55 – A Sétima Vítima (1943)

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The Seventh Victim


1943 / EUA / P&B / 71 min / Direção: Mark Robson / Roteiro: Charles O’Neal, DeWitt Bodeen / Produção: Val Lewton / Elenco: Tom Conway, Jean Brooks, Isabel Jewell, Kim Hunter, Evelyn Brent, Hugh Beaumont


 

Como já venho dito por aqui, a safra de filmes de terror da RKO Radio Pictures produzidas por Val Lewton de 1942 a 1946, foi um verdadeiro divisor de águas no gênero, indo em contramão de tudo que a Universal vinha fazendo até então, explorando suas franquias de monstros até não poder mais. A Sétima Vítima, primeiro filme do até então montador Mark Robson é mais um tiro certeiro do estúdio.

Mais uma vez é utilizada a fórmula que consagrou as produções de terror do estúdio, estipuladas por Lewton: “uma história de amor, três cenas de horror apenas sugeridos e uma de violência explícita. Tudo terminado em 70 minutos”.  Com enfoque muito maior em uma história de suspense, com conteúdo adulto e expressão do medo sugerido ao invés do explícito, A Sétima Vítima lida com um tema pouquíssimo explorado até então no cinema, porém controverso até os dias de hoje: uma seita satânica.

Em uma trama mórbida e pessimista, Mary Brooks (interpretada por Kim Hunter), uma doce e singela garota órfã é obrigada a se mudar para Nova York em busca de sua irmã Jacqueline, desaparecida sem deixar nenhuma pista. Então em um clima crescente de suspense que prende a atenção do espectador, contado por uma intricada teia de acontecimentos, Mary acaba se aproximando do Dr. Gregory Ward (Hugh Beaumont), que na verdade é marido de Jacqueline, que também não obteve sucesso em descobrir o paradeiro da garota.

Auxiliada pelo psicanalista Dr. Louis Judd (Tom Conway) e pelo poeta decadente Jason Hoag, Mary descobre que sua irmã vem sendo protegida pelo médico de uma terrível seita diabólica conhecida como Paladistas, culto a qual ela era adepta até então, mas está sendo perseguida exatamente por revelar alguns detalhes do grupo secreto, e segundo um dos principais mandamentos da seita, qualquer pessoa que revele algum segredo interno é considerada uma traidora, e aos traidores é reservada a morte. E no caso, essa é a sétima vez que isso acontece, sendo que  em todas as outras seis, o responsável foi assassinado. Por isso o título do filme.

Quase uma Cleópatra

Quase uma Cleópatra

O grande problema é que Jacqueline encontra-se perdida e sem saber o que fazer, e depois que é descoberto seu paradeiro, continua fragilizada e assustada, tendo que lutar por sua vida contra a conspiração. Como se não bastasse, Mary e Ward acabam se apaixonando. Ou seja, A Sétima Vítima é recheado de personagens solitários, dúbios e calculistas que lutam contra sentimentos distintos em uma trama que mistura razão e medo. O final é completamente fora dos padrões do que vínhamos vistos até então (ALERTA DE SPOILER): por fim Jacqueline acaba se suicidando em um ato desesperado, abrindo caminho para que a irmã e o ex-marido acabem juntos.

Apesar de o roteiro ser meio corrido e apresentar alguma fragilidade, deixando passar alguns detalhes que poderiam ser muito mais perturbadores e bem aproveitados se o filme não fosse resultado de um orçamento limitado e metragem tão curta, algumas cenas são bastante memoráveis, prova de que Robson seguiu a cartilha que Jacques Torneur havia criado nos filmes anteriores para a RKO, como Sangue de Pantera, A Morta-Viva e O Homem Leopardo, utilizando muito bem o jogo de luz e sombras e mensagens subentendidas, abusando dos nervos do espectador ao limite e nunca deixando nada escancarado.

Duas sequências chamam muito a atenção em A Sétima Vítima: A primeira é uma cena em que Mary está no chuveiro e é visitada pela lésbica Sra. Redi, ex-sócia de Jacqueline em uma indústria de cosméticos, também participante da seita. Mary está a mercê da vilã, protegida apenas por uma cortina de plástico, onde vemos a heroína de costas e a sombra de Redi ao fundo, lembrando muito, mas muito mesmo, a clássica cena do chuveiro de Psicose (lançado quase vinte anos depois). Outra é quando nos é apresentada a ordem dos Palladi, um grupo de homens e mulheres da alta sociedade que praticam adoração ao diabo (porém sem nenhuma referencia concreta a sacrifícios ou bruxarias, mais uma vez mantendo-se as ideias no campo da especulação), que também lembra muito outros cultos conspiratórios de filmes como O Bebê de Rosemary e As Bodas de Satã da Hammer.

A Sétima Vítima é mais um excelente exemplar do que Val Lewton conseguiu fazer com o cinema de horror, que além de imprimir uma nova forma de assustar e de contar histórias com um potencial psicológico muito maior para uma plateia mais refinada, percebe-se claramente toda a influência que seus filmes deixaram para a posterioridade, além de sempre manter um pé em temas modernos e atemporais, como: uma seita satânica aristocrática e suicídio aqui; repressão feminina e sexualidade em Sangue de Pantera; cárcere, obsessão e cerceamento das vontades em A Morta Viva; e um assassino com desequilíbrios mentais vítima de um acontecimento chocante em O Homem Leopardo. Temas esses que não cairiam no problema de se tornarem datados e ingênuos com o passar dos anos, como grande parte dos filmes da época.

Um complô dos diabos!

Um complô dos diabos!



Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

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  1. […] responsável por alguns dos melhores filmes de terror da década de 40, como Sangue de Pantera, A Sétima Vítima e A Morta-Viva, tem na direção o diretor Robert Wise, o mesmo de filmes como Desafio do Além, O […]

  2. […] seminal filme de Roman Polanski, mas com diversos excelentes exemplares (lembrando aqui de cabeça: A Sétima Vítima, A Noite do Demônio, As Bodas de Satã, A Irmandade de Satanás, entre outros). As incertezas […]

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