454 – Halloween III: A Noite das Bruxas (1982)

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Halloween III: Season of the Witch

1982 / EUA / 98 min / Direção: Tommy Lee Wallace / Roteiro: Tommy Lee Wallace, John Carpenter e Nigel Kneale (não creditados) / Produção: John Carpenter e Debra Hill, Barry Bernardi (Produtor Associado), Joseph Wolf e Irwin Yablans (Produtor Executivo), Moustapha Akkad e Dino De Laurentiis (Produtor Executivo – não creditados) / Elenco: Tom Atkins, Stacey Nelkin, Dan O’Herlihy, Michael Currie, Ralph Strait, Jadeen Brabor, Brad Schacter

 

Puta filme estranho que é Halloween III: A Noite das Bruxas. É meio que uma bobagem sem pé nem cabeça, que tem uma história das mais malucas do cinema de horror, não tem Michael Myers, e tem um poderosíssimo valor nostálgico para minha geração de trintões que assistiu ao filme diversas vezes nas reprises do SBT, e que nunca entendiam porra nenhuma quando crianças.

E aquela musiquinha? Talvez tão icônico quanto o toque minimalista criado por Carpenter como a música tema de Halloween – A Noite do Terror, seja aquele sintetizador eletrônico em loop chato pra burro com aquela voz de criancinhas esganiçadas cantando “Happy happy Halloween / Halloween, Halloween / Happy happy Halloween / Silver Shamrock”. Lembre-se dela aqui.

O fato de Halloween III: A Noite das Bruxas ser da mesma equipe responsável por dar vida à Michael Myers, e não ter nenhum dos personagens consagrados nos dois filmes anteriores da série, criou uma tremenda rejeição dos fãs, que sentiram-se enganados pelo longa fazer parte da “franquia”, mesmo com uma história completamente diferente, e fez o mesmo fracassar na bilheteria e ser sumariamente renegado.

Bem, eu mesmo só assisti três vezes na minha vida: a primeira quando era muito novo e passou no Cinema em Casa do SBT. Não entendi lhufas, mas adorava a musiquinha e as máscaras de Halloween. A segunda há um tempão, ainda bem novo, quando passou provavelmente em mais uma reprise do SBT. Em meu subconsciente lembrava que o filme era uma porcaria, mas não conseguia identificar o porquê. Fui vê-lo novamente agora, só depois de velho, para resenhar aqui para o blog. Confirmei minha conclusão que o filme é uma porcaria, mas não pelos mesmos motivos que todos. Na verdade, até seu final, eu estava impressionado e pensava: poxa, por que todo mundo, eu inclusive, metia o pau em Halloween III, se é um filme bom, climático, que foge do clichê?

Vou colocar aqui no Superstar para te torturar!

Vou colocar aqui no Superstar para te torturar!

Pois bem, minha resposta veio exatamente na despirocada que ele dá no terceiro ato, quando vira uma babaquice (alguém me explique como um comando feito pela TV por meio de um chip implantando em uma máscara de látex consegue fazer o rosto de uma criança se transformar em cobras peçonhentas e grilos?) e apesar do contexto sinistro do final, das crianças de todos os EUA usarem as máscaras e grudarem o rosto na tela da televisão durante a poderosíssima mensagem subliminar, aquela história de robôs, o herói jogando os buttons que vão causar curto-circuito em todos e ele ligando para as emissoras de TV para tiraram o comercial do ar, enterram todo o clima de suspense que o vinha sendo construído até então, e merece um daqueles: bah!

Bom, de forma sapiente, mas que não se manteve no futuro próximo, John Carpenter e Debra Hill sabiam que não havia a menor credibilidade trazer Michael Myers de volta, já que ele havia morrido em Halloween 2 – O Pesadelo Continua (ah, vá) e não queriam tornar a franquia mais um Sexta-Feira 13 (ah, vá) colocando o assassino mascarado matando gente à rodo com toda sua criatividade maléfica. Surgiu a ideia de manter a franquia viva, com novas e diferentes histórias que se passassem durante o Dia das Bruxas. Os produtores dos dois longas anteriores, Irwin Yablans e Moustapha Akkad compraram a ideia e o filme começou a tomar forma, chamando Joe Dante para dirigir e Nigel Kneale (lembra deles, da série Quatermass da BBC e dos filmes da Hammer?) para escrever o roteiro.

Primeiro, Dante pulou fora e o cargo ficou para Tommy Lee Wallance, que havia editado o primeiro Halloween e A Bruma Assassina para Carpenter, e deveria ter dirigido a continuação, mas estava encarregado do roteiro de Amityville 2 – A Possessão. Segundo, Kneale pulou fora por não gostar do tratamento do roteiro, que envolveria mais gore e mortes escabrosas. Apesar de 60% de a história ter sido escrita por ele, seu nome foi retirado dos créditos.

Falando em história, ela é BEM bacana, de verdade. Começa com um sujeito fugindo de uns figurões sinistros que querem assassiná-lo, subentendendo-se que ele descobriu algum segredo terrível. Ele consegue escapar, mas é levado a um pronto-socorro, transtornado, segurando uma máscara de látex e gritando que “eles vão matar todos nós”. O médico de plantão, Dr. Dan Challis (Tom Atkins) fica intrigado com o estado mental alterado do paciente, e mais intrigado ainda, quando ele é assassinado por mais um desses figurões que adentra no hospital (aparentemente sem nenhuma segurança, como de praxe nos hospitais da série, vide Halloween 2).

Happy happy Halloween, Halloween, Halloween...

Happy happy Halloween, Halloween, Halloween…

O Dr. Challis e a filha do sujeito, que se descobre ser um comerciante de brinquedos e produtos de Halloween, e por consequência das máscaras da Silver Shamrock, a mesma que ele segurava e bombardeava a televisão com os comerciais da musiquinha cafona, Ellie Grimbridge (Stacey Nelkin), vão até Santa Mira, uma cidadezinha na Califórnia, investigar o que há por trás da nefasta empresa de produtos festivos, fantasias, máscaras e brinquedos.

Aparentemente há uma conspiração silenciosa por lá, todo mundo age de forma estranha, há toque de recolher, as linhas de telefone ficam mudas, e todos são obedientes ao presidente da empresa, Conal Cochran (Dan O’Herlihy). Daí no fatídico último ato, Challis e Ellie descobrem a vilania por trás do megalomaníaco plano de Cochran, que é simplesmente matar todas as criancinhas dos EUA, usando uma elaborada trama tecnológica que ativaria um dispositivo que as mataria (transformando sua cabeça em cobras e lagartos, sei…), acionado pela propaganda chata. E aparentemente todas as crianças da América tem uma máscara Silver Shamrock, todas elas vão sintonizar a televisão às 21h do dia 31 de outubro e voilá. Cabe aos nossos heróis tentar impedir esse plano maléfico.

Bom, que fique bem claro que meu problema com Halloween III: A Noite das Bruxas não é o considerar uma enganação, um engodo de marketing, que me senti lesado por usar o nome da franquia Halloween e não ter Michael Myers (apenas uma breve aparição na televisão, durante a propaganda da exibição do filme original) como aconteceu na época e tornou o filme um fracasso retumbante de bilheteria, motivo de ódio dos fãs xiitas, e resultou na “expulsão” de Carpenter e Hill da cinesérie, ressuscitando Myers anos depois e transformando-o em um vilão indestrutível.

Eu acho louvável a ideia de ter deixado Myers enterrado e tentado dar um novo caminho para a franquia, tido a pachorra de projetar um infanticídio com um enredo completamente fora do clichê e que saía da zona de conforto dos slasher oitentistas que começavam a saturar exatamente por repetir à exaustão a própria fórmula que Carpenter criou, e inserir de mensagens subliminares sobre seitas pagãs e o corporativismo, capitalismo e ambição das grandes empresas multinacionais e a opressão.

Meu problema é que o filme começa bem, intrigante, e depois vira uma bobagem. Bobagem com os robôs. Bobagem com o plano de vilão de filmes do James Bond. Bobagem da forma como eles são destruídos. Bobagem de como a cabeça da criança vira cobra e inseto com um raio que sai da televisão. Só isso. Mas é aquilo, Halloween III: A Noite das Bruxas poderia ser um filmaço, mas meio que se perde e transforma-se em caricato. É tosco. É trash. Eu levo por esse lado, e não, apenas em execrá-lo gratuitamente por se distanciar da saga de Michael Myers.

Silver Shamrock, certificada pela ABRINQ

Silver Shamrock, uma empresa amiga da criança!

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Halloween III: A Noite das Bruxas está atualmente fora de catálogo.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Paulão Geovanão disse:

    Marcão, na sua casa só pegava o sinal do SBT?

    • HAHAHAHAHAHAHAHA… E ainda tinha que subir na antena e colocar bombril para pegar!

      Cresci educado por Silvio Santos, cara!

      • Paulão Geovanão disse:

        Todos os filmes que você diz que assistiu foram no SBT. Eu lembro que “Alligator”, “Piranha 2”, “Christine”, “Enigma do outro mundo”, eram exibidos no SBT. Mas “Creepshow” eu lembro do Cine Trash da Band.

  2. Niia Silveira disse:

    Eu acho um filme divertidíssimo, um trashão que seria bem mais popular se não fizesse parte da franquia Halloweeen.

  3. mnasom disse:

    Eu assisti esse filme na globo corujao,tempos depois comprei o dvd duplo com halloween 2 e 3 e nao entendi nada tb na epoca.Do halloween original so o nome mesmo.

  4. […] Aliás, o próprio subtítulo do filme já resume perfeitamente qual a verdadeira intenção da quarta parte da franquia iniciada brilhantemente pro John Carpenter no seminal Halloween – A Noite do Terror, de 1978. Sabemos que depois de uma ótima sequência, Halloween 2 – O Pesadelo Continua, que se passa na mesma fatídica noite da celebração norte-americana, Carpenter resolveu seguir um caminho completamente diferente em seu filme seguinte, Halloween III: A Noite das Bruxas. […]

  5. […] (responsável por uma das mais controversas continuações da história do cinema de terror, Halloween III: A Noite das Bruxas). Que não decepcionou e até expandiu as ideias do primeiro filme e trazendo novos e interessantes […]

  6. […] direção de William Lustig (do excelente O Maníaco), tem no elenco sujeitos como Tom Atkins (de Halloween III: A Noite das Bruxas e A Noite dos Arrepios) e o eterno Bruce “Ashley J. Williams” Campbell (de A Morte do Demônio […]

  7. […] e ponto, e enterra os pecados cometidos nos últimos três filmes da série, sem contar o polêmico Halloween III: A Noite das Bruxas. Pena que a falta de escrúpulos não o fez parar por aí e depois um desastroso Halloween – […]

  8. Demencia13 disse:

    Analisando este filme cheguei a uma conclusão óbvia de porque tudo isso. O Sr. Cochran sofria de uma funesta doença mental conhecida como ‘Síndrome de Herodes’ (Latim Herodius synmdromes), sim, assim como o Rei Herodes o tiozinho tinha ódio das crianças e queria matar todas elas. Acho que isso nasceu depois que alguém lhe bateu na cabeça com um livro do Peter Pan.
    Tirando os furos do roteiro (Claro, basta ligar para uma emissora de TV e dizer qualquer coisa que eles vão imediatamente colocar no ar a mensagem ‘Estamos fora do ar por problemas técnicos’) o filme até que é legal, quando eu era criança até me assustava, principalmente com aquela dona que tem a boca estropiada por um raio quando mexe em um button.
    Quanto ao fato de não ter nada a ver com os dois primeiros filmes, interessante que em um episódio da Blossom (alguém lembra disso?) o pai comenta sobre este filme e aquele irmão bocó dela olha para a câmera e pergunta assustado ‘Existe um Halloween III?’

  9. andre dias disse:

    isso me lembro que aluguei esse filme pela primeira vez em VHS que porcaria em, bem que o autor do blog disse, tinha tudo pra ser um grande filme, mas depois da metade do filme pra frente fica sem contexto algum a historia do filme, vlw gente bye

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