537 – Os Olhos da Cidade São Meus (1987)

angustia

Angustia / Anguish

1987 / Espanha / 86 min / Direção: Bigas Luna / Roteiro: Bigas Luna / Produção: Pepón Coromina; Xavier Visa (Produtor Associado); George Ayoub, Andreu Coromina (Produtores Executivos) / Elenco: Zelda Rubinstein, Michael Lerner, Talia Paul, Angel Jové, Clara Pastor, Isabel García Lorca

 

O espanhol Os Olhos da Cidade São Meus (e por que Jeová ele não manteve o título original, Angústia, aqui no Brasil e surgiu mais essa bizarrice?), dirigido por Bigas Luna, é um excelentíssimo exercício de terror, suspense e metalinguagem.

Na real ele é metalinguístico até a medula, só que você não se dá conta disso até a metade do filme, quando o espectador tem um verdadeiro choque e pensa: “opa, mas esse filme é ainda mais interessante do que eu pensava”. Pelo menos essa foi minha conclusão quando o assisti pela primeira vez, de forma tardia, quando lançado em DVD pelo selo Dark Side da Works Editora, lá em meados da década passada. E já estava gostando MUITO da película.

Começa pela atenção prendida por aquele velho truque marqueteiro do cinema de dizer que o filme tem cenas fortes, podem impressionar e atormentar o público, sendo que no saguão do cinema há enfermeiros para ajudar. A trama, escrita pelo diretor, é simples, didática e direta ao ponto. Logo na primeira cena já vemos muito bem os desvios psicológicos dos dois personagens principais muito bem delineados: a Sra. Pressman (vivida pela excepcional Zelda Rubinstein, que você deve conhecer mais como Tagina de Poltergeist – O Fenômeno) e seu filho John (Michael Lerner). Aquela típica relação doentia entre mãe controladora e filho submisso está presente, mas aqui ele é levado um patamar superior.

Afaste-se da luz Carol Anne!

Afaste-se da luz Carol Anne!

John trabalha como auxiliar de oftalmologista, porém é diabético e está perdendo a visão (além de ser muito sensível a esse assunto). Uma paciente reclama de uma lente de contato, humilhando o rapaz e fazendo com que ele seja repreendido no hospital que trabalha. Ao desabafar para a mamãe, descobrimos que a velha é uma LOUCA DE PEDRA que hipnotiza o próprio filho para que ele saia pela cidade coletando olhos humanos para sua bizarríssima coleção. Primeiro ele parte em busca dos globos oculares da mulher que reclamou dele, matando-a, assim como seu marido, retirando os órgãos com um bisturi.

Até aí o filme já está ótimo, com uma cena bem sangrenta e aflitiva do olho sendo arrancado, como uma espécie de toque gore ao Um Cão Andaluz de Buñuel. Mas para a surpresa do espectador a cena começa a afastar e BINGO! Estamos no cinema e aquilo nada mais é que um filme chamado “The Mommy”, dirigido por um tal Sanul Agib (anagrama com o nome do diretor, Biga Lunas). Sim, é isso mesmo, estamos vendo um filme dentro de um filme. Olha a metalinguagem aí.

Então em paralelo a história de John e sua mãe, temos o desenrolar de uma subtrama (ou trama principal?) na sala de exibição, onde a jovem Patty (Talia Paul) está sentindo-se nervosa e incomodada com o teor sugestivo da película e começa a ficar paranoica, achando que um sujeito qualquer na plateia é o assassino. Pois bem, John Pressman, hipnotizado pela megera, invade um cinema e começa a arrancar os olhos dos espectadores, o que vai criar um pânico generalizado.

Foi numa sessão das dez...

Foi numa sessão das dez…

Eis que realidade e ficção (dentro da ficção) se misturam e influenciado pelo teor do filme, um maluco no cinema (Ángel Jové) com os mesmos problemas psicológicos e controle maternal resolve também começar a matar gente dentro do local. Tudo acaba convergindo para uma cena em que ambos fazem uma pessoa como refém (no caso aqui a Patty que teve razão em desconfiar do sujeito desde o começo) e seu final, mostrando o quanto a moça também acabou afetada com a projeção e abrindo aquela velha discussão de quanto um filme pode mesmo ser influenciador de comportamento ou gatilho para alguma psicose (na hora me veio o paralelo com o sujeito que entrou abrindo fogo com uma Uzi no cinema do Shopping Morumbi após assistir Clube da Luta).

Tudo isso já seria o suficiente para ser um ótimo filme, mas ainda há as cenas de hipnose que são verdadeiramente perturbadoras e até nauseantes. A Sra. Pressman utiliza todos os artifícios possíveis para a lavagem cerebral no filho, como: espirais, pêndulos, luzes, ecos, efeitos sonoros e até caracóis, filmado em close para também deixar o espectador baratinado.

A cena final também é incrível, mas não entrarei em detalhes aqui e nem farei nenhum SPOILER. E claro, fique até o final dos créditos, que irá explodir sua mente (não, não terá nenhuma cena de Os Vingadores 2: A Era de Ultron). Então se quer uma dica de um filme de terror redondo e fora dos padrões convencionais do que se vinha fazendo na época, Os Olhos da Cidade são Meus é a pedida.

Fio da navalha

Fio da navalha

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Os Olhos da Cidade São Meus está atualmente fora de catálogo.

Download: torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Alexandre disse:

    Este filme realmente é fantástico. Apresentei para meus colegas nas minhas aulas de pós-graduação e o pessoal ficou bem assustado.

  2. Eduardo carvalho disse:

    comprei esse dvd por R$ 1,99 kkkk
    tem muito numa loja aqui em BH. Muito bom!

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