458 – Noite de Pânico (1982)

alone-in-the-dark-movie-poster-1982-1020193372

Alone in the Dark

1982 / EUA / 92 min / Direção: Jack Sholder / Roteiro: Jack Sholder, Robert Shaye, Michael Harrpster / Produção: Benni Korzen, Sara Risher, Robert Shaye / Elenco: Jack Palance, Donald Pleasence, Martin Landau, Dwight Schultz, Erland van Lidth

 

Primeiro, não confunda o título original de Noite de Pânico, Alone in the Dark, com a bomba do alemão canastra-mor Uwe Boll lançada em 2004, inspirado no jogo de videogame. Não tem absolutamente nada a ver. Esse filme oitentista de Jack Sholder na verdade é um daqueles pequenos clássicos do gênero lançado na década que nunca acabou.

Noite de Pânico é um interessantíssimo thriller, que vá lá, tem seus furos e seus exageros (até hoje não me desce a cena da luz voltando na hora H exatamente em um canal sintonizando a entrevista do médico psiquiatra que os psicopatas achavam estar morto – volto nessa história mais para frente), mas vale pela presença de três monstros no elenco, cada um dando aos seus personagens um comportamento peculiarmente delicioso: Jack Palance (Acredite, se quiser!), Donald Pleasence (o velho conhecido Dr. Sam Loomis de Halloween) e Martin Landau (aquele que ganharia o Oscar® anos depois interpretando Bela Lugosi em Ed Wood, de Tim Burton).

A trama é das mais simples, e por mais que possa parecer clichê e batida, é extremamente enxuta e funciona perfeitamente em seu propósito (e que hoje vemos um mote parecido em filmes recentes e famosos, como Uma Noite de Crime e Você é o Próximo). O psiquiatra Dr. Daniel Potter (Dwight Schultz) acaba-se de mudar para uma cidadezinha para exercer em um sanatório local, sob a supervisão do Dr. Leo Bain (Donald Pleasence). Acontece que ali estão confinados alguns terríveis psicopatas no terceiro andar, e o Dr. Bain é famoso por seus métodos pouco ortodoxos e amalucados, papel que caiu como uma luva para Pleasence, fazendo uma espécie de paródia de R.D. Laing, psiquiatra teórico que cita em seus trabalhos que “psicopatas são na verdade pessoas tendo dificuldades em se adaptar num mundo que já é psicótico”.

Maus elementos

Sujeitos da alta periculosidade

Acontece que Potter está ali substituindo o estimado Dr. Harry Merton, e quatro dos malucos ali internados, o Coronel Frank Hawkees (Palance), ex-prisioneiro de guerra e líder do grupo, Byron Sutcliff (Landau), conhecido como “Pregador”, que adora ministrar a palavra do senhor e é piromaníaco, Ronald Ester (Erland van Lidth), ou “Fatty”, um gordão com uma força descomunal e John Skaggs, o “Sangrador”, que nunca mostra seu rosto e toda vez que fica excitado quando está prestes a matar, sangra pelo nariz, colocam na cachola que ele assassinou o antigo médico para tomar seu lugar, e então uma antipatia já nasce logo desde o primeiro momento que eles se encontram.

Em uma noite qualquer, um blecaute atinge a cidade, que fica completamente sem luz, dando origem a um verdadeiro pandemônio nas ruas com lojas sendo saqueadas, quebra-quebra e incêndios criminosos (mais ou menos como rola nas manifestações aqui no Brasil), os quatro lunáticos escapam do manicômio e com o Dr. Potter como alvo, cercam sua casa, instaurando o terror, fazendo dele e sua família, esposa Nell (Deborah Hedwall), filha Lyla (Elizabeth Ward), irmã Toni (Lee Taylor-Allan) e um amigo que conheceu na prisão quando foram detidas em uma passeata, Tom Smith (Phillip Clark), reféns.

As atuações de Palance, que até aparece pouco no filme, mas apenas suas expressões faciais mostram o quanto o sujeito é perigoso, de Landau, um verdadeiro psico com seus olhos arregalados e risadas de escárnio, além de suas pregações insanas, e de um deslumbrado Pleasence com seu jeitão zen e métodos alternativos de tratamento dos loucos, são os pontos altos do filme. Mas vale também pelo “Sangrador”, que em determinado momento do filme usa uma máscara de hóquei para matar uma vítima durante a confusão criada pela falta de luz (lembrando que Jason só usaria uma máscara na terceira parte de Sexta-Feira 13, lançado no mesmo ano) e por “Fatty”, principalmente a cena em que ele estrangula Bunky (a ninfetinha Carol Levy, responsável pela breve cena de nudez do filme) a babá de Lyla, erguendo-a pelo pescoço (cena usada sem nenhum efeito especial, pois o ator Erland van Lidth praticava levantamento de peso).

De médico e louco...

De médico e louco…

Outro detalhe interessante é que indo na contramão do apavoro slasher que invadia o cinema norte-americano, Noite de Pânico tem momentos de violência sim, mas não é aquele banho de sangue que os filmes adolescentes acostumaram o espectador fã do horror. O foco maior é na construção do tensão crescente em si. Até mesmo Palance foi contra uma cena em que ele deveria matar um motorista ao escapar do manicômio. Ele se recusou dizendo que não era necessário vê-lo matando alguém para o público saber que ele era realmente perigoso. E não era necessário mesmo. Outro momento interessante é a apresentação da banda punk The Sick F*ucks em uma pocilga na cidadezinha, e depois o, digamos, jeito que Palance resolve o problema do leão de chácara que queria cobrar sua entrada no local na cena final do filme.

Noite de Pânico também marca a estreia na direção de Jack Sholder, que mais tarde assinaria A Hora do Pesadelo 2: A Vingança de Freddy, O Escondido e O Mestre dos Desejos 2. Porém mesmo sendo seu primeiro longa, o diretor consegue se sair muito bem, principalmente nas cenas de suspense quando os maníacos cercam a casa do pobre psiquiatra e família. Além disso, esta foi a primeira produção da New Line Cinema, que nem preciso dizer o quanto ficaria famosa, pelos seus lançamentos do gênero, como a cinesérie de Freddy Kruger, e teve seu ponto alto com a trilogia O Senhor dos Anéis, dirigida por Peter Jackson. O mestre Tom Savini também tem uma participação especial como maquiador de uma aparição fantasmagórica durante o cerco, que surge em um devaneio de loucura de Toni Potter, que tivera problemas psicológicos com o escuro anteriormente.

Em suma, Noite de Pânico, tirando a conclusão do terceiro ato (a tal cena da volta da luz e a televisão) é um bom filme. Um daqueles clássicos do período. Aqui no Brasil, chegou a ser lançado em DVD pelo selo Dark Side da Works Editora e encontrado em bancas e lojas de departamento, mas ignorando o título do lançamento em VHS e com o nome traduzido ao pé da letra como Sozinho no Escuro.

Terrores no escuro

Terrores no escuro

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Noite de Pânico está atualmente fora de catálogo.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] A Hora do Pesadelo de Wes Craven e cuspi-lo fora. E apesar da direção de Jack Sholder (do bom Noite de Pânico) ser fraquinha e da atuação de todos os personagens, principalmente o protagonista Jesse (Mark […]

  2. […] um clássico do sci-fi B dos anos 80. O filme cult do diretor Jack Sholder (que já havia dirigido Noite de Pânico e A Hora do Pesadelo Parte 2: A Vingança de Freddy) é na medida certa para aqueles que curtem […]

  3. […] o projeto deveria ser dirigido por Jack Sholder (diretor de Noite de Pânico, O Escondido e A Hora do Pesadelo Parte 2: A Vingança de Freddy), com Lara Flynn Boyle, recém […]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: