481 – Colheita Maldita (1984)

ChildrenoftheCorn

Children of the Corn

1984 / EUA / 92 min / Direção: Fritz Kiersch / Roteiro: George Goldsmith (baseado no conto de Stephen King) / Produção: Donald P. Borchers e Terrence Kirby, Mark Lipson (Produtor Associado), Earl A. Glick e Charles Weber (Produtores Executivos) / Elenco: Peter Horton, Linda Hamilton, R.G. Armstrong, John Franklin, Courtney Gains

 

Adaptações da obra do Mestre do Terror Stephen King aconteciam a rodo durante o começo dos anos 80. Ter o nome do escritor nos créditos de uma produção de terror, por mais B que fosse, renderia um caminhão de grana e gente lotando as salas de cinema. Foi assim com Colheita Maldita, um dos clássicos do gênero, baseados no conto “As Crianças do Milharal” de King, produzido com 800 mil dólares pela New World Pictures (fundada por Roger Corman), que faturou só nos EUA mais de 14 milhões de bilheteria.

Colheita Maldita é o típico filme que envelheceu mal. Por mais que seja louvável o tratamento da história que George Goldsmith concedeu ao roteiro, transformando um conto de 30 páginas em um longa metragem de uma hora e meia (apesar das gritantes mudanças, as quais voltarei em breve), a fita já não tem o mesmo impacto de seu lançamento e de quando assistíamos nas noites (ou tardes) do SBT anos atrás. Mas isso não desmerece o longa.

Enquanto nos anos 80 e 90 quando vi na infância havia todo o sentimento macabro de medo daquelas criancinhas sinistras com suas foices, vendo novamente depois de tantos e tantos anos, claramente é o discurso religioso fundamentalista que salta aos olhos. Tal qual a cegueira religiosa de crianças seguindo um falso profeta em nome de uma entidade obscura, o famoso “Aquele que caminha entre as fileiras”, é nitidamente claro o paralelo com o fervor religioso de doutrinas seguindo piamente o que um charlatão diz em um culto ou programa de televisão da madrugada, que levam pessoas a seguirem cegamente princípios distorcidos de poder e persuasão que o guiam à intolerância, racismo, homofobia, misoginia, violência e porque não, até morte.

A testemunha...

A testemunha…

Essas crianças são guiadas pelo líder religioso mirim Isaac (papel icônico de John Franklin) e seu braço direito, o temível ruivo Malachai (Courtney Gains, também excelente), nomes que ficaram eternamente guardados nas mentes dos fãs de terror, que foram criados somente para o filme, pois no conto chamam-se William Renfrew e Craig Boardman, respectivamente, mas convenhamos que os nomes utilizados no longa são bem mais bacanas.

Moradores da pequena cidade de Gaitilin, em Nebraska, cuja subsistência está na extensa plantação de milho que rodeia o município, os garotinhos, liderados por Isaac, que por sua vez é um receptáculo da mensagem d’Aquele que caminha entre as fileiras, assassinaram brutalmente todos os adultos e vivem naquela comunidade excêntrica apenas de crianças, enquanto todos aqueles que completam 19 anos são sacrificados para a entidade maligna.

O casal Burt (Peter Horton) e Vicky (Linda “Sarah Connor” Hamilton) estão na estrada e acabam sendo obrigados a parar em Gaitlin quando acidentalmente atropelam um garoto que aparece do nada em sua frente. Na verdade o menino havia tido sua jugular cortada por Malachai ao tentar fugir da cidade em busca de ajuda. Após encontrar um daqueles sinistros donos de posto de gasolina que os alertam para ficar longe do local, Diehl (R.G. Armstrong – personagem também ausente no conto), que vai ser morto pelos capetinhas, mesmo sendo de grande valia fornecendo óleo e gasolina para as crianças, os forasteiros conhecem os irmãos Job (Robby Kiger) e Sarah (Anne Marie McEvoy), que são uma espécie de “resistência” a Isaac e sua turma, que aboliu música e brincadeira da vida dos pequenos, sendo que Sarah possui um dom premonitório e pode desenhar o futuro.

Red album

Red album

Vicky é sequestrada e amarrada em uma cruz no milharal, junto com o “Homem de Azul”, que na verdade era o delegado que foi até Gaitlin investigar as mortes, e cabe a Burt tentar resgatá-la, enquanto, quando surto de pequeno poder pouco é bobagem, Malachai se revolta contra Isaac e resolve oferece-lo para Aquele que caminha entre as fileiras. A sequência final é espalhafatosa e com efeitos especiais toscos, novamente inerente à época e ao baixo orçamento. Mas o clima sinistro construído durante todo o filme, abusando de crianças terríveis, aquele aspecto de cidade abandonada, fanatismo religioso e uma música tema que mistura coro de criancinhas com um quê do “Ave Santanis” de A Profecia de Jerry Goldsmith, é muito bem executado.

Como estamos falando de um filme de Hollywood, mudanças drásticas foram feitas com relação ao original, então lá vai um parágrafo com ALERTA DE SPOILERS, e pule para o próximo caso ainda não tenha visto Colheita Maldita. Enquanto o casal Burt e Vicky estão numa boa, no livro os dois estão passando por um grave problema conjugal e vivem se atacando. Na cena onde eles dirigem pela estrada (que tem uma cópia de “Sombras da Noite” no painel do carro, antologia de contos de King onde foi publicado “As Crianças do Milharal”) originalmente eles estão discutindo fervorosamente e Burt precisa se segurar para não agredi-la física e verbalmente. O final feliz do longa também simplesmente não existe no texto. Enquanto aqui os mocinhos sobrevivem, no conto Vicky é crucificada no milharal e tem seus olhos arrancados, enquanto Burt é assassinado pela deidade sobrenatural logo após encontrar o corpo da esposa. BEEEEEEEM mais legal!

Bom, como já disse, Colheita Maldita perdeu muito de seu charme de época. É um filme correto e econômico, que entrega aquilo que promete, tem lá seus momentos de inspiração apesar da conclusão errônea e sem dúvida nenhuma marcou toda uma geração e desperta aquela sensação de saudosismo, mas que se analisado friamente fica aquém de outras adaptações para as telonas das obras de Stephen King, até da mesma época.

Colheita Maldita depois ganhou um infindável número de sequências, prequelas, refilmagens, telefilmes e por aí vai. São impressionantes NOVE filmes, todos, sem exceção, de gosto duvidoso e inferiores ao original que começou com tudo, como alardeia a tagline do seu DVD de vigésimo aniversário, que tenho certeza que não agradariam em nada Aquele que caminha entre as fileiras.

Vizinhança tranquila

Vizinhança tranquila

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Colheita Maldita está atualmente fora de catálogo.

Download: Torrent + legenda aqui.

 


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

7 Comentários

  1. Roberto disse:

    Eu achei a refilmagem de 2009 bem mais fiel ao conto e bem superior ao original de 1984, que para mim foi uma decepção completa.

  2. Marcus Vinícius disse:

    O clássico mor das crianças maléficas, que deveria ser uma tag aqui, não fosse a escassez de exemplos para a lista dos 1001. Por sinal, o cinema de terror demorou demais para explorar esse ótimo subgênero. Ah, pra dupla do Horrorcast, sugiro a versão tosca de Colheita Maldita da Troma, ‘Beware Children at Play’, com historia ridícula, atores péssimos, crianças despreparadas, mas muito GOORE.

  3. Diego/RS disse:

    Ótima análise do filme (especialmente a respeito da questão do fundamentalismo religioso).

    E, realmente, esse é um daqueles que envelheceu mal, como afirmado aí… transcorridos uns quase 30 anos da primeira vez, revi-o ano passado e me decepcionei profundamente (parece um filme quase infantil mesmo).

    A coisa mais massa desse filme pra mim acaba sendo o nome como chamam a tal entidade maligna, “Aquele que caminha entre as fileiras” : ) …

  4. Diego/RS disse:

    Ah, e a sequência da morte do cara do posto não lembra a de Quadrilha de Sádicos? (o cara é o único “normal” que vive por lá, isoladão, dá a dica pros forasteiros, e logo em seguida é morto pelos capetas locais…)

    E, verdade, além do tal que anda atrás das fileiras, a dupla Isaac e Malachai, o cérebro maligno e a força bruta em parceria, também é mesmo interessante (inclusive com esses nomes, marcantes) e até que segura relativamente bem por um tempo a onda do filme…

  5. […] programação, serão exibidos na tela grande os filmes Louca Obsessão, Colheita Maldita, Conta Comigo, Fenda no Tempo e Cemitério Maldito, além de dois longas surpresa, mais dois filmes […]

  6. Demencia13 disse:

    Realmente marcou época, já assisti várias vezes depois de adulto e tenho que concordar: Realmente era bem mais assustador quando eu era criança (Confesso, me borrava de medo do Malachai) e acho que todo mundo sentiu isso. Tanto que quando Burt está na igreja a ‘sacerdotisa diz ‘Vá chamar Isaac… Não, espere… Chame Malachai’.
    Mas tem uma coisa pouco comentada. Não sei se o King chupou a história do que falarei a seguir ou se foi mera coincidência, mas existe um filme espanhol dos anos 70 de nome ‘Quien puede matar a un niño?’ (Nos EUA saiu como ‘Come out and play’) que é praticamente a mesma coisa – Casal viaja para uma ilha isolada e turistica só para descobrir que os adultos foram mortos em nome de alguma entidade não revelada no enredo e só restaram as crianças. O final é muito interessante e como quem fala Português entende espanhol com a mesma facilidade que um dinamarquês entende norueguês ou um holandês entende alemão, enfim, aquela merda que os linguistas chamam de inteligibilidade mutua, dá pra assistir em espanhol numa boa e vale a pena. Pelos torrents da vida tem ele completo.

  7. […] Ainda no quesito “Stephen King”, John Franklin, o Isaac de Colheita Maldita: […]

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