518 – A Mosca (1986)

The Fly

1986 / EUA, Reino Unido, Canadá / 96 min / Direção: David Cronenberg / Roteiro: David Cronenberg, Charles Edward Pogue (baseado no conto de George Langelaan) / Produção: Stuart Cornfeld, Marco Boyman e Kip Ohman (Co-produtores) / Elenco: Jeff Goldblum, Geena Davis, John Getz

 

“Tenha medo. Tenha muito medo”. David Croneneberg eleva as ideais de metamorfose de Kafka ao extremo da repugnância com A Mosca, refilmagem de um filme B dos anos 50 estrelado por Vincent Price, que no Brasil foi lançado com o nome de A Mosca da Cabeça Branca.

Cronenberg sempre foi um sujeito meio afetado, que em seus outros longas já predizia que os avanços tecnológicos (Videodrome – A Síndrome do Vídeo), sociais (Calafrios) e médicos (Os Filhos do Medo) poderiam ter efeitos devastadores sobre as pessoas. E A Mosca é o resultado supremo do que pode acontecer quando todas esses elementos se juntam em uma experiência desastrosa.

Fiel à premissa do original, Seth Brundle (Jeff Goldblum, ótimo, por incrível que pareça) é um brilhante e tímido cientista que inventa algo que irá mudar o modo como vivemos. Ele cria uma máquina de teletransporte, que batiza de telepod, capaz de desintegrar as partículas de objetos inanimados e reintegrá-las em outra cabine. A experiência é acompanhada pela jornalista Veronica “Ronnie” Qualife (Geena Davis), que resolve documentar o avanço de Brundle e inexoravelmente transforma-se em seu par amoroso. O próximo passo é tentar teletransportar seres vivos, algo que consegue com sucesso apenas depois de virar do avesso vários babuínos durante o processo. Só que nessa equação existe o cínico e chauvinista editor e ex-namorado de Ronnie, Stathis Boranis.

Pense em um sujeito azarado…

Cronnenberg sempre deixou muito claro seu fetiche pela carne, e o quanto ela é vulnerável e mutável. Aqui ele alcança seu apogeu. E escancara isso quando a experiência de Brundle só consegue obter sucesso quando o cientista programa seu computador para tornar-se louco pela carne e reproduzí-la por completo, e não apenas sintetizá-la.

Pois bem, certa noite, atacado por uma crise de ciúmes e bebedeira, Brundle resolve fazer o experimento em si mesmo, após o sucesso com outro de seus babuínos cobaias. Só que junto com Brundle, em um dos telepods entra uma mosca. O computador durante o processo realiza uma recombinação genética entre eles e gradativamente Brundle vai se transformando em um híbrido entre humano e inseto, o “Brundlemosca”, como o computador batiza.

O diretor canadense nunca teve pudores em mostrar nojeira em seus filmes. Mas em A Mosca, ele atinge o seu extremo, graças a fantástica maquiagem ganhadora do Oscar daquele ano e as próteses criadas por Rob Bottin. No começo Brundle começa a se sentir mais ágil, forte, disposto e as mudanças físicas ficam no crescimento de repulsivos pelos duros em seu corpo e manchas em seu rosto. Mas conforme a mutação se acelera, bolhas, pústulas e cancros vão surgindo em sua pele, enquanto pedaços do corpo que se tornam inúteis como cabelos, unhas, orelhas e dentes vão caindo gradativamente e “Brundlemosca” vai se transformando em uma grotesca massa disforme mutante.

Sabia que você é um doce?

Tudo complica mais ainda quando Ronnie descobre que está grávida de Seth e quer desesperadamente abortar a criança, com medo de que ela tenha alguma característica genética do pai. E a relação entre os dois é que realmente mostra o quanto A Mosca é uma história de amor sadicamente deturpada, mesmo com todo seu tom asqueroso. É a luta de Ronnie tentando de qualquer forma encontrar naquela criatura grotesca o homem que um dia amou, e a luta de Seth em manter a sua razão em detrimento do instinto animal de sobrevivência e perpetuação da espécie que vai tomando conta de seu ser. O final dessa história não poderia ser mais trágico e cativar mais o espectador, mesmo com toda a repulsa.

Um golaço que Cronnenberg sempre marca é pegar atores canastrões e fazer com que eles façam os papeis surpreendentes. Foi assim com James Woods em Videodrome e é assim que ele faz com Jeff Goldblum em A Mosca. A degradação tanto física quanto psicológica do personagem é simplesmente sensacional. Aos poucos você vê Seth tornando-se cada vez mais hiperativo, entupindo-se de açúcar e perdendo completamente seu controle emocional, e graças a alguns tiques nervosos com os olhos e rápidos movimentos do rosto e membros, sua transformação em uma mosca humana fica completamente crível.

Fato é que nunca você vai sentir ao mesmo tempo tanto nojo, e tanta dó juntos em um filme, como em A Mosca. Recomendadíssimo!

Bzzzzzzzzzzz…

Serviço de utilidade pública:

O DVD de A Mosca está atualmente fora de catálogo

Download: Torrent + legenda aqui.

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

17 Comentários

  1. […] citar Os Invasores de Corpos (Vampiro de Almas), O Enigma de Outro Mundo (O Monstro do Ártico), A Mosca (A Mosca da Cabeça Branca) e A Bolha Assassina (A Bolha). Viagem Maldita é mais um que entra […]

  2. […] outros sci-fi dos anos 50 que ganharam suas refilmagens três décadas depois, como, por exemplo, A Mosca, remake de A Mosca da Cabeça Branca e O Enigma de Outro Mundo, remake de O Monstro do Ártico. […]

  3. […] terror / sci-fi, elevados ao status de cult. Diferente da refilmagem asquerosa de David Cronenberg, A Mosca, de 1986, o original sofre as limitações da sua época, claro, o que acaba não impressionando […]

  4. […] com a pata de mosca. Nada nojento como vomitar e derreter o vilão, como acontece em A Mosca de David Cronenberg. Lutando contra seus instintos e preservando o pouco que resta da consciência […]

  5. Íris disse:

    Link para download indisponível.

  6. […] é vista, mantendo um climão de suspense e fazendo escola, assim como aconteceu, por exemplo, com A Mosca de David Cronenberg […]

  7. Andrigo Mota disse:

    Nigel Mosca…o cara

  8. Renato Cunha disse:

    Olá pessoal, parabens pelo blog, excelentes escolhas sempre. Gostaria de deixar como sugestão algum filme do mestre do Cult-Scifi Don Dohler, de preferência o clássico “Nightbeast”. Abraços!

  9. […] dois exemplos são O Enigma de Outro Mundo, de John Carpenter, remake de O Monstro do Ártico e A Mosca, de David Cronenberg, baseado em A Mosca da Cabeça Branca com Vincent […]

  10. […] seus méritos, ainda mais se tratando de uma continuação direta de seu antecessor, o insuperável A Mosca, dirigido por David Cronenberg. O grande problema é o final salafrário (coisa de estúdio, sabe?) […]

  11. […] da época (e eu nem estou falando dos gráficos, tipo o próprio O Enigma de Outro Mundo ou A Mosca, mas, por exemplo, Os Invasores de Corpos) esta aqui tornou-se insossa e sem acrescentar […]

  12. […] outros sci-fi dos anos 50 que ganharam suas refilmagens três décadas depois, como, por exemplo, A Mosca, remake de A Mosca da Cabeça Branca e O Enigma de Outro Mundo, remake de O Monstro do Ártico. […]

  13. […] terror / sci-fi, elevados ao status de cult. Diferente da refilmagem asquerosa de David Cronenberg, A Mosca, de 1986, o original sofre as limitações da sua época, claro, o que acaba não impressionando […]

  14. […] com a pata de mosca. Nada nojento como vomitar e derreter o vilão, como acontece em A Mosca de David Cronenberg. Lutando contra seus instintos e preservando o pouco que resta da consciência […]

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