504 – Caçador de Assassinos (1986)

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Manhunter

1986 / EUA / 119 min / Direção: Michael Mann / Roteiro: Michael Mann (baseado no livro de Thomas Harris) / Produção: Richard Roth, Bernard Williams (Produtor Executivo), Dino de Laurentiis (Produtor Executivo – Não creditado) / Elenco: William Petersen, Kim Greist, Joan Allen, Brian Cox, Dennis Farina, Tom Noona, Stephen Lang

 

 

Muita gente não sabe, mas Anthony Hopkins não foi o primeiro Hannibal Lecter do cinema e O Silêncio dos Inocentes não foi o primeiro filme a trazer o famoso canibal, criação de Thomas Harris, para as telas. Em 1986, um ainda novato Michael Mann dirigia Caçador de Assassinos, produção do todo poderoso Dino de Laurentiis, baseado no livro “Dragão Vermelho” de Harris.

Em tempos em que a história de “Dragão Vermelho”, com toda sua liberdade poética, é revisitada no excelente, soturno e sangrento seriado Hannibal, voltar os olhos para Caçador de Assassinos é uma tarefa que se torna extremamente satisfatória até como uma forma de traçar um paralelo entre as duas abordagens (claro que temos que pensar que são duas mídias diferentes: cinema e televisão) e também até com a sua refilmagem mais recente, tendo aí um papel de mais destaque para o antropófago (já vivido por Hopkins) e com Edward Norton fazendo o papel do personagem aqui de William Petersen (hoje mais conhecido por ter estrelado a série CSI: Investigação Criminal).

A pontual diferença entre as obras é a figura de Mann na cadeira de diretor (até porque Brett Ratner do VERGONHOSO terceiro filme dos X-Men não merece sequer nota). Caçador de Assassinos é um thriller oitentista na sua mais perfeita definição e com um vislumbre da estética que o diretor atingiria principalmente em seus filmes mais recentes da fase Colateral (ÚNICO filme em que Tom Cruise tem uma boa atuação), Miami Vice (ótima adaptação “moderna” da série deixando de lado a cafonalha – e as ombreiras e o paletó branco – do show que o próprio Mann foi produtor executivo) e Inimigos Públicos (onde Christian Bale e Johnny Depp dão show).

Clarice,os cordeiros pararam... não, pera...

Clarice, os cordeiros pararam de… não, pera…

Mann impõe uma expectativa minimalista sufocante, com um amplo sentido de urgência se abatendo na investigação antes que o assassino conhecido como “Fada dos Dentes” faça sua nova vítima. A ação é contida, a investigação é toda baseada em detalhes e o ritmo vai literalmente te consumindo até o final, quando aí sim, auxiliado muito pela escolha pontual da trilha sonora, vemos aquele Michael Mann que hoje conhecemos tão bem pisando no acelerador e transformando a experiência impaciente em um rápido ritmo exagerado ao melhor molde anos 80.

Na trama, também escrita por Mann, somos agraciados com a atuação na medida de Petersen como o austero, amargurado e intenso Will Graham, ex-agente do FBI, perito na construção de perfis, que alcançou o estrelato ao prender Garry Jacob Hobs nos anos 70, o assassino conhecido como o “Picanço de Minessotta”. Brevemente citado no filme (e muito bem explorado na série), a experiência o traumatizara e Graham fora submetido a tratamento psiquiátrico até voltar a ativa e se envolver na caçada ao “Estripador de Chesapeake”, que descobre ser na verdade Hannibal (que aqui tem o sobrenome de Lecktor), que o estrebucha e o deixa à beira da morte (nada disso é de fato mostrado em Caçador de Assassinos). Lecktor é preso e Graham afasta-se do trabalho para viver com a esposa Molly (Kim Greist) e filho em uma praia paradisíaca, preocupado apenas com a sobrevivência de tartarugas marinhas recém-nascidas.

