529 – Coração Satânico (1987)

Angel Heart

1987 / EUA, Canadá, Reino Unido / 113 min / Direção: Alan Parker / Roteiro: Alan Parker (baseado no livro de William Hjortsberg) / Produção: Alan Marshall e Elliott Kastner, Robert Dattila (Produtor Associado), Andrew Vajna e Mario Kassar (Produtores Executivos) Elenco: Mickey Rourke, Robert De Niro, Lisa Bonet, Charlotte Rampling

 

 

É extremamente difícil escrever e fazer uma análise sobre Coração Satânico sem entregar vários spoilers do filme. Então vou tentar dividir o texto em duas partes. A primeira para aqueles que nunca assistiram a essa perturbadora produção que mistura horror, satanismo e cinema noir e a segunda, para aqueles que já viram e sabem muito bem como ela termina.

Coração Satânico tem aqui três pilares para ser um filme tão foda. O primeiro é a direção e roteiro de Alan Parker, precisa, segura, com uma extremo cuidado com detalhes e com todo o mise-en-scène que envolve o filme, pautado em um forte apelo visual, sinistro e repleto de simbolismos. O segundo pilar é Mickey Rourke. Vamos lembrar que em 1987, o galã estava no auge de sua carreira, logo após 9 ½ Semanas de Amor, antes de tornar-se uma caricatura de si mesmo. E sua atuação é brilhante. Seus maneirismos, suas sutilezas, e o jeito como vai se comportando no desenrolar do filme conforme sua investigação vai avançando mostram só como o cara é (era?) um baita ator. E o terceiro é Robert De Niro. Bom, no final do filme (e do post), você vai entender porque De Niro nem precisa aparecer e falar muito no filme para ter uma de suas interpretações mais marcantes da carreira.

No ano de 1955, Rourke é Harry Angel, um detetive de Nova York, nascido no Brooklyn, contratado pelo enigmático Louis Cypher (De Niro) para encontrar um cantor de jazz desaparecido, chamado Johnny Favorite, que sumiu há doze anos e tinha uma dívida com ele. Angel decide aceitar o trabalho e aos poucos vai entrando numa trama completamente macabra e esquisita. Sua investigação começa em Nova York, mas conforme vai colhendo pistas, ele vai se envolvendo com personagens complexos e misteriosos, como a leitora de mãos Margaret Krusemaker (Charlotte Rampling), ou quando segue para Nova Orleans e se envolve com Epiphany Proudfoot (Lisa Bonet), filha de uma das amantes de Favorite, que na verdade é uma sacerdotisa vodu. Ou seja, a investigação começa a esbarrar em doses cavalares de magia negra e todas as pessoas de quem se aproxima para tentar desvendar o verdadeiro paradeiro de Favorite, terminam terrivelmente assassinadas, com mortes extremamente violentas.

Aonde você foi se meter, hein bonitão?

Bom, para quem não assistiu ao filme, pare de ler por aqui. Essa sinopse simplória pode parecer que é um filme policial qualquer, mas a coisa vai ficar muito séria no final, que é nada menos que surpreendente. Confie em mim! Agora se você já assistiu ou quer continuar lendo por sua conta e risco, lá vai:

O filme começa a ficar bem pesado, primeiro pelas mortes violentas, principalmente de Margaret e de Toots Sweet (Brownie McGhee), um cantor de blues de Nova Orleans que havia feito algumas jams sessions com o Favorite antes da guerra. Respectivamente, uma tem o coração arrancado do peito e o outro, segundo relatos policiais, morre sufocado com o próprio pênis decepado.

E conforme vai chegando em seu clímax, cada vez mais percebemos que há algo de muito errado com Angel e principalmente com seu contratante, Cypher, e é aí que vamos pegando os nuances para entender o final como um todo, em pequenas pistas que Alan Parker vai jogando no decorrer do filme, o que faz ele se tornar tão do caralho. Na cena final, descobrimos que Angel não consegue encontrar Favorite de jeito nenhum porque ele na verdade é o cantor de jazz desaparecido. Favorite havia feito um pacto com o diabo em troca de sucesso, conjurando o capeta junto com sua namorada, Margaret, praticante das artes do oculto. Porém para tentar ludibriá-lo, ele rapta um jovem soldado durante a noite de réveillon na Times Square, e através de feitiçaria, troca de alma com o sujeito.

Como se tomava banho em Nova Orlenas naquela época

Só que logo em seguida Favorite é recrutado para a guerra e retorna desfigurado e com amnésia, assumindo de vez a identidade de Harry Angel. Olha que piração! E Louis Cypher é na verdade o demônio, que ironicamente prega esse joguinho com Angel / Favorite para que ele descubra a verdade antes de reclamar sua alma de volta. Na boa? De Niro é o melhor diabo interpretado em toda a história do cinema. O cara assusta com o olhar (e aquele olhar na cena em que se revela, então…) e todas as poucas vezes que aparece no filme, você até sente um mal estar e uma energia pesadíssima. E o trocadilho do nome dele então? Louis Cypher = Lúcifer. Gênio!

E Coração Satânico é aquele típico filme que você quer assistir de novo, para conseguir pegar todas as sacadinhas que explodem no final do filme. Mas o brilhantismo é que nenhuma delas são óbvias e realmente só nos momentos finais que você, estupefato, descobre toda a verdade. Logo no primeiro encontro, Cypher diz que é um estrangeiro. Em outro momento sensacional, Cypher está comendo um ovo, e diz que em algumas religiões o ovo simboliza a alma. E na sequência, ele devora o ovo. Na próxima ele aprece dentro de uma igreja, cínico ao extremo. Angel / Favorite tem uma estranha fobia com galinhas, que são usualmente utilizadas em rituais, principalmente nos rituais vodus. E repare que cachorros, as próprias galinhas e as crianças, se comportam de forma estranha na presença do detetive, demonstrando às vezes medo, às vezes reações bruscas. E por fim, toda vez que uma morte é iminente, aparece um ventilador em cena, que remete a Favorie o exato momento em que ele tirou a vida do original Harry Angel.

Destaque para a impressionante cena em que ele faz sexo selvagem com Epiphany. Puta que pariu! É simplesmente demais! Afinal, ele está trepando com a própria filha sem saber, e a chuva que cai através de infiltrações no teto do quarto, vai se transformando em um banho de sangue que inunda os dois. O incesto, o ato pecaminoso mais hediondo. E ao terminar o filme, durante os créditos finais, Angel / Favorite está descendo em um elevador. Analogia de descer diretamente para o inferno.

Coração Satânico é um thriller fantástico. Dos melhores já feitos no gênero.

Você está falando comigo?

Serviço de utilidade pública:

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

14 Comentários

  1. oscar_b disse:

    Caraca a revelação do final do filme deixa “O Sexto Sentido” no chinelo. Realmente dá vontade de assistir novamente.
    Outro “pista” do filme pode ser o fato do Angel não sentir nenhum tipo de racismo (na década de 50 isso deveria ser mais latente), a impressão é que Angel ele se sente até mais a vontade com os negros, provavelmente devido ao fato de favorite ter sido negro.

    • Bacana seu ponto de vista, Oscar. Não tinha pensado nessa hipótese de Favourite ter sido negro e por isso ele se sente mais à vontade!

      Isso que é o mais legal de ter o blog: eu poder compartilhar minhas impressões e ouvir novos pontos de vista como o seu!

      Obrigado por comentar.

      Grande abraço.

      Marcos

  2. Luis disse:

    Link quebrado Marcos.

  3. Henrique disse:

    Muita bacana teu blog! Me amarro em filmes de terror desde criança, conheço a maioria dos que estão listados aqui. Coração Satânico eu vi no final dos 80 e foi muito marcante. É um filme excelente, mas pouco lembrado. Merece um reconhecimento maior.

  4. Diogo Maia de Carvalho disse:

    Acreditem se quiser, mas esse final eu saquei no início do filme, logo na conversa entre o Cypher e o Angel. Ele começa a encontrar semelhanças entre seu passado e o passado o cantor de Jazz sumido. Dali eu desconfiei e pra frente fui pegando todas as dicas (fiquei orgulhoso no final, rs), a única que não peguei foi a do nome do Luis Cypher, que vem da alcunha do tinhoso. Sensacional!

  5. Marcia disse:

    Gracias por mais esta pérola !
    o De Niro está – como sempre – perfeito, e a história é genial.

  6. Diego disse:

    Filmaço! Ainda lembro quando assisti pela primeira vez no Corujão há muito tempo, o filme todo é muito bom, além do final inesperado e da cena final sensacional.

  7. Paulão Geovanão disse:

    Boa dica! Tenho o dvd e vou assistir hoje mesmo. Uma sugestão: Façam uma sessão dupla desse com o “Adoradores”.

  8. Paulão Geovanão disse:

    Acabei de assistir e “Adoradores” assusta mais

  9. Deve ser um dos filmes de horror que mais assisti ao longo da vida (sou uma putinha do Alan Parker) e sempre fico embasbacado com ele. Uma verdadeira escola de como se fazer um filme perfeito. Parabéns pela escolha. 8)

  10. Alexandre disse:

    Bem, não sei se alguém percebeu, mas o filme é inspirado no Édipo Rei, de Sófocles. Assim como Édipo, Angel é incumbido de realizar uma investigação no qual o sujeito que ele procura é ele mesmo. A questão do incesto também encontra similaridade, já que Édipo descobre ser amante da própria mãe e Angel de sua filha. Os deuses, que na peça de Sófocles aparecem simbolizados pelo oráculo, no filme de Alan Parker, são trocados pela figura do diabo, que tece e brinca com o destino do personagem principal.

  11. Diego/RS disse:

    Sobre esse só um comentário mesmo: Do caralho!!

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