553 – Eles Vivem (1988)

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They Live

1988 / EUA / 93 min / Direção: John Carpenter / Roteiro: John Carpenter / Produção: Larry Franco; Sandy King (Produtor Associado); Andre Blay, Shep Gordon (Produtores Executivos) / Elenco: Roddy Piper, Keith David, Meg Foster, George Flower, Peter Jason, Raymond St. Jacques

 

John Carpenter veio com Eles Vivem mascar chiclete e chutar bundas. Mas os chicletes acabaram. E Carpenter chuta MUITAS bundas com este que é sem dúvida um de seus melhores filmes.

Sci-fi espertíssimo com uma caralhada de mensagens em suas entrelinhas, tantas quantas os alienígenas que estão infiltrados em nosso planeta colocam em propagandas, revistas, outdoors e programas de televisão para manter os terráqueos no cabresto, enquanto praticam sua política nefasta ao melhor estilo gafanhoto, em colonizar um planeta, extrair todos seus recursos possíveis e depois picar a mula. É praticamente um PSDB espacial que vemos em Eles Vivem.

Carpenter aproveita sua fase de filmes independentes para a produtora Alive Films, que inclui o anterior Príncipe das Sombras, e dispara sua metralhadora giratória em forma de ficção científica metafórica contra a alienação, o consumismo, a apatia e a evidente luta de classes e desigualdade social. Os alienígenas podem viver escondidos, camuflados entre os humanos, mas a sua mensagem para a população são claras e cristalinas, nem um pouco diferente do que vivemos nos dias de hoje: “obedeça”, “consuma”, “não pense”, “não questione a autoridade”, “esse é o seu Deus” – que está impresso nas notas de dinheiro.

A vida como ela é!

A vida como ela é!

Há uma conspiração velada acontecendo e bem no olho do furacão é jogado John Nada, vivido pelo lutador de wrestler Roddy Piper, que vai até Los Angeles em busca de emprego. Consegue um bico em uma construção e se enturma com Frank (Keith David) que mora em uma ocupação de sem tetos junto com outras famílias. Até que uma bela noite, ao melhor estilo PM do Geraldo Alckmin, a polícia chega descendo o cacete nos moradores e destruindo todo o assentamento.

Isso tudo porque na verdade, um grupo de resistência está se formando por ali, que sabem toda a nefasta verdade e pretendem abrir os olhos da população por meio de sinais piratas que aparecem nas transmissões de TV e óculos especiais onde àqueles que os usa pode ver a verdadeira esquelética face dos alienígenas e suas mensagens subliminares espalhados por todos os lugares. Depois de escapar do quase Pinheirinho, Nada descola um desses óculos e resolve se juntar a resistência, convencendo também Frank, mas não antes de sair na mão com ele em uma cena de dez minutos de porradaria de macho, como só os anos 80 poderiam proporcionar.

Outro ponto de crítica pesada em Eles Vivem é que para que todo aquele complô galáctico pudesse ser montado na Terra, alguns humanos teriam de estar envolvidos. E obviamente são os figurões, políticos, executivos de TV, propaganda e magnatas. Gente que trocou sua individualidade e até sua essência humana em troca de poder e fortuna. Enquanto os operários da construção civil, gente normal e os sem-teto só tomam pau e usados como massa de manobra. A esquerda contra a direita na visão de Carpenter.  Engraçadíssimo esse post vir ao ar bem depois das eleições aqui no Brasil em que essa dicotomia se encaixa perfeitamente e foi ampla e selvagemente discutida.

Chicletes, alienígenas e um cano fumegante

Chicletes, alienígenas e um cano fumegante

E Carpenter, provavelmente putíssimo da vida naqueles tempos, também aproveita para meter o dedo em feridas, tanto da política econômica de Ronald Reagan, quanto dos esnobes críticos de cinema, explícito em um das últimas (e clássicas) cenas, onde uma versão alienígena de Gene Siskel e Roger Ebert, que apresentavam o programa “Siskel & Ebert & The Movies” denunciam diretores como Carpenter e George Romero pelo uso gratuito da violência, algo que faziam habitualmente (só lembrarmos a resenha que Siskel detonou A Noite dos Mortos-Vivos anos antes).

Mas deixando o tema sério um pouco de lado, o jeitão canastríssimo de Piper é um show a parte, uma vez que Nada leva o filme sozinho todo nas costas durante praticamente toda a projeção. O sujeito bronco que começa calado e desconfiado de tudo e todos, de repente quando resolve abrir a boca começa a soltar pérolas uma atrás da outra, que entraram para o cânone dos principais quotes do cinema de terror. A mais clássica é obviamente a “Eu vim aqui mascar chiclete e chutar bundas, mas os chicletes acabaram”, quando ele entra munido de sua calibre doze em um banco, ou quando tromba com uma das alienígenas feiosas vistas através das lentes do óculos especial e solta: “você precisa é de um cirurgião plástico brasileiro”. Olha lá nossa fama graças aos Ivos Pintaguys e Drs. Reys da vida!

Dirigido e escrito por Carpenter (sob o pseudônimo de Frank Armitage), baseado no conto “Eight O’Clock in the Morning” de Ray Nelson, Eles Vivem é um senhor sci-fi que trouxe o mestre de volta à velha forma, algo que não se via plenamente desde O Enigma de Outro Mundo, que coincidentemente é sobre outra invasão alienígena, só que mais visceral e menos ideológica. Ambas, perigosíssimas.

Eu prometo que no meu governo...

Eu prometo que no meu governo…

Serviço de utilidade pública:

Compre o DVD de Eles Vivem aqui.

Download: Torrent + legenda aqui.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=iJC4R1uXDaE]

 

 


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

15 Comentários

  1. fabio disse:

    Bons são vocês do PT, que estão afundado o país na roubalheira

  2. Diego Lobato disse:

    Ótima resenha e depois de “Enigma” e “Loucura” é o meu preferido do Carpenter.

  3. “É praticamente um PSDB espacial que vemos em Eles Vivem”

    Já já vai aparecer algum babacão que non lê o blog te chamar de petralha ou cosa parecida!

    Acompanho teu blog faz tempo e já te linkei lá, bambinno Marcos!

    Depois vá lá ver o texto que eu escrevi sobre um sci-fi de ação que mexe com política também – “Timecop”!

    Arrivederci!

  4. Tony Sarkis disse:

    Post sensacional, parabéns!!! Esse filme é demais mesmo!! Meu preferido do Carpenter.

  5. Daniel disse:

    Caramba! Assisti 15 minutos durante a hora do almoço e já deu pra ver que é muito bom, agora tenho que voltar ao trabalho. Vai ser difícil aguentar a ansiedade até a noite quando terei uma f
    olga para voltar ao filme.

  6. Allan disse:

    Filmaço!
    Carpenter chutando traseiros dos coxinhas espaciais,ehehe.

  7. raphael de araujo disse:

    Eu sou apaixonado por esse filme! Só acho que ele poderia se levar um pouco mais a sério em alguns momentos. Seria o Clube daLuta do Carpenter. Fora isso é um filme ótimo!

  8. Alexandre disse:

    Um dos meus preferidos de Carpenter. Fantástico. Só mais uma informação. A história de Ray Nelson foi publicada em novembro de 1963 em The Magazine of Fantasy & Science Fiction e depois adaptada para os quadrinhos em 1986, sendo publicada na comic book anthology Alien Encounters. Neste link, vocês conseguem acessar a revista: http://sapcomics.blogspot.com.br/2012/01/nada.html

  9. Aureliano disse:

    Crítica sensacional!
    Ri demais com você comparando os aliens aos tucanos kkkkkk

  10. Eduardo disse:

    Excelente filme, clássico dos anos 80!!!

  11. […] 2) “Eu vim aqui mascar chicletes e chutar bundas. E eu estou sem chicletes!” – Nada – Eles Vivem […]

  12. Assisti ontem o filme no SESC – Joinville (15/11/2016). Muito bom, já vi filmes como “Truque de Mestre” (1 e 2), o nº 3 ainda esta no forno. Livros como 1984 e Admiravel Mundo Novo.
    “Ordem atraves do caos” – Adagio latino
    “Você acredita em discos voadores!!” – (Flavio Cavalcanti) – *1923 – +1985

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