53 – O Homem Leopardo (1943)

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The Leopard Man


1943 / EUA / P&B / 66 min / Direção: Jacques Tourneur / Roteiro: Ardel Wray (baseado na obra de Cornell Woolrich) / Produção: Val Lewton / Elenco: Dennis O’Keefe, Margo, Jean Brooks, Isabel Jewell, James Bell


 

Com o surpreendente sucesso de Sangue de Pantera, o produtor Val Lewton responsável pelo recém criado departamento de filmes de terror da RKO Radio Pictures novamente se une ao diretor Jacques Tourneur para levar uma segunda  produção do estúdio envolvendo felinos para as telas: O Homem Leopardo.

E novamente, o grande mérito do diretor é exatamente não entregar o que o título do filme literalmente promete, assim como fizera com Sangue de Pantera, não caindo na armadilha de construir um filme B, como os que eram produzidos no Poverty Row de Hollywood, e sim investir em um incomum e classudo terror psicológico.

É impressionante o frescor e a sutileza que os filmes produzidos por Lewton em sua breve estada como produtor de terror da RKO trouxeram para o gênero. Porque até então, é só ver os filmes da lista, as produções eram amplamente dominadas pelos monstros da Universal. Sabe, chega uma hora que você não aguenta mais ver o monstro de Frankenstein, ou Drácula, ou a múmia, ou o lobisomem na tela. E foi esse o grande diferencial: além das histórias intrincadas, uma nova maneira de criar suspense, que transformou os filmes de Lewton, principalmente aqueles dirigidos por Jacques Tourneur e depois por Robert Wise, em verdadeiras gemas dentro do cinema de horror.

Aqui não se faz diferente. Em O Homem Leopardo, Kiki Walker, atriz de um clube noturno, resolve entrar no palco com um leopardo negro, parte de uma jogada publicitária idealizada por Jerry Manning, para impressionar todos os ali presentes. Assustado por sua rival de palco, Clo-Clo, o leopardo escapa da coleira e foge para o centro da cidade, espalhando o pânico e a histeria pelo Novo México.

Eu acho que vi um gatinho...

Eu acho que vi um gatinho…

Enquanto a polícia, Manning e o dono do felino, o domador exibicionista Charlie How-Come procuram pelo animal solto, acuado e assustado pela perseguição, ele faz sua primeira vítima, a garota Teresa Delgado, obrigada pela mãe mesquinha a ir na venda tarde da noite para comprar farinha. A cena da morte (off screen) é realmente impactante, completamente diferente do que estávamos acostumados a ver no cinema americano nessas duas décadas. A garota vê o leopardo à espreita, e começa a fugir desesperada até sua casa, sem nunca vermos o animal de fato perseguindo-a. Ao chegar, apenas podemos ouvir seu desespero gritando para que a mãe abra a porta, que simplesmente a ignora, achando que é algum tipo de malcriação, quando ouvimos o grito de horror da menina sendo atacada. Quando sua mãe e seu irmão mais novo tentam abrir a porta, vemos, assim como os dois, somente uma poça de sangue se formando por debaixo do batente. Incrível.

Na verdade durante todo o filme o diretor brinca com nossos sentidos, não sendo explícito em nenhuma cena e deixando nosso subconsciente trabalhar. A mesma coisa quando outra vítima, Consuelo Contreras é atacada no cemitério, ou quando Clo-Clo é assassinada em uma escura rua deserta. Apenas algumas mensagens como o farfalhar de um galho de árvores, ou o close de pavor da vítima nos é mostrado. É o suficiente para fazer gelar a espinha.

Porém apesar das pistas óbvias, como marcas de garras e pelos negros encontrados no local dos crimes, Manning, Kiki, Charlie e o Dr. Gallbraith, um erudito curador do museu local e especialista em felinos, desconfiam que não é o animal que está matando as pessoas, e sim um psicopata desequilibrado, já que a primeira garota apenas foi morta por conta do leopardo estar assustado e sendo perseguido. Não fazia sentido o animal não fugir para o campo e sair matando pessoas deliberadamente, sem se alimentar delas. Daí vamos acompanhar a investigação particular de Manning e Kiki, desacreditados pelo chefe de polícia, e descobrir então através de uma reviravolta final na trama, quem realmente é responsável pela matança e quais suas verdadeiras motivações.

O Homem Leopardo é um excelente filme porque foge do óbvio. Foge de monstros, vampiros, cientistas malucos e cadáveres mumificados que invadiam as telas de cinema na década de 40. Isso sem contar a direção primorosa de Tourneur, com todos os pequenos detalhes que joga em cena, ângulos inusitados para filmes de terror vistos até então, excelente uso dos efeitos sonoros, como o constante bater de castanholas de Clo-Clo, e toda sua sutileza para contar uma história sem transformá-la em um verdadeiro pastiche, investindo muito mais no psicológico do que em efeitos especiais.

Tenho certeza que vi um gatinho!!!

Tenho certeza que vi um gatinho!!!


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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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  1. […] Torneur havia criado nos filmes anteriores para a RKO, como Sangue de Pantera, A Morta-Viva e O Homem Leopardo, utilizando muito bem o jogo de luz e sombras e mensagens subentendidas, abusando dos nervos do […]

  2. […] alguns dos principais filmes de terror feitos até então: Sangue de Pantera, A Morta-Viva e O Homem Leopardo. O roteiro do filme, escrito por Charles Bennett, que comprou os direitos do livro Casting the […]

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