550 – Campo 731 – Bactérias, A Maldade Humana (1988)

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Hei tai yang 731 / Men Behind the Sun

1988 / Hong Kong, China / 105 min / Direção: Tun Fei Mou / Roteiro: Mei Liu, Wen Yuan Mou, Dun Jing Teng / Produção: Fu Chi; Hung Chu (Produtor Executivo) / Elenco: Gang Wang, Zhaohua Mei, Runsheng Wang, Jianxin Chen, Hsu Gou

Toda vez que se faz uma lista ou conversa-se sobre o bendito tema “filmes polêmicos” em algum botequim, o infame Campo 731 – Bactérias, A Maldade Humana (MAS CUSTAVA CHAMAR-SE APENAS CAMPO 731??????) entra na roda. E não é para menos já que ele é (infelizmente) baseado em uma história verídica da mais pura e nefasta, hã, maldade humana.

A primeira vez que tive contato com o filme foi no começo da década passada em um sebo no centro da cidade, onde olhando os DVDs e VHS antigos, me deparo com a fita lançada aqui no Brasil pela América Vídeo (SAUDOOOOOSA AMÉRICA VÍDEO) e todo seu alarde com letras garrafais em vermelho na contracapa (ATERRORIZANTE, VIOLÊNCIA E CARNIFICINA, EXPERIÊNCIAS E MORTE, LOUCURA E DESESPERO) e os cautelosos dizeres “ALERTA: ESTE FILME CONTÉM CENAS MUITO FORTES E CHOCANTES, PROIBIDO PARA CARDÍACOS”. Porra, não tem como você não ficar curioso em assisti-lo. Logo ao chegar em casa o baixei no saudoso eMule com uma Internet velocíssima de 128kbps, levando dias e dias até o término do download.

Na verdade praticamente todo esse exagero é verdade, mas como gato escaldado que sou (e muito de vocês devem ser também), não é pra tudo isso também. A verdade nua e crua é que Campo 731 – Bactérias, A Maldade Humana pode ser um baita sacal para a geração torture porn. E se você está a fim apenas da barbárie, o filme demora para engrenar quando os testes humanos com os prisioneiros do campo de concentração 731 começam de verdade, e até lá o que se mostra é um didático e quase documental longa sobre as atrocidades cometidas pelo exército japonês durante a Segunda Guerra Mundial.

E falando em tom documental, a pesquisa histórica do diretor Tun Fei Mou é de uma acurácia impressionante, uma vez que como locação foi usado o verdadeiro quartel general do 731 (que era uma escola na época), na província de Habin, na Manchúria e teve apoio do Exército de Libertação Popular que proveu recrutas e armamento para a realização do longa. Isso sem contar o uso de cadáveres REAIS em todas as cenas.

Frost bite

Frostbite

A Unidade 731, comandada pelo crudelíssimo, demente e meticuloso Tenente General Shiro Ishii (Gang Wang) foi responsável por um sem número de crimes de guerra realizados pelo Exército Imperial Japonês, que se assemelhavam aos experimentos nazistas, onde prisioneiros civis chineses, soviéticos, filipinos e aliados – que eram chamados de “troncos”, ou pelo menos é o que diz a legenda – eram usados como cobaias para testes de armas bacteriológicas (levando aproximadamente DUZENTAS MIL PESSOAS à morte) e todo tipo de experiência sórdida.

Nisso você coloca na conta vivissecções, onde todos os órgãos eram retirados da vítima ainda viva (!!!???), exposição a mudanças extremas de temperatura, aprisionamento em câmara de gás e câmaras de descompressão, onde pesquisadores analisavam quanto tempo demorava para a pessoa cagar o próprio intestino (como visto em uma das cenas mais chocantes do filme).

Enquanto isso, jovens japoneses eram recrutados pelos membros da unidade para formar um  tropa jovem, que desde cedo vão aprendendo a desprezar os “troncos” e a assistir as terríveis experiências, passando por uma poderosa lavagem cerebral (mas que acaba não dando muito certo para todos tamanha a crueldade dos malfeitores). Nessa toada de assistir as experiências, outra cena fortíssima é quando uma jovem chinesa é colocada sobre temperaturas abaixo de zero e tem seus braços congelados. Ela então é levada para a “câmara experimental de congelamento”, ainda viva, mergulha sua mão em um tanque de água a 15ºC, após ficar exposta a 10 horas em uma temperatura de -35ºC. Depois o sujeito simplesmente arranca com as mãos a pele de seus membros atrofiados, deixando apenas o esqueleto (nesta cena também foram usados braços de cadáveres humanos).

Foi crucificado, morto e sepultado...

Foi crucificado, morto e sepultado…

Outra cena deplorável para aqueles que têm estômago forte é quando um garoto chinês mudo é levado para uma mesa de operação e vivissecado, tendo seus órgãos completamente removidos, onde mais uma vez um cadáver de uma criança morta em um acidente que casava perfeitamente com o ator mirim é usado (o que é claramente perceptível, uma vez que eles abrem o bucho do moleque e nenhuma gota de sangue esguicha) e nos momentos em close foi feita uma “autópsia” em um suíno.

Mas nada é mais odioso que a cena onde um gato é jogado em um ninho infestado de ratos e é devorado vivo pelos roedores. Apesar da precariedade do orçamento e da inexistência de uma indústria de efeitos especiais na China, o realismo grotesco da cena impressiona e muita gente até hoje acha que o “método italiano de crueldade animal” foi usado, mas na verdade, o gato foi coberto de mel e os ratos apenas deram algumas lambidinhas, sendo entregue depois são e salvo a seu dono. Mas ao final, quando os japoneses estão prestes a perder a guerra e obrigados a encerrar a Unidade 731, e devem explodir e destruir todas as evidências, nos mesmos ratos é ateado fogo de verdade. Nem Bruno Mattei foi tão desalmado assim.

O maior absurdo de tudo é que apesar de vermos uma dramatização, imaginar que todas as aberrações que aconteceram no 731 são verdadeiras e os japoneses fizeram de tudo para esconder a sua existência, com o Tenente General Ishii chegando a se safar com a ajuda dos americanos, que lhe deu anistia em troca de dados de pesquisa, sendo que os crimes de guerra mantiveram-se em segredo. Mou inclusive por muito tempo quis fazer o filme como uma forma de mostrar ao mundo aquele período monstruoso da história asiática, porém encontrou resistência do governo da República Popular da China (ah, vá!) que tinha medo de atrapalhar o relacionamento comercial e econômico com os japoneses. Inclusive por isso a citação logo no começo, que você não entende o porque, é “Amizade é amizade, história é história”.

Exatamente o fato de Campo 731 – Bactérias, A Maldade Humana ser tão fidedigno que te dá aquela sensação terrível e um embrulho no estômago ao assistir. E esses filmes “baseado em fato reais”, principalmente quando se trata da II Guerra Mundial, um passado tão recente e tão negro da humanidade, refutam mais uma vez aquela máxima que os piores monstros somos nós mesmos, e não aqueles da ficção do cinema de terror.

Maldade humana

Maldade humana

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Campo 731 – Bactérias, A Maldade Humana não foi lançado no Brasil.

Download: Filme + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

17 Comentários

  1. Andrigo Mota disse:

    É sinistro esse ae. Lembro que vi e falei “essa budega eh real”!!

    Japão detonou com a China, depois a China se auto-detonou-a-si-mesma pra matar o purtugueis bunito (Viva Mao!)

  2. Papa Emeritus disse:

    Esse eu não vi. Mas só em você falar da cena do gato me lembrei do filme Sátántangó do diretor húngaro Béla Tarr. Nesse filme tem uma cena de uma garota (de 10 ou 12 anos) torturando um gato de verdade durante uma tomada de 10 minutos seguidos SEM CORTE e obrigando o bicho a comer veneno. Em Cannibal Holocaust pelo menos matavam os bichos de maneira rápida, mas nesse filme húngaro tem uma CRIANÇA torturando um gato até a morte. E pior, depois a garota fica passeando com o corpo do gato pra lá e pra cá em boa parte do filme, e dá pra ver que é o corpo do gato mesmo, não é nenhum boneco nem nada disso. Esse filme tem 7 horas de duração e eu assisti a essa porra todinha, hahahahahaha.

  3. Henrique disse:

    Caramba, usaram mesmo cadáveres?! Vi esse filme lá no início dos anos 90, achei chocante na época, mais pelo fato de se basear em experimentos reais do que por esses detalhes sórdidos da produção. Meu limite com violência em filmes é justamente este, a partir do momento que usam cadáveres, torturam ou matam animais eu já começo a achar uma babaquice total. É injustificável, isso é cinema, fantasia, nada disso é necessário! Bom, pelo menos o gato sobreviveu, rs. Agora, os japoneses foram realmente maus, basta lembrar do Massacre de Nanquim, li um artigo sobre isso e fiquei dias sem conseguir tirar os depoimentos dos sobreviventes da cabeça. O nível de maldade neste episódio é algo chocante até para o mais escaldado fã de terror.

    • Papa Emeritus disse:

      Eu também penso assim. Usar sangue de mentira, truques cinematográficos, etc, é uma coisa. Usar corpos de verdade, ou matar animais de verdade, já é doentio. Eu por exemplo não acho Cannibal Holocaust um filme ruim. Ele tem gore, tem mulher pelada e essas coisas que gosto num filme de terror. Mas as cenas das mortes dos animais me incomodam. Eu não sou de nenhuma ong ou orgão protetor dos animais, mas essas coisas de fato acho bizarras. No meu post acima eu citei o filme Satantango do Béla Tarr, que não é um filme de terror, é um drama “art-house” de 7 horas de duração. O filme é até bom, mas tem a cena da garota torturando um gato de verdade, essa cena do filme me incomodou pra caralho, e não é só por terem torturado o gato durante 10 minutos seguidos até ele morrer, mas é também porque botaram uma CRIANÇA pra fazer isso. Eu acho que essas coisas poderiam ser evitadas nos filmes. Dá pra ser verossímil usando truques, não precisa torturar e matar os animais de verdade, nem precisam usar corpos de pessoas de verdade. Em vários filmes que se tornaram cults e clássicos a gente vê corpos que tão na cara que são bonecos e nem por isso estragaram esses clássicos por conta disso.

  4. Anna disse:

    gostei muito do seu post. interessante, eu moro no japão . esses monstros não tiveram enterro de honra. . nem são lembrados. so lembro que uma vez um debil mental na tv foi falar algo do tipo, lembrar dos soldados. foi um rebuliço terrivel, chineses entraram em afronta com os japoneses que moram na china. ou a grande cidade chinesa daqui do japao teve um clima pesado. eu penso assim, o japao foi parado pelos estados unidos. se desarmaram, prometeram nunca mais usar arma. sao completamente a mercê dos americanos para protege-los. e penso outra coisa, nao se deve atacar toda uma nação por causa dos loucos e monstros do passado. e nem os civis da epoca. eu vi essa mesma materia em outro blog. e confesso que fiquei com medo de falar algo do que eu achava em ralaçao a narracao do dono do blog dizer como se o japao ate hoje fosse como era no tempo da guerra.

    • Oi Anna. Obrigado pelo comentário. Pois é, os crimes de guerra cometidos durante a WWII foram horrendos. Não se deve generalizar, como dizer, por exemplo, que todo alemão era ou é Nazista. Mesma coisa com os japoneses. Foi um momento terrível da humanidade que despertou o lado terrível de muita gente, e uma das funções do cinema é lembrar esses momentos, até como um alerta.

  5. Nanda Sato disse:

    maldade com animais de verdade, eu vi em um video o cara jogou um gato para o pit bull dilacerar ele. maldade humana não tava so na epoca de guerra no japao não, tambem vi um americano aterrorizando uma criança de um ano com um cao feroz, nem tive coragem de ver o resto. com certeza ele soltou o cachorro pra matar a criança

  6. luis henrique disse:

    a maldade,desgraça,massacre e carnificina continuam acontecendo por aí,em casos isolados ,não só por japoneses ,alemães,americanos….em todo canto do mundo sempre existe mentes doentes.

  7. wallace disse:

    finalmente achei onde baixa.

  8. Quem é esse Bruno Mattei? MONSTROS que torturam animais tem que estar na cadeia!!!! Não assistam filmes dele,ele não merece um centavo. Vida longa ao veganismo! m/ 🙂

  9. vanessa hofstatter disse:

    gente o link não ta funcionando

  10. Assisto muito filme sangrento, mas sei que é ficção e tudo tem limite. Tem coisa que não consigo assistir, maldade humana sempre existiu e sempre existirá, é o mal do ser humano. Ele é capaz de ir de um extremo ao outro, como ser completamente altruísta e ser totalmente hediondo e doentio. É o mal do homem de fato, e o mal é da sua natureza.

  11. Otávio disse:

    Lembro que a primeira vez que assisti isso achei que fosse só uma ficção barata, mas, alguns meses depois estudando sobre história me deparei com a história desses experimentos. O filme é bem perturbador (a cena da câmara de descompressão é a pior para mim), mas pretendo assistir novamente.
    ~~~~O link do MEGA está off, sei que faz quase dois anos dede o post mas poderia atualizar?
    Qualquer coisa entre em contato comigo ~~ [email protected]

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