570 – O Soro do Mal (1988)

brain-damage-film-poster

Brain Damage

1988 / EUA / 84 min / Direção: Frank Henenlotter / Roteiro: Frank Henenlotter / Produção: Edgar Ievins; Ray Sundlin (Produtor Associado); Andre Blay, Al Eicher (Produtores Executivos) / Elenco: Rick Hearst, Gordon MacDonald, Jennifer Lowry, Theo Barnes, Lucille Saint-Peter

Frank Henenlotter é um retardado do caralho. E levantemos as mãos aos céus por isso. Depois de Basket Case, sua seminal bagaceira lançada em 1982, o diretor volta mais uma veze suas lentes para a trasheira repleta de gore, cenas nojentas, efeitos especiais toscos, decadência social de seus personagens, humor negro e nonscence no talo em O Soro do Mal.

O longa na verdade é uma metáfora ao uso de drogas. Mas não pense que ele funciona como um estudo profundo sobre os efeitos nocivos dos entorpecentes nos jovens e sobre o universo junkie e underground de Nova York no final dos anos 80. Na verdade essa nem era a intenção, apesar do grande teor de conscientização que ele traz em suas entrelinhas. O lance é você chutar o pau da barraca mesmo, algo que Henenlotter sabe fazer com maestria em seus filmes, exatamente por saber contornar com criatividade e com roteiros malucos, a falta de um orçamento decente.

Pensando um pouco em Basket Case, dá para perceber que o diretor aproveitou os mesmos elementos pontuais aqui em O Soro do Mal: temos novamente como pano de fundo uma NY decadente e um jovem que vive uma relação de dependência com uma criatura disforme e vice-versa, morando em um mequetrefe prédio de apartamentos.

Tirando a cera do ouvido...

Tirando a cera do ouvido…

Esse jovem é Brian (Rick Hearst), que se torna hospedeiro de um parasita tosquíssimo e fanfarrão chamado Aylmer (que tem a voz não creditada de John Zacherle), com o formato de uma lesma com olhos e boca, capaz de injetar uma substância diretamente em seu cérebro que lhe dá um puta barato (quando isso acontece, vemos um close da sua massa encefálica com o líquido azul sendo gotejado, seguido de uma série de reações elétricas). Mas não pense que nada disso é de forma deliberada, não. Em troca de seu “suco”, ele precisa se alimentar de miolos humanos.

Pronto, por meio deste enredo simples, está construída toda a trama que vai permear a vida do sujeito, que irá entrar em um caminho sem volta, cada vez precisando mais e mais do “tóchico” a ponto de cometer assassinatos para que Aylmer se delicie com seus cérebros, primeiro de forma inconsciente, durante sua trip cheia de cores e sensações, mas depois, obrigando-se a compactuar com o parasita, principalmente quando ele decide abandonar o vício, passa por um cold turkey nervoso, mas o sacana de fala suave consegue o convencer, tão forte já é sua dependência.

Na verdade Aylmer merece um parágrafo a parte. Assim como Belilal consegue ser o grande personagem de Basket Case, a mesma coisa acontece aqui com a lesma ilícita. Primeiro ele consegue convencer Brian a cair como um patinho, provando que a sensação que ele passa é uma delícia, que fará apenas bem e para que tenha sua total confiança. Acho que esse seria mesmo o diálogo de um noia com sua droga. Depois, antes da pesada cena de desintoxicação, Aylmer se mostra extremamente confiante que o hospedeiro vai acabar cedendo, como todos o fazem, e ainda até cria uma musiquinha de escárnio, parecendo um stop motion da Disney às avessas. Interessante também a breve passagem quando o antigo hospedeiro de Aylmer conta sua origem, e descobrimos que ele é uma criatura que existe desde o começo dos tempos, como o próprio uso de drogas em si, e sempre foi disputada entre as pessoas, causando efeitos devastadores.

Bola gato

Bola gato

Mas como disse lá em cima, isso não é um tratado sobre o efeito das drogas na destruição da vida dos jovens, da instituição familiar (há uma briga com seu irmão, que também não o ajuda na recuperação por ter outros interesses em comum, por assim dizer), das relações amorosas (agindo de forma abrupta com sua namorada), do adultério e sexualidade. É um filme trash com todo seu esplendor, servido de toneladas de cenas gráficas, sangue a rodo, efeitos caricatos de Aylmer, cérebros pulsantes no lugar de almôndegas em um prato de macarrão em uma das viagens de Brian e claro, a antológica e grosseira cena do boquete forçado de uma garota na criatura fálica, que acaba por sugar seu cérebro.

E falando mais uma vez de Basket Case, há até uma própria homenagem metalinguística de Henenlotter ao seu filme anterior. No metrô, Brian está obcecado, esquadrinhando os passageiros a procura de um cérebro quando quem entra no vagão? Exatamente Duane Bradley, carregando sua infame cesta de vime, provavelmente com Belial em seu interior. <3

O Soro Maldito é aquele tipo de podreira que só poderia ter sido feita nos anos 80, com seu humor ácido, toda sua situação controversa e a forma politicamente incorreta de tratar de um tema sério de saúde púbica, sangue em profusão, efeitos especiais ridículos e muita tosqueira como cúmplice da quase total falta de recursos. Mas tudo isso nas mãos de um cara como Frank Henenlotter, se torna um deleite para os fãs.

Dorgas

Dorgas

Serviço de utilidade pública:

O DVD de O Soro do Mal não foi lançado

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

5 Comentários

  1. Vai rolar “Frankenhooker” e “Bad Biology” no blog?

  2. […] italiano da década passada, pitadas de humor negro e lembrar outros filmes B de gabarito, como O Soro do Mal de Frank […]

  3. […] com o cinema de terror, fazendo dos assuntos citados acima o mote de suas bagaceiras, seguindo com O Soro do Mal e chegando aqui em Frankenhooker já no começo da década de 90, mas todo enraizado nos […]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

%d blogueiros gostam disto: