456 – A Marca da Pantera (1982)

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1982 / EUA / 118 min / Direção: Paul Schrader / Roteiro: Alan Ormsby, DeWitt Bodeen (história) / Produção: Charles Fries, Nanette Siegert (Produtor Associado), Jerry Bruckheimer (Produtor Executivo), Max Rosenberg (Produtor Executivo – não creditado) / Elenco: Natassja Kinski, Malcom McDowell, John Heard, Annette O’Toole, Ruby Dee

 

Como recordar é viver, lá nos idos de 1942, o lendário produtor Val Lewton foi escalado pelos chefões da outrora proeminente RKO Pictures para cuidar da nova divisão de filmes de terror da produtora, que andava mal das pernas e precisava de retorno financeiro rápido com filmes feitos em baixo custo. Lewton então foi o criador do cinema de horror de sugestão.

O diretor Jacques Tourneur entregou como primeira produção da RKO, o clássico P&B Sangue de Pantera, um dos marcos do gênero e uma aula de suspense, criando o ensaio do subconsciente dos filmes de terror e dando preferência ao imaginário do espectador. Quarenta anos depois, eis que Paul Schrader atualiza a história de DeWitt Bodeen para os anos 80e e escancara toda a sexualidade e violência implícita (e a mostra MUITO o animal, claro) em A Marca da Pantera.

Não que isso seja um demérito. Seria impossível manter um filme nos mesmos padrões de original para a plateia da malfadada década de 80. Ainda mais que claramente A Marca da Pantera teve a intenção de ser um vislumbre estético daquela década, um apanhado comportamental cultural do período, com direito a música tema de David Bowie e trilha sonora assinada por Giorgio Moroder aka “My name is Giovanni Giorgio, but everybody calls me… Giorgio”. Schrader já havia dirigido Gigolô Americano e escrito Taxi Driver. A produção é de Jerry Bruckheimer (que mais tarde despontaria em Top Gun – Ases Indomáveis, Flashdance e Um Tira da Pesada) e o roteiro é de Alan Ormsby, nome conhecido do gênero, por Children Shouldn’t Play With Dead Things, Deathdream e Confissões de um Necrófilo. Era, mesmo sendo um filme de terror, um filmão de estúdio.

E o ponto principal que Schrader levanta em A Marca da Pantera é sem dúvida a sexualidade. Ele deixa de lado a repressão sexual da personagem de Simone Simon no original, e transborda tesão pelo ladrão na atuação de Natassja Kinski, que já havia aparecido peladinha nas telas quando ainda era menor de idade em Uma Filha Para o Diabo da Hammer, e causado um rebuliço danado, e de Michael McDowell, que também já havia atingido certa cota de putaria no cinema com Calígula de Tinto Brass. Ponto para o diretor é deixar a lascívia lá em cima, mas sem cair na vulgarização.

Bichano

Bichano

A base da história é mais ou menos a mesma: Irena Gallier (Kinski) reencontra seu irmão, Paul (McDowell) – personagem inexistente no original – e acaba por descobrir que assim como ele, é descendente de uma antiga tribo africana de metamorfos, que se transforma em pantera com o aflorar o desejo sexual. Em uma mensagem completamente misógina, Irena é reprimida, virginal, retrai seus desejos e sua libido, enquanto Paul se dá ao luxo de tornar-se o animal, não ser escravo de seus sentimentos sexuais, matar e se deliciar com isso. O homem pode, a mulher não, resumindo.

No meio de um embate entre ambos, pois Paul insiste na relação incestuosa entre irmãos, Irena conhece Oliver Yates (John Heard), dono de um zoológico onde trabalha com a caidinha por ele, Alice Perrin (Annette O’Toole) e os dois acabam se apaixonando. Um quadrilátero amoroso de ciúmes e desejo carnal se constrói ali, com consequências desastrosas para quase todos.

Há dois ângulos para se analisar o desenrolar de A Marca da Pantera. O primeiro é aquele que Schrader fez questão de explicitar: a quantidade de violência em cenas bastante sangrentas, com o ataque das panteras mutilando e destroçando pessoas, excelente trabalho de maquiagem de Thomar R. Burman (responsável pelo Sloth, de Os Goonies, e alguns conhecidos filmes de terror como A Ilha do Dr. Moreau, Dia dos Namorados Macabro, A Mão e Halloween III: A Noite das Bruxas) e ponha na conta do cara também as impressionantes cenas de Natassja Kinski se transformando em felino; e também a explosão sexual com as cenas de nudez da belíssima atriz com aquele seu jeito peculiar sexy.

Alex DePantera

Alex DePantera

O outro ângulo é exatamente aquele que Schrader fez questão de deixar de lado: o suspense. Tudo se torna gráfico, exposto, e até lisérgico em determinados momentos de sonhos e descobertas. Agora prender o espectador e trabalhar um pouco mais a sugestão e sequências de tensão, não há. É tudo escancarado ao limite. Um bom exemplo, talvez até perfeito, do que estou falando é se você pegar Sangue de Pantera e assistir a cena da perseguição de Alice, a rival de Irena pelo amor de Oliver e a antológica cena da piscina, e depois assistir a mesma reconstrução em A Marca da Pantera. Enquanto no original é um primor, uma aula de direção, você fica realmente com os nervos em frangalhos com o perfeito jogo de luz e sombra, os assustadores rugidos da pantera e a escalada de tensão, a refilmagem serve apenas para colocar os peitos de Annette O’Toole para fora nadando só de calcinha na piscina. Clima zero!

A Marca da Pantera poderia dosar bem as duas coisas, mas apesar dessa crítica, ainda assim é um filme interessante e honesto. Desde o começo ele se propôs a levantar tabus e explorar o sexo como forma de presídio ou de libertação. É nossa racionalidade sendo subjugada pelos instintos animais de nosso ID que nos transforma em monstros. A violência tem de ser protagonista quando há esse embate de frustrações e a excelente interpretação dos atores principais (mais uma vez McDowell dá um show com seus olhos esbugalhados transbordando insanidade e Kisnki entrega o que lhe é proposto, variando de “garota assustada do interior” até se transformar em fera sexual sedenta) estão lá para assegurar isso.

E se você tem lá seus trinta anos, com certeza assistiu A Marca da Pantera em alguma madrugada da TV aberta, ou em algum Supercine, ou Corujão da vida. E se for do sexo masculino, com certeza ficou excitado com a Natassja Kinski pelada quando viu na sua mocidade. Há mais no filme, óbvio. Mas naquela época, bastava para impressionar.

GATA!

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. raphael de araujo disse:

    Mais uma crítica excelente! Já estou baixando esse filme.

  2. […] sexualizada, estrelado por Nastassja Kinski e Malcom McDowell, que aqui no Brasil recebeu o nome de A Marca da Pantera, que assisti muito antes de ver o original, em algum Supercine ou Corujão da […]

  3. […] Paul Schrader, aka o roteirista de Taxi Driver, Operação Yakuza e Touro Indomável, e diretor de A Marca da Pantera e Gigolô Americano, inicialmente seria o diretor de Exorcista – O Início, escrito por William […]

  4. […] Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer, e presente na trilha sonora de tantos outros, como de A Marca da Pantera, de Paul […]

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