e Manhattan Baby, todos muito inferiores. Então por isso mesmo, assista A Casa do Cemitério com […]

  6. J. Cruz disse:

    A voz de pato do assassino é um show a parte, dá um tom ainda mis esquisito ao filme. Como diversão vale a pena.

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