Até seu ex-chefe, Jack Crawford (Dennis Farina) pedir sua ajuda na captura de um assassino que tem matado famílias inteiras e substituído seus olhos por pedaços de vidro, seguindo o ciclo da lua, o tal Fada dos Dentes. O que vemos então é Petersen levando Caçador de Assassinos nas costas, até a rápida, porém importantíssima, aparição de Lecktor, vivido pelo escocês Brian Cox e seu sotaque carregado. Graham vai pedir sua ajuda, mas acaba mesmo é caindo em mais um de seus joguinhos mentais e tendo sua própria família ameaçada em uma troca de correspondência por código com a Fada. É dificílimo não imaginarmos Hopkins como Lecter no cinema, e mais difícil ainda desassociá-lo. Cox continua se impondo, desta vez menos fisicamente e mais com palavras, astuto em sua manipulação e escolha de frases. O canibalismo não é sequer mencionado. É um personagem secundário de luxo, pois o filme é de Graham. Mas não deixa de ser uma figura tenebrosa.

Dólar escondido

Dólar escondido

E em seus momentos de solilóquio, de total atenção aos detalhes da trama, pensando como assassino e repetindo seus passos, o ex-agente, contando com a competência de Mann que preferiu sobrepor o conteúdo à forma (exceto em sua sequência final), coloca o espectador como seu parceiro, correndo contra o tempo e instigando esse sentimento de pressa controlada, examinando todos os menores detalhes e seguindo uma envolvente e coesa linha de investigação. E o que se segue é o maniqueísmo, o preceito religioso e a dicotomia que reina o ser humano, no embate entre o herói Graham e o vilão, Francis Dollarhyde, identidade da Fada dos Dentes.

Que por sinal é o elo fraco da corrente de Caçador de Assassinos. Toon Noonan, apesar de fisicamente estar surpreendente e assustar, com sua cicatriz na boca, a dentadura postiça que usa para morder as vítimas, e principalmente, suas desequilibradas motivações e admiração pelos quadros de William Blake, é muitas das vezes apático e como se estivesse no automático. Suas frustrações, medos e pesadelos obscuros que vivem em sua mente, e até a ligação afetiva e distante ao mesmo tempo com a cega Reba McLane (Joan Allen) acaba por não convencer, apesar dos traumas de infância e das bagagens pessoais do assassino que influenciam suas motivações. Além de sentir falta da tatuagem em Dollarhyde, que Mann considerou “exagerada” após o término de horas de maquiagem em Noolan.

Outro ponto fraco é o final extremamente feliz e positivo. Não que seja proibido um final feliz, mas foi completamente ignorado em relação ao livro (e que contém na refilmagem) a ligação que Graham cria com Dollarhyde durante essa caçada e a verdadeira ameaça que ele acaba oferecendo à sua família para cumprir sua psicose. E isso acaba por desvalorizar uma das poucas ações arquitetadas pela brilhante mente de Lecktor/ Lecter contra sua nêmese.

Caçador de Assassinos é um baita filme. Sabemos de todo o potencial inexplorado do psiquiatra que gosta de comer fígados com fava e um bom Chianti, mas mais uma vez, o foco do filme é completamente outro e se mostra uma experiência satisfatória em acompanhar a mão de Michael Mann nos guiando pela tênue linha entre a loucura e obstinação, entre o bem e o mal, entre o certo e o errado e entre o brilhantismo e a psicose, num ótimo suspense.

 

Caçando assassinos

Caçando assassinos

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

4 Comentários

  1. raphael disse:

    Que resenha sensacional! Confesso que não conhecia esse filme, mas lendo não tem como não ficar instigado!

  2. […] FBI que Lecter ajudou, também baseado na obra de Thomas Harris e que já havia inspirado o filme Caçador de Assassinos de Michael Mann em 1986; e Hannibal – A Origem do Mal, prequela da prequela que retrata a […]

  3. […] Hannibal só não leva o posto de ser o pior da cinesérie, incluindo aí também o não-oficial Caçador de Assassinos, por que anos mais tarde os produtores tiveram a infâmia de cometer o horrendo Hannibal – A […]

  4. […] E isso sem esquecer que a mesma história já fora levada às telas por Michael Mann em Caçador de Assassinos, de 1986, trazendo a primeiro encarnação de Lecter no cinema, por Brian Cox (e chamado de […]

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