624 – Drácula de Bram Stoker (1992)

Bram_Stokers_Dracula

Bram Stoker’s Dracula

1992 / EUA / 128 min / Direção: Francis Ford Copolla / Roteiro: James V. Hart (baseado no livro de Bram Stoker) / Produção: Francis Ford Copolla, Fred Finch, Charles Mulvehill; James V. Hart, John Veitch (Coprodutores); Susie Landau (Produtora Associada); Michael Apted, Rober O’Connor (Produtores Executivos) / Elenco: Gary Oldman, Winona Ryder, Anthony Hopkins, Keanu Reeves, Richard E. Grant, Cary Elwes, Billy Campbell

 

Aposto que esse vai ser mais um daqueles posts impopulares. Mas, eu tenho um RANÇO tão grande de Drácula de Bram Stoker, novelão de Francis Ford Copolla. Simplesmente pela pretensão em ser A versão definitiva e artística do livro do irlandês, que é na verdadeira uma cafonalha de doer quando envereda por um argumento que simplesmente INEXISTE no livro o qual é baseado.

Tá bem, vamos separar aqui o joio do trigo para escrever esse texto. Drácula de Bram Stoker é impecável em todos os aspectos que se trata de figurino, efeitos sonoros e maquiagem, tanto que ganhou três Oscars® nessas categorias e ainda foi indicado por direção de arte (que é deslumbrante). Isso sem contar os efeitos especiais, que vão de efeitos óticos até os bons e velhos truques de câmera, a linda fotografia e direção primorosa de Copolla. Isso eu não nego, não.

Mas, é um novelão da porra! O prologo do filme é duca, com Gary Oldman matando a pau como Vlad Tepes, déspota da Transilvânia lutando pela Igreja Católica para deter a avançada turca contra Constantinopla, e empalando um e outro pelo caminho (daí seu apelido simpático, Vlad, o Empalador). Num ato tacanho, os turcos otomanos enganam a sua esposa, Elisabeta (Winona Ryder) dizendo que ele fora morto em batalha e ela se suicida. Como a Igreja não tolera aqueles que tiraram a própria vida, Vlad fica puto achando que seu Deus abandonou e sacaneou seu guerreiro, e blasfema, amaldiçoando a cruz, bebendo sangue e é condenado a viver a eternidade como a criatura noturna que conhecemos de outras encarnações (leia-se Bela Lugosi e Christopher Lee). Começa que na verdade o personagem foi levemente inspirado no príncipe Vlad mas NUNCA em nenhum momento do livro ele se refere ou dá a entender que ele é o próprio como afirma o longa.

Príncipe das sombras

Príncipe das sombras

Daí vem a já conhecida história do advogado Jonathan Harker (papel do sempre péssimo e inexpressivo Keanu Reeves, escolhido por Copolla a contragosto para ter um ator “jovem e quente” no elenco para chamar a moçadinha) indo para o castelo do Conde lhe vender propriedades em Londres. Enquanto isso, Mina (também vivida pela Ladrona, digo, Winona Ryder) espera sua volta para se casarem, hospedada na casa da lasciva Lucy Westerna (Sadie Frost), cuja maior preocupação é escolher entre o amor do Lorde Arthur Holmwood (Cary Elwes), do texano Quincey P. Morris (Billy Campbell) e do Dr. Jack Seward (Richard E. Grant), que trabalha no manicômio onde está internado Renfield (Tom Waits) – sempre um personagem que rouba a cena desde Drácula de 1931 – e seu peculiar gosto por moscas, esperando pela chegada do mestre.

Essa primeira metade do filme também é simplesmente fantástica, com as cenas mais emblemáticas da produção: o visual carcomido do envelhecido Drácula, tal qual é sua descrição asquerosa no texto de Stoker e até hoje adaptado como nenhum outro em Nosferatu – Uma Sinfonia de Horror, dizendo suas frases clássicas (“Eu sou Drácula”, e “Crianças da Noite. Que música eles fazem”), as brincadeiras com a sombra da criatura, sua lambidela na navalha suja de sangue do pescoço de Harker, a luxúria de suas noivas e o bebê dado a elas de petisco, e a sua indefectível risada maligna (que era como terminava o comercial da Band na época em que o filme foi exibido na televisão, lembra?).

Mas aí, meu amigo e amiga, depois que o velho membro da ordem do Dragão pega o navio russo Dimitri e zarpa para a Inglaterra, o filme caga no pau de vez. Não que não tenha mais ótimos momentos, como quando Van Helsing (um afiado Anthony Hopkins) aparece para botar ordem na porra toda, Lucy se transforma em uma vadia vampira e os nossos heróis combatem o vilão se transformando numa espécie de morcego humano mutante e depois uma pilha de ratos. Todo o problema é aquele romance mela cueca entre ele e Mina.

Começa tudo errado com a história dela ser a encarnação de sua amada, Elisabeta. Oi? De onde Copolla e o roteirista James V. Hart tiraram isso? Não quero ser xiita e nem uma adaptação ipsis literis da obra literária, mas essa paixão do sujeito que “atravessou oceanos de tempo para te reencontrar” com a futura esposinha de Harker, e todo o dramalhão que se segue por conta desse amor secular, derruba o filme de uma forma impressionante, fugindo absurdamente do texto. Aquele Drácula dândi de cartola, óculos redondos e suas longas madeixas andando pelas ruas de Londres, todo bonitão, é algo tão absurdamente longe da figura cravada por Stoker nas páginas, que é apenas uma criatura vil, tosca, maligna que só quer Mina Harker mesmo para chupar o seu sangue, sem nenhuma das pataquadas adicionais sentimentalóides do filme.

Vade retro!

Vade retro!

O amor nunca morre? Essa é a tagline de Drácula de Bram Stoker? Mais uma vez, de onde eles tiraram essa ideia? Esse é o mote inventado para todo o filme e toda a motivação de uma criatura das trevas que só quer umas boas jugulares. E o que me deixa mais puto, e por isso considero o filme de Copolla um pretensioso embuste, é que eu me senti miseravelmente enganado depois que li o livro.

Claro que eu vi o filme antes. Porra, era década de 90, eu era uma criança e não leria Drácula. A primeira vez que o fiz eu já estava na faculdade, onde peguei emprestado na biblioteca, e digo que foi um dos livros mais importantes da minha vida, por questões pessoais que não vem ao caso. Eu sempre tive na cabeça que claro, licença poética a parte, Drácula de Bram Stoker era o mais fiel e próximo do livro, e esperava pela história de amor, por Mina ser a encarnação de Elisabeta, pelo final onde ela tem de matar o amado ao prantos. Imagine como fiquei quando descobri que não tem absolutamente NADA disso no livro? Quanto mais velho ficava, mais achava essa versão pedante e espalhafatosa, apesar dos momentos lúgubres e soturnos, e aquela paixonite do Conde sempre me irritou. Ao descobrir que nada daquilo existe na obra original, e que para sempre, o Nosferatu será a melhor representação até hoje de como Stoker descreveu aquela criatura horrenda morta-viva, veio o meu ranço que falei no primeiro parágrafo.

Então a lição de casa é: assistir Drácula de Bram Stoker e não levar como a fiel adaptação do livro só por ter o nome do autor no título (que na verdade, foi só para a Columbia não tomar um processo da Universal, que detém os direitos do título Drácula nos cinemas). E encarar que sim, o termo novelão é realmente o que melhor se encaixa. Com suas doses caprichadas de sangue, algumas