54 – A Morta-Viva (1943)


I Walked With a Zombie


1943 / P&B / EUA / Direção: Jacques Tourner / Roteiro: Curt Siodmak, Ardel Wray / Produção: Val Lewton / Elenco: Frances Dee, Tom Conway, James Ellison, Darby Jones


 

A primeira vez que assisti A Morta-Viva, foi no final de 2010 em um daqueles especiais “50 filme sque você deveria ver antes de morrer” do canal por assinatura TCM (muito provavelmente também inspirado nos livro 1001 filmes…). Confesso que não dei muita bola e como passou tarde da noite, acabei dormindo na metade. Algum tempo depois, estava lendo o sensacional “Zumbi – O Livro dos Mortos” que rasgava elogios a produção, o que me obrigou a assisti-lo novamente, para ter uma segunda opinião.

Fato é que A Morta-Viva é mais um filme de terror poético da safra produzida por Val Lewton para a RKO Radio Pictures (assim como Sangue de Pantera e O Homem Leopardo, ambos também dirigidos por Jacques Tourneur). O produtor já com carta branca após ter emplacado dois sucessos, mais uma vez chamou Tourner e os roteiristas Curtis Siodmak (o mesmo de O Lobisomem e outros filmes de monstro da Universal) e Ardel Wray (que assina o roteiro de O Homem Leopardo, lançado na sequência) para a realização de um filme de zumbis.

Tourner volta às raízes haitianas do zumbi e em um filme lírico e perturbador, eleva o “monstro” a um status de seriedade nunca antes visto, explorando todo o potencial simbólico e religioso do morto-vivo nas telas. O enredo originalmente foi inspirado por um artigo escrito por Inez Wallace no jornal American Weekly com o título “I Walked With a Zombie” (nome original do filme), que na verdade era um pastiche que copiava descaradamente as experiências relatadas por William B. Seabrook em A Ilha da Magia. Após inúmeras mexidas no roteiro, todo o conceito foi praticamente descartado, mantendo apenas o mercadológico título, e acabou se transformando numa versão vodu de Jane Eyre de Charlotte Brontë, mesmo que não creditado.

A Morta-Viva começa com um plano aberto e Betsy Connell, enfermeira contratada por Paul Holland (fazendeiro dono de uma mina de açúcar nas Índias Ocidentais), para cuidar de sua catatônica esposa, em uma praia andando ao lado de uma figura não identificada, e narrando em off: “Eu caminhei com um zumbi…”. Na ilha, Betsy começa a entender a rotina disfuncional que envolve a família Holland, desde o amargo e desiludido Paul, passando por seu meio-irmão alcoólatra Wesley Rand e a dominadora matriarca  Sra. Rand, e a ter pistas do motivo da catatonia de Jessica, esposa de Paul. Enquanto o médico da família aposta na teoria de uma rara febre tropical, os nativos insistem na ideia de vodu e que ela foi transformada em um zumbi.

A enfermeira Betsy caminha com a zumbi Jessica (ou morta-viva, se preferir)

Não demora muito para que as peças comecem a se ligar, e Betsy descobre que Jessica e Wesley estavam tendo um caso, sendo que a mesma adoeceu pouco antes de um plano secreto de ambos fugirem juntos. Nesse ínterim, Betsy se apaixona por Paul e mesmo com todo amor aflorado, resolve fazer de tudo para tentar reanimar Jessica, até mesmo através de medidas extremas, como levá-la a uma igreja vodu no meio do canavial, onde se depara com a assustadora figura de Carrefour, o zumbi local de olhos arregalados e expressão sinistra, além de outras revelações envolvendo os próprios Holland/Rand.

O filme todo é permeado em um questionamento interminável, de que se realmente o que acontece possui alguma causa ou explicação científica ou mesmo se os acontecimentos cruciais do final do filme são frutos de feitiçaria. Ninguém consegue estabelecer um padrão patológico, mental ou espiritual para a condição de Jessica, e o filme termina mesmo sem deixar essa reposta. Assim como a cena inicial que não tem uma continuidade, e tampouco fica claro quando, como e porquê, Betsy caminhou com o zumbi, já que fica apenas subentendido e a cena não se repete até o fim da película.

Um filme artístico de zumbi é apenas um resumo dessa obra complexa e misteriosa, que nunca mais seria repetido, principalmente após o morto-vivo virar sinônimo de gore no cinema de terror atual.

Carrefour, o temido zumbi de olhos arregalados, que no futuro se tornaria dono de uma rede multinacional de supermercados


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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] inspirados pelo livro “A Ilha da Magia” de William B. Seabrook, como Zumbi Branco e A Morta-Viva, e um exército de zumbis maltrapilhos rondando entre as palmeiras. E daí é ladeira abaixo! Fulci […]

  2. rocky disse:

    Carrefour! Gostei do comentário.

  3. […] cartilha que Jacques Torneur havia criado nos filmes anteriores para a RKO, como Sangue de Pantera, A Morta-Viva e O Homem Leopardo, utilizando muito bem o jogo de luz e sombras e mensagens subentendidas, […]

  4. […] alguns dos melhores filmes de terror da década de 40, como Sangue de Pantera, A Sétima Vítima e A Morta-Viva, tem na direção o diretor Robert Wise, o mesmo de filmes como Desafio do Além, O Dia que a Terra […]

  5. […] O Filho de Drácula e A Casa de Frankenstein, além do clássico de zumbis de Jacques Tourneur, A Morta-Viva. Mas isso não quer dizer muita coisa, viu. Este é um terror / sci-fi de baixíssimo orçamento da […]

  6. […] já havia emplacado alguns dos principais filmes de terror feitos até então: Sangue de Pantera, A Morta-Viva e O Homem Leopardo. O roteiro do filme, escrito por Charles Bennett, que comprou os direitos do […]

  7. […] os anos 30 e 40, sempre baseando-se na origem haitiana da criatura, em filmes como Zumbi Branco e A Morta-Viva, além de outras desgraças do Poverty Row. Após esse período, os mortos-vivos caíram no […]

  8. […] inspirados pelo livro “A Ilha da Magia” de William B. Seabrook, como Zumbi Branco e A Morta-Viva, e um exército de zumbis maltrapilhos rondando entre as palmeiras. E daí é ladeira abaixo! Fulci […]

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