543 – Terror na Ópera (1987)

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Opera / Terror at the Opera

1987 / Itália / 107 min / Direção: Dario Argento / Roteiro: Dario Argento, Franco Ferrini / Produção: Dario Argento; Mario Cecchi Gori, Vittorio Cecchi Gori (Coprodutores); Ferdinando Caputo (Produtor Executivo) / Elenco: Cristina Marsillach, Ian Charleson, Urbano Barberini, Daria Nicolodi, Coralina Cataldi-Tassoni, Antonella Vitale

 

Assistir a um filme de Dario Argento é assistir a todos os filmes de Dario Argento, e Terror na Ópera é a prova cabal disso, quer você goste ou não. E mais, essa volta ao giallo que o consagrou com sua trilogia dos animais e Prelúdio Para Matar, é uma espécie de compêndio de todos os elementos cinematográficos do diretor italiano nas duas décadas anteriores e considerados por muitos como seu último grande trabalho.

Quando falo em compêndio, isso vale para o bem ou para o mal. Argento em seu projeto mais ambicioso e de maior orçamento (que acabou se mostrando um fracasso retumbante de público e crítica) mais uma vez coloca acima de tudo sua busca pela estética perfeita, abusando de ângulos inusitados, cortes abruptos, travelling ousados, câmera subjetiva emulando a visão de assassino, testemunha e até corvos, colocando o espectador quase que sempre no primeiro plano das ações.

Em contrapartida, Terror na Ópera derrapa, e feio, no roteiro (que convenhamos, nunca foi muito a preocupação do diretor), com aquela mesma ladainha gialli que estamos carecas de ver em praticamente todas as produções do gênero, com seus whodunit à la Edgar Wallace, furos inexplicáveis no roteiro, situações pra lá de inverossímeis e um daqueles finais rocambolescos (que obviamente envolve sexismo e trauma de infância) onde se você prestar o mínimo de atenção já sabe quem é o assassino na primeira vez que ele aparece na película. Isso sem mencionar a sempre péssima direção de atores características.

De olhos bem abertos

De olhos bem abertos

Então talvez esse seja o maior bode de Terror na Ópera. Faz lá mais de dez anos que Suspira (para mim, sua obra-prima) fora lançado e desde então, por mais que seja absolutamente do caralho a forma com que Argento conduza suas obras do ponto de vista artesão de se fazer cinema impecável, o uso pontual de trilha sonora (mecânica, efeitos sonoros e a estrambólica mistura de música clássica, rock progressivo e heavy metal) e a sempre exagerada ultraviolência que atinge o limite do impressionável e aflitivo aqui, simplesmente você não consegue manter um linha de interesse (e de raciocínio) em todo o longa que não seja essas imagens e sequências maravilhosas esparsas.

Escrito por Argento e Franco Ferrini, uma jovem soprano, Betty (Cristina Marsillach, considerada pelo cineasta a atriz mais problemática com quem já trabalhou) é escolhida para atuar na ópera Macbeth de Verdi no lugar de uma grande atriz que se machucou (colocada na conta de uma espécie de maldição ao redor da obra), dirigida de forma inusitada e inovadora por um conhecido diretor de filmes de terror, Marco (Ian Charleson), inspirado no próprio Argento. A ópera conta com efeitos especiais grandiosos e uma revoada de corvos que vira e mexe são colocados em cena. Só que um assassino psicopata maníaco pervertido vestido de luva preta de couro (sempre) e máscara começa a perseguir Betty e matar impiedosamente membros da produção (e corvos, informação muito importante uma vez que eles serão responsáveis pela descoberta da identidade do assassino, já que segundo os roteiristas, eles são criaturas vingativas e nunca se esquecem de quem lhes fizera mal).

E por falar em “matar impiedosamente”, esse definitivamente é o ponto alto da película para os fãs do Argento, onde somos agraciados com brutalidade sangrenta ímpar. E não é só isso, o sadismo do assassino da vez extrapola qualquer outro vilão do giallo italiano, e olha que já vimos todo tipo de perversão. O psicopata simplesmente amarra Betty e coloca esparadrapo com agulhas em suas pálpebras para que ela não possa fechar seus olhos e assista impassível todas as mortes aterradoras de suas vítimas. Então dá-lhe facadas, tesouradas e por aí vai. Outra cena não menos que fantástica é quando a personagem de Daria Nicolodi (já ex-mulher de Argento nessa altura do campeonato) está olhando pelo buraco da fechadura e toma um tiro no olho em câmera lenta.

O gooooooooore

O gooooooooore

Mas como disse lá em cima, o problema é que a história não consegue se sustentar. Impressionante como Betty, depois da experiência traumática de ser testemunha ocular da primeira vítima, simplesmente NÃO CHAMA a polícia, e tem um diálogo PÉSSIMO sobre sua frigidez com Marco no carro, como se absolutamente nada de, no mínimo escabroso, tivesse acontecido. Toda a virtuose do diretor e sua obsessão pela imagem consegue apenas criar uma espécie de rejeição absurda do espectador no decorrer do filme de tão canhestro é seu desenrolar.

E depois de descobrirmos o assassino (no que chamo do “estratagema dos corvos”), suas motivações sexuais e o suposto embate final com a mocinha que sobrevive, ainda há tempo para um epílogo completamente desnecessário, e vou abrir espaço para um ALERTA DE SPOILER para comentá-lo, então volte no próximo parágrafo ou leia por sua conta e risco. Depois de forjar seu próprio incêndio, demora UMA CARA para a polícia descobrir que o assassino fugiu e que um manequim, sim um manequim, havia sido queimado em seu lugar. Na boa, plástico derretendo e gente derretendo, você descobre no MESMO segundo a diferença.

A película ainda representa uma espécie de ponto de ruptura na carreira e vida de Argento, que pontua o final de um ciclo estilístico do diretor, iniciado em Suspiria (com todos os demais filmes tendo seu título original em latim: Inferno, Tenebre, Phenomena) que ora engendrou pelo sobrenatural, ora pelo suspense italiano. Mas infelizmente, a obra vindoura de Argento foi para o buraco, nunca mais se encontrou até hoje, e está aí Drácula 3D que não me deixa mentir. Então aprecie Terror na Ópera com fervor literalmente como se fosse o último.

Olhos pregados

Sem piscar

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Terror na Ópera não foi lançado no Brasil

Download: Torrent + legenda aqui.

 

 


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Papa Emeritus disse:

    Pra mim é um dos melhores filmes do Argento. Mesmo sendo clichê. Mas é um clichê copiado dos próprios filmes dele. Embora tenha sido Mario Bava quem levou os Giallos para o cinema, Dario Argento foi quem fez com maior maestria esse “sub-gênero” (se é que podemos chamar assim). Suspiria e Prelúdio Pra Matar são as obras-primas do Argento, mas a “trilogia dos animais”, Tenebre, Inferno e Terror Na Opera pra mim são ótimos filmes. Phenomena é que eu não gosto muito, embora não ache ruim. E é verdade, depois de Terror Na Opera a filmografia do Argento foi descendo ladeira abaixo. Abraços!

  2. Niia Silveira disse:

    Argento com síndrome de Fulci <3

  3. […] anteriores e tendo realizado filmes bem medianos ou abaixo da crítica, como Phenomena, Tenebre e Terror na Ópera. Chegar a Hollywood (ainda de forma tão tardia) fatalmente faria com que seu filme se enquadrasse […]

  4. […] (O Pássaro das Plumas de Cristal, O Gato de Nove Caudas, Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza), Terror na Ópera, considerado um último grande filme do diretor italiano e, de lambuja, uma hora de extras […]

  5. Gus disse:

    Verdade,

    Tinha visto fazia muito tempo e gostado. Acabei de rever, não me lembrava nada e o filme realmente é muito cheio de cliclês (no mal sentido) e o roteiro daqueles que dá muita raiva devido aos furos e comportamento das personagens.

    Ele causa a impressão de ser o ultimo grande Argento por algumas imagens e realmente tem cenas bem executadas e um grande orçamento. Porém é mais o ultimo filme onde parece vermos uma pretensão estética em Argento do que um grande filme.

    Pena que depois disso ele deu um foda-se a qualquer estética ficando apenas os roteiros furados e ai não há nada que salve. Se ainda tivesse uma grande tomada para nos dar essa doce ilusão de um grande filme.

    PS: não vou nem comentar o louva deus gigante.

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