559 – Instinto Fatal (1988)

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Monkey Shines

1988 / EUA / 113 min / Direção: George A. Romero / Roteiro: George A. Romero (baseado no livro de Michael Stewart) / Produção: Charles Evans; Peter R. McIntosh (Produtor Associado); Peter Grunwald, Gerald S. Paonessa (Produtores Executivos) / Elenco: Jason Beghe, John Pankow, Kate McNeill, Joyce Van Patten, Christine Forrest, Stanley Tucci

Nesta altura do campeonato George A. Romero havia finalizado o que seria até então sua trilogia dos mortos, que contou com A Noite dos Mortos-Vivos, Despertar dos Mortos e Dia dos Mortos, e deixando de lado os zumbis putrefatos canibais, resolveu encarar a empreitada de um terror psicológico, com toques de eco-horror e trabalhar pela primeira vez para um grande estúdio, a Orion Pictures.

O resultado foi Instinto Fatal (que também foi lançado no Brasil em VHS como Comando Assassino). Este é mais um daqueles casos em que esse blogueiro se pega pela memória afetiva da infância, quando esse filme passou lá na Tela Quente há muito tempo. Acredito nunca ter revisto depois dessa época. Não esperava muito, afinal, é o filme sobre uma macaquinha ciumenta assassina (que na verdade foi ~interpretada por um macho chamado Boo). E realmente tinha razão em não esperar.

Instinto Fatal é muito irregular, com uma história cheia de baboseiras das mais difíceis de engolir, mas, tem o nome de Romero por trás das câmeras, então o que poderia ser uma aberração trash, ao melhor estilo Shakma – A Fúria Assassina (para ficar no campo dos símios psicopatas) transforma-se em um thriller com bons momentos de tensão e horror subentendido (diferente dos trabalhos viscerais do diretor com seus mortos-vivos).

O contexto sócio-político-cultural que Romero imprimiu na trilogia dos mortos aqui dá lugar a todo tipo de sentimento sórdido e desvios psicológicos que o homo sapiens pode ter, desde a mais pura mesquinharia humana, passando por ciúmes, raiva, vingança, falta de ética científica e por aí vai. Todo esse caldo está no entorno da vida de Allan Mann (Jason Beghe) que muda drasticamente após sofrer um atropelamento. O até então atleta e estudante de direito se vê tetraplégico (por conta de um erro médico, diga-se de passagem), confinado a uma cadeira de rodas.

Everybody macacada...

Everybody macacada…

Como tudo que está ruim pode piorar, sua noiva, Maryanne (Chritine Forrest), não aguenta o tranco e a pilantra dá um fora no sujeito, para ficar exatamente com o médico arrogante que o operou, o Dr. Josh Wiseman (o futuro indicado ao Oscar Stanely Tucci), ele começa a ser cuidado por uma enfermeira bruaca, Linda (Janine Turner), e sua mãe superprotetora, Dorothy (Joyce Van Patten) está sempre por perto agindo daquele jeito que só as mães sabem fazer.

Allan deprimido e sem perspectiva nenhuma, revoltado com sua situação (que já seria difícil para qualquer um, imagine então para um atleta de alta performance) até tenta o suicídio mas é encontrado pelo seu amigo, o geneticista Geoffrey Fisher (John Pankow), que trabalha fazendo experiências com macacos para aumentar sua inteligência. Vendo o estado miserável do amigo (e com o rabo na reta por conta dos seus experimentos não apresentarem resultados, diga-se de passagem) resolve procurar a treinadora de macacos, Melanie Parker (Kate McNeill) oferecendo Ella, a sua principal cobaia, para que seja treinada para auxiliar Allan em suas tarefas cotidianas.

Allan fica extremamente ligado à macaquinha, volta aos estudos, vê uma nova razão em viver, se apaixona por Melanine e tudo está ótimo, até que por conta dos experimentos nefastos de Geoffrey, a inteligência avançada de Ella começa a se mostrar uma ameaça quando um elo telepático (???!!!) é criado entre ele e o animal de estimação, e toda sua raiva e frustração começam a ser canalizadas no bichinho (que por algum motivo inexplicável consegue também potencializá-lo), que passa a revelar instintos assassinos, matando sua ex-namorada, o médico, o passarinho da enfermeira pentelha e até a mãe do sujeito. Ah vá! Isso sem contar o ciúme obsessivo incontrolável que o pet desenvolve.

Os pontos altos do filme são exatamente os momentos de suspense, principalmente o embate final onde sabemos da limitação física do personagem e sua impotência. Todos os demais personagens se tornarem vítimas de um macaco furtivo daquele tamanho já é baboseira. Ella brilha muito (desculpe, foi um trocadilho infame com o título original do longa, Monkey Shines) na transição de um animal dócil para uma criaturinha agressiva psicótica. A atuação de Allan também segura as pontas, já que passa o filme inteiro sentado, mexendo só a boca e a cabeça e isso exige um trabalho hercúleo (temos que relevar o fato do sujeito ficar meses tetraplégico sem se exercitar e não atrofiar os músculos e continuar ali saradão – mas, posso falar besteira porque não sou fisioterapeuta, nem personal trainer, então me corrijam se uma pessoa conseguir mesmo se manter em forma daquele jeito por tanto tempo sem exercícios, musculação, etc). O final feliz hollywoodiano é intragável.

Instinto Fatal se salva do desastre total pela forma que é executado por Romero, afinal sabemos muito bem do que o mestre é capaz. Mas mesmo assim, a experiência com um grande estúdio não foi boa para o diretor, que apresentou um corte diferente do seu que o desagradou, o que fez com que ele voltasse para o cinema independente mais uma vez, só retornando a trabalhar para os poderosos em 1993, em A Metade Negra, baseado no texto de Stephen King, ironicamente financiado pela mesma Orion Pictures.

Fígaaaaaaaaro!

Fígaaaaaaaaro!

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Instinto Fatal não foi lançado no Brasil.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

7 Comentários

  1. Parece que o final feliz foi exigência dos produtores.

    O cara pode non fazer exercício, mas a parceira dele sim. Não é nesse filme que ela usa uno negócio parecido com uno aparelho de ginástica para eles poderem fazer sexo?

  2. Alexandre disse:

    O final feliz foi uma imposição do estúdio. Este é um caso em que a versão do diretor seria bem vinda.

  3. Nelson disse:

    Na verdade, o primeiro trabalho de Romero para um grande estúdio foi “Creepshow, Arrepios de Medo” (1982), pela Warner Bros.
    Vi esse aqui há muitos e muitos anos em VHS, lembro de pouca coisa mas na época lembro de ter gostado. Preciso rever!
    Parabéns pelo ótimo site.
    Um abraço!
    Nelson

    • Oi Nelson, mas se não me engano, Creepshow foi distribuído pela Warner Bros. e produzido de forma independente pelo Richard P. Rubinstein, da Laurel Entertaniment, a mesma dos outros filmes do Romero, não?

  4. Gilberto disse:

    vc sabe o nome de um filme de macacos babuinos. eles atacaram uma aldeia. muito legal o filme

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