600 – Frankenhooker – Que Pedaço de Mulher (1990)

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Frankenhooker

1990 / EUA / 85 min / Direção: Frank Henenlotter / Roteiro: Robert Martin, Frank Henenlotter / Produção: Edgar Ievins; James Glickenhaus (Produtor Executivo) / Elenco: James Lorinz, Joanne Ritchie, Patty Mullen, J. J. Clark, C.K. Steefel, Shirl Bernheim, Judy Grafe, Louise Lasser, Helmar Augustus Cooper

 

Frank Henenlotter é uma espécie de David Cronenberg às avessas. Tudo bem que tirando suas devidas proporções, assim como o cinema do canadense, Henenlotter adora filmar sobre a carne, bizarrices científicas, vícios, críticas sociais e má pratica da medicina, mas claro, que com os dois pés enfincados no trash e sem a menor pretensão de se levar a sério. Frankenhooker – Que Pedaço de Mulher é mais um exemplo cabal disso.

Aliás, um ínterim aqui antes de continuar o texto: mas que GENIAL quem colocou esse subtítulo com o trocadilho zueiro: “que pedaço de mulher”. Meus parabéns, ó! Voltando, Henenlotter entrou de vez no “ramo” ao entregar a pérola da trasheira Basket Case, já dando uma prévia das suas intenções para com o cinema de terror, fazendo dos assuntos citados acima o mote de suas bagaceiras, seguindo com O Soro do Mal e chegando aqui em Frankenhooker já no começo da década de 90, mas todo enraizado nos 80’s.

O título já diz a que veio de forma bem clara. A tradução literal seria algo como “Frankenprostituta”, fazendo uma analogia ao famoso monstro de Frankenstein e as profissionais da noite. Então já pode se esperar que bagaceira e escracho, marcas registradas de Henenlotter que sempre andam juntas em sua obra, viria por aí. A trama nos apresenta Jeffrey (James Lorinz) um sujeito que trabalha como eletricista, mas sua verdadeira paixão é a medicina, fazendo bicos, tipo reconstruindo um cérebro e lipoaspirações em sua noiva, Elizabeth Shelley (veja se tanto o nome quanto sobrenome da personagem lhe é familiar).

Peitos! Quem quer peitos? Peitos, fresquinhos!

Peitos! Quem quer peitos? Peitos, fresquinhos!

Elizabeth tem um problema de autoestima, pois é um pouco “cheinha” e tem compulsão em comer pretzels, já tentado várias dietas e sendo veladamente censurada por sua mãe com relação ao peso. Em um churrasco de aniversário de seu pai, ela morre de uma forma acidentalmente trágica e sanguinária, sendo esfacelada por uma máquina de cortar grama, construída por Jeffrey de presente para o sogrão. O corpo da mulher fica severamente mutilado e irreconhecível, apenas com sua cabeça e poucas partes intactas, essas que misteriosamente sumiram.

Misteriosamente para a polícia e imprensa, pois Jeffrey as roubou para manter em um freezer boiando dentro de um composto químico a base de estrógeno que desenvolveu para que não apodrecesse, e assim, varrido por uma onda de depressão e obsessão quanto a ressuscitar a moça, resolve esperar uma forte tempestade que se aproximará nos próximos dois dias e galvanizar a ex-noiva, para trazê-la a vida, tal qual o Dr. Frankenstein. Mas como ele não possui um corpo inteiro irá atrás de prostitutas para escolher só as melhores partes das garotas, afinal se você vai reconstruir a noiva, nada do que pegar umas gostosas, ideia que ele teve por meio de um interessante e maluco processo criativo: enfiar a broca de uma furadeira em sua cabeça, para realizar uma espécie de lobotomia, que faz com que acelere seus pensamentos e lhe dê ideias mirabolantes.

Pois bem, como se não bastasse todos os problemas de ordem social e psicológica apresentados por Jeffrey, eis que Henenlotter mais uma vez mexe na ferida do “mundo cão” nova-iorquino dos anos 80 e 90, também um dos grandes elementos de sua filmografia (como já visto em Basket Case e O Soro do Mal). A prostituição e o vício de drogas é o tema da vez, principalmente a relação entre as rameiras e seu cafetão, no caso o caricato Zorro (Joseph Gonzales), um sujeito todo saradão, de bigode, que usa regatas coloridas e calças estampadas, além de um medalhão com um Z no peito, que também é traficante e fornece crack para as meninas fumarem. Aproveitando o problema das crackwhores, Jeffrey cria então o “supercrack” usando de seus conhecimentos químicos. Só que há um terrível efeito colateral, ao ser fumado, ele faz com que as pessoas EXPLODAM!

Beijo de novela

Beijo de novela

Jeffrey marca uma festinha com várias alcoviteiras, com a consciência limpa, pois “quem irá mata-las é a droga, e não ele” e ao fumarem, elas explodem em pedaços (em uma cena ridiculamente engraçada com manequins estourando) e então é só o “cientista louco” colocar suas partes em um saco de lixo e levar para reconstruir a amada, terminando com a necessidade de ter que jantar à luz de velas só com sua cabeça decapitada nas noites solitárias. Usando as mãos de uma, as pernas de outra, a bunda de outra, as tetas de outra, ele reconstrói Jennifer, mas óbvio que o experimento dará errado, pois ela voltará em um mix de personalidades de todas as meretrizes.

Ainda vai rolar um acerto de contas com o Zorro, uma vez que todas as suas meninas desapareceram, a nova Elizabeth sairá pelas ruas de Nova York pegando clientes e usando seus poderes elétricos para que eles explodam, e no final um embate monstruoso entre Jeffrey e as demais partes das prostitutas descartadas, que se juntaram em massas disformes de membros, bocas e órgãos sexuais, até a conclusão em sua última cena, surpreendente, quando ele acaba pagando por seus experimentos e por “brincar de Deus” da forma mais bizarra possível.

Frankenhooker – Que Pedaço de Mulher é todo Henenlotter. Seu cinema ácido, de humor negro e com toda a pitada de trash sem medo de ser feliz, com efeitos especiais e de maquiagem toscos, que não se leva a sério, mas esconde uma profunda crítica social por de trás está ali presente, e ainda funciona como uma bela e escrachada homenagem aos clássicos de cientista louco da Era de Ouro de Hollywood e do sci-fi dos anos 50, tudo com o resquício da estética do terrir dos anos 80, em seus últimos suspiros ao adentrar na década seguinte.

Frankenstuta

Frankenstuta

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Frankenhooker – Que Pedaço de Mulher não foi lançado no Brasil.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

5 Comentários

  1. “Frank Henenlotter é uma espécie de David Cronenberg às avessas.” – Melhor definição que eu já vi nesse site, parabéns!

    Você estava sendo irônico com relação ao subtítulo nacional? Pq eu achei fantástico de verdade!

  2. Papa Emeritus disse:

    Eu amo esse filme, hahahahahahaha. É uma mistura de bagaceira com humor negro. Uma combinação perfeita.

  3. allanfastcore disse:

    Este já é de 90 mas ainda fede à anos 80.
    Acho que o filme teve uma boa inspiração no clássico O Cérebro que não queria morrer.

  4. Seria exagero dizer que esse filme tem um final feminista?

  5. FailMontage disse:

    as legendas do franknhooker não estão funcionando !

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