536 – Uma Noite Alucinante (1987)

Evil Dead 2 – Dead by Dawn

1987 / EUA / 84 min / Direção: Sam Raimi / Roteiro: Sam Raimi, Scott Spiegel / Produção: Robert G. Tapert, Alex De Benedetti, Irvin Shapiro, Bruce Campobell (Co-Produtor) / Elenco: Bruce Campbell, Sarah Berry, Dan Hicks, Kassie Wesley, Danise Bixier

 

Imagine se você tivesse nas suas mãos um orçamento 12 vezes maior do que recebeu em seu primeiro filme e ganhasse sinal verde para produzir uma sequência? Foi o que aconteceu com Sam Raimi. Com o estrondoso sucesso de A Morte do Demônio, Raimi resolveu fazer uma sequência/reboot/remake do seu clássico seis anos depois, e eis que surge Uma Noite Alucinante, maior exemplar do gênero splatstick.

Rápida enquete entre os leitores do blog: Qual “tradução” para Evil Dead você considera pior? A Morte do Demônio ou Uma Noite Alucinante? Dureza, né?

Os filmes splatstick (trocadilho de splatter com slapstick, termo inglês para as comédia de pancadaria, tipo Os Três Patetas e O Gordo e o Magro) fez parte de um ciclo curto, mas promissor, na história dos filmes de terror, dando vida a alguns uns bons exemplares, como o próprio A Morte do Demônio, Re-Animator – A Hora dos Mortos Vivos e A Volta dos Mortos Vivos e os longas de Peter Jackson futuramente em seu início de carreira. E o que há em comum em todas as produções do splastick é a noção do visceral, do grotesco e da repugnância, mas diferente, por exemplo, do niilismo do ciclo italiano de terror dos anos 80, o gore e o nojento são atenuados pelo alívio cômico e a grande carga de comédia nervosa.

Vão se as mãos e vão se os dedos!

Comédia essa que foi o caminho pelo qual Raimi se enveredou em Uma Noite Alucinante. Afinal, com mais dinheiro no bolso, mas sempre sem perder a tosquice, aqui ele joga o anti-heroi Ash em diversas situações inverossímeis, como ter que enfrentar a própria mão possuída que insiste em quebrar pratos na sua cabeça ou ser aloprado por todos os objetos da casa, incluso um abajur, as janelas e uma cabeça de veado empalhada na parede, que racham o bico de sua cara quando ele cai de uma cadeira. Uma Noite Alucinante perde todo o ar underground transgressor de tentar assustar alguém, que havia no primeiro filme. Pero no mucho.

O grande motivo pelo qual muitos cineastas, até possivelmente tentando conseguir abrandar suas produções para a censura, decidissem misturar a comédia para tentar dissolver o terror com risadas, foi o conservadorismo dos anos 80. E Raimi sofreu deveras com os censores da época com o lançamento de A Morte do Demônio. Além da MPAA (Motion Pictures Association of America), órgão censor de um Estados Unidos sob as rédeas do governo Reagan, também tomou paulada dos coxinhas ingleses, que adoravam proibir e retalhar filmes, e entrou até na mira do DPP (Director of Public Prosecution, o promotor público da terra da rainha), sendo realmente processado pela Lei das Publicações Obscenas por sua infâmia. A saída foi em Uma Noite Alucinante dar um tapa com luva de pelica nos censores e ter uma vida muito mais fácil contra os guardiões da moral e do bom costume da época.

O prólogo do filme nada mais é que contar a história do anterior, fazendo significantes alterações, a fim de conquistar um novo público e situar aquele que já era fã da trasheira anterior. Dessa vez Ash viaja só com a namorada Linda para a mesma cabana isolada na floresta, encontra o Necronomicon (agora oficialmente assim denominado) e liberta acidentalmente os demônios adormecidos no bosque. Assim como em A Morte do Demônio, Ash decapita o amor da sua vida, enterrando-a na sequência e tenta fugir daquele inferno o quanto antes.

Vem cá que eu quero lhe possuir!

Então somos levados exatamente onde termina o primeiro filme, com a câmera, que encarna o papel das forças das trevas perseguindo o anti-heroi pela casa e arredores e possuindo-o. Porém como amanhece e essa força maligna só tem poder à noite, Ash acaba se livrando de seu domínio, mas desmaia, acordando só na noite seguinte, tendo que enfrentar mais uma vez a solidão na cabana, os demônios e manter sua sanidade limítrofe. Ele acaba vivendo uma verdadeira noite alucinante (RÁ!!!!).

Para fazer companhia à Ash, a filha do iminente professor que encontrou o livro dos mortos e o traduziu, descobre algumas páginas faltantes e resolve levar até ele na cabana, sem saber do infortúnio que se abateu sobre sua família. Ela, o namorado e dois locais que ajudam-na a encontrar o caminho, mediante compensação financeira, encontram Ash já em parafusos, maneta, com uma serra elétrica substituindo a mão perdida e a espingarda de cano cerrado na outra. Após ter enfrentando sua namorada que voltou à vida sem cabeça e dançando à luz do luar, esquartejado-a, amputado a própria mão e estar às raias da loucura, Ash precisa ainda dar cabo dos novos visitantes que gradativamente vão ficando possuídos e a mãe da jovem e esposa do professor que estava trancafiada no porão e consegue escapar. E dá-lhe sangue, nojeira e situações que beiram o ridículo.

Não sei se isso é SPOILER para alguém, mas se não assistiu ao filme não leia esse parágrafo, ou então leia por sua conta e risco. No final, Ash consegue conjurar um imenso portal dimensional que vai livrá-lo de uma vez por todas daquela famigerada força das trevas, porém também acaba sendo sugado pelo portal e vai parar na idade média, mais precisamente na corte do Rei Artur (!!!!!). Esse é o gancho para Uma Noite Alucinante 3, onde Ash é supostamente o predestinado enviado por uma profecia para livrar a terra de um grande mal. Apesar de Bruce Campbell estar impecável nesse terceiro filme (não que no segundo ele não esteja também), o terror e o splatter são completamente deixados de lado e Raimi assume de vez o viés cômico da franquia.

Maldita cabeça falante!

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Uma Noite Alucinante está atualmente fora de catálogo.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] Animal é o auge do cinema splatstick. Por mais que filmes anteriores como Uma Noite Alucinante, Re-Animator – A Hora dos Mortos-Vivos e A Volta dos Mortos-Vivos tenham se esforçado, Peter […]

  2. […] ar de “terrir” somente nos anos 80 com fitas como A Volta dos Mortos-Vivos, A Hora do Espanto e Uma Noite Alucinante. O sucesso foi tão grande que ganhou uma continuação no ano seguinte: A Câmara de Horrores do […]

  3. Andrigo Mota disse:

    Ash, a lenda. Best B guy ever. Sem mais meretíssimo

    • Geison Silva disse:

      Não querendo ser chato, mas esse filme é demais… Muitas coisas alucinantes, coisas para te fazer rir, super da hora.

  4. […] A Noite dos Arrepios) e o eterno Bruce “Ashley J. Williams” Campbell (de A Morte do Demônio e Uma Noite Alucinante) e uma baita dose de crítica contra a política, a corrupção e a violência policial. Tem até […]

  5. […] A Morte do Demônio (mas o personagem Scott ganhou esse nome em homenagem ao mesmo), mas escreveu Uma Noite Alucinante. Sam Raimi, muito mais acostumado a estar do outro lado das câmeras, faz o papel do açougueiro […]

  6. Diego/RS disse:

    Sem dúvida, “Uma noite alucinante” é muito idiota (o título, digo, referindo-me à enquete : ).

    Mas, inacreditavelmente, não assisti ao primeiro nem ao segundo… só ao terceiro, e foi quando entrou no cinema, acho que lá pelo início da década de 90… eu e uns amigos, acreditando se tratar de um terrorzão, estávamos na frente do cinema e decidimos arriscar… e, para nossa surpresa, dê-lhe pastelão non-sense na Idade Média! rssss

    Mas valeu pra dar umas risadas (como comédia, se sai bem mesmo!), e, claro, conferir que Bruce Campbell é mesmo um mito!! (O cara nem parece um ser humano de verdade, parece mais com um personagem de desenho animado que ganhou vida ou algo assim, rsss… certamente Jim Carrey bebeu – embora talvez não o suficiente – dessa fonte.)

  7. […] é o tom cômico. Enquanto A Morte do Demônio é trash com toda aquela pegada do gore e da gosma, Uma Noite Alucinante já envereda pelo caminho do camp e do splatstick. Já o terceiro filme da trilogia deixa […]

  8. […] (que ainda nos anos 80 fez maquiagem de A Hora do Pesadelo, Videodrome – A Síndrome do Vídeo e Uma Noite Alucinante). Além disso, vale a pena destacar a cena em que Bubba é atacado por um enxame de insetos […]

  9. […] Tapert produzisse, toda a patota de A Morte do Demônio. Mas como todos estavam envolvidos em Uma Noite Alucinante, acabou não saindo do papel. Só fica então aquela velha pergunta hipotética: e […]

  10. […] Ted Raimi, irmão de Sam Raimi, fake shemp em A Morte do Demônio e a velha Henrietta possuída em Uma Noite Alucinante, entre outros.. E os sobrenomes dos personagens: Finney, Beaumont, Derleth e Demerest são todos […]

  11. […] vezes para sua equipe enquanto rodava O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei) com seus splatsticks Uma Noite Alucinante (a mais óbvia) e Fome Animal. Roth tenta, de sua forma, atualizar os trejeitos desses dois […]

  12. […] aconteceria caso Ash não tivesse sido sugado pelo portal que o levou de volta no tempo ao final de Uma Noite Alucinante. Começa com Ash (dublado por ninguém menos que o próprio Bruce Campbell) em um asilo para […]

  13. […] Evil Dead reúne todos os elementos que transformaram A Morte do Demônio e suas duas sequências, Uma Noite Alucinante e Uma Noite Alucinante 3 em objeto de verdadeiro culto e adoração dos fãs. Está tudo lá: um […]

  14. […] para o meu filho essa visão fofinha para ressuscitar os demônios kandarianos, inspirado em Uma Noite Alucinante de Sam […]

  15. […] Mestre Cilindro”, com alguns trocados que ainda tinha no bolso da grana que ganhou com Uma Noite Alucinante. Vale esse revisitada agora que ele tá de novo na crista da onda por conta de Ash Vs. Evil […]

  16. […] ruim? Seria Fome Animal mais que algo desenvolvimento puramente para entreter? O que dizer de Uma Noite Alucinante? Ou até mesmo Halloween – A Noite do Terror? Claro, pode-se argumentar que Halloween […]

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