598 – Dois Olhos Satânicos (1990)

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Due occhi diabolici / Two Evil Eyes

1990 / Itália, EUA / 120 min / Direção: George A. Romero, Dario Argento / Roteiro: George A. Romero, Dario Argento, Franco Ferrini (baseados na obra de Edgar Allan Poe) / Produção: Achille Manzotti; Dario Argento, Claudio Argento (Produtores Executivos) / Elenco: Adrienne Barbeau, Ramy Zada, Bingo O’Malley, E.G. Marshall, Harvey Keitel, Madeleine Potter, John Amos, Tom Atkins

Romero e Argento juntos dirigindo um filme com contos baseados na obra de Edgar Allan Poe. “That’s a BINGO!” diria o Col. Hans Landa! Dois Olhos Satânicos acerta na mão e traz dois dos mestres do terror em boa forma, abusando de liberdade criativa, mesclando o sobrenatural, o gótico e o gráfico em ótimos média-metragens.

Originalmente, Argento queria que o filme fosse uma antologia, colaboração entre SÓ os quatro nomes mais fodas do terror naqueles tempos: ele mesmo, George A. Romero, John Carpenter e Wes Craven, adaptando as importantes e influentes obras do escritor americano. Mas infelizmente Carpenter e Craven acabaram desistindo do projeto. Mas isso não abalou o italiano, que tocou a produção ítalo-americana em frente, com Romero se incumbindo do primeiro segmento, “O Caso do Sr. Valdemar”, e Argento do segundo, “O Gato Preto”.

Seria impossível filmar “O Caso do Sr. Valdemar” em um média de uma hora de duração, então Romero abusou da livre adaptação e conseguiu acertar a mão. Ernest Valdemar (Bingo O’Malley) é um velho senhor ricaço que está nas últimas, sofrendo de uma doença que lhe dá pouco tempo de vida. Sua esposa, a calculista e gananciosa Jessica (Adrienne Barbeau) então, com a ajuda do médico, seu amante e especialista em hipnose, o Dr. Robert Hoffman (Ramy Zada), igualmente calculista e ganancioso, coloca em prática o plano para ficar com toda a herança milionária de Valdemar. Por meio de hipnose comandada por Hoffman, o velho assina a papelada e também convence seu advogado, Steven Pike (E.G. Marshall) de que toda sua fortuna deve ficar para ela.

Cold Valdemar

Cold Valdemar

Tudo está correndo bem e Jessica só precisa que o velho aguente as pontas por mais três semanas, para que toda a documentação do testamento tenha sido resolvida. Certa noite, ainda sob o efeito da hipnose, Valdemar acaba falecendo. Para não perder a bolada, o casal resolve levar seu corpo até o freezer no porão para que não apodreça, e descobrem que Valdemar está em um estágio entre a vida e a morte, hipnotizado, com sua mente aprisionada em seu corpo sem vida, implorando para ser acordado e poder descansar em paz. Acontece que ao mesmo tempo, nesse plano espiritual límbico, criaturas chamadas por ele de “outros” estão tentando abrir espaço para nosso mundo, usando a consciência de Valdemar como porta. Então ao melhor estilo Romero, eis que o velho volta à vida como um zumbi vingativo, e uma espécie de acerto de contas cármico e sobrenatural está prestes a acontecer. Parece que além do conto em si, a inspiração de Romero e a zumbificação de Valdemar também veio da trilogia Muralhas do Pavor, estrelado por Vincent Price e dirigido por Roger Corman durante seu famoso ciclo de adaptações da obra de Poe para os cinemas.

“O Gato Preto” de Dario Argento, a meu ver, é o melhor trabalho do italiano desde Suspiria. Em nenhum dos seus vários outros filmes ele conseguiu atingir um nível tão bom quanto este média. Apesar de não abusar de vários recursos estéticos comuns em suas obras, como os planos de câmera elaborados, fotografia, jogo de luzes e a hiperviolência estilizada, Argento aposta em uma direção mais simples e bruta, sempre permeado pelas influências do suspense de Hitchcock e o giallo de Bava, e foge dos conceitos rocambolescos de suas outras produções. Além é claro, de mesclar várias referências da obra de Poe como easter eggs, prestando um belo de um fan service.

Harvey Keitel (simplesmente incrível) vive Roderick Usher (em alusão ao conto “A Queda da Casa de Usher”), um fotógrafo policial que se especializou no mórbido trabalho de fotografar assassinatos brutais. Conhecemos seu ofício lúgubre ao clicar uma vítima nua partida em duas por um pêndulo afiado (em alusão a “O Poço e o Pêndulo”). Outro crime captado por suas lentes está uma mulher que foi exumada para ter todos seus dentes extraídos por seu primo (em alusão a “Berenice”, em uma ponta de Tom Savini trajado como Poe, uma vez que o conto é em primeira pessoa e realmente o escritor se casou com sua prima). Aquele trabalho logicamente ia mexer com qualquer um, mas parece ter um efeito delicioso para Usher.

Um gato preto cruzou a estrada...

Um gato preto cruzou a estrada…

Certo dia, uma gata preta aparece em sua casa, acolhida por sua namorada, Annabel (em alusão ao conto “Annabel Lee”), papel de Madeleine Potter. Logo vemos que um não foi com a cara do outro, e claro que sabemos que em determinado momento do desenrolar da história, Usher vai matar o bichano. A partir daí, com o fotógrafo cada vez mergulhando mais em insanidade e atitudes violentas, e com o sumiço do felino, o seu relacionamento com Annabel irá degringolar e ele acabará matando a mulher, emparedando-a, tal qual o conto. Não sei se é SPOILER para você ou não, se já o leu ou assistiu a algumas de suas muitas adaptações para o cinema, mas a polícia vai descobrir o corpo por conta dos miados incessantes do gato atrás da parede. A grande diferença é que Argento é Argento, e um dos momentos mais extremos do longa é quando descobrimos o corpo da mulher putrefato, devorado por uma ninhada de gatinhos que foram enterrados junto com a gata grávida. É de embrulhar o estômago! A grande tropeçada é a extensão da conclusão, que vamos admitir, foi desnecessária e das mais bestas.

Entre as demais referências neste segmento, há uma bartender chamada Eleonora e também o vizinho de Usher chama-se Sr. Pym. Nunca lhe é dito o primeiro nome, mas aposto um picolé de limão que deva ser Arthur Gordon. Outro grande ponto positivo por trás de Dois Olhos Satânicos é a presença do veterano Tom Savini cuidando da maquiagem e a trilha sonora de Pino Donaggio. Mais um nome famoso dos fãs do horror é o de Luigi Cozzi, diretor de segunda unidade do longa.

Romero e Argento souberam muito bem captar a obra de Poe e transportar diversos dos principais temas recorrentes em sua escrita em Dois Olhos Satânicos, que facilmente entra para aquela lista dos melhores exemplares cinematográficos baseados nos contos de um dos mais prolíficos e inspiradores nomes da literatura fantástica de todos os tempos.

Show de horrores

Show de horrores


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

6 Comentários

  1. Papa Emeritus disse:

    Eu to há tempos procurando esse filme pra baixar. Vou aproveitar o link que você colocou. Abraços.

  2. Vinicius disse:

    Preciso tomar coragem pra reassistir esse filme. O segmento do Romero, há 20 anos atrás, me deixou sem dormir durante duas semanas seguidas, fora o medo que eu senti durante um bom par de anos de abrir e fechar o guarda roupa com porta espelhada. Eu ainda sinto calafrios só de olhar a capa do filme, brrrrrr

  3. alessandrols disse:

    O link não é bom grande e com poucos seeds.

  4. […] em seu currículo Dia dos Mortos, Vamp – A Noite dos Vampiros, Aliens – O Resgate, O Escondido, Dois Olhos Satânicos, a refilmagem de A Noite dos Mortos-Vivos e olhem só, Necronomicon – O Livro Proibido dos […]

  5. […] 2) Dois Olhos Satânicos (1990) […]

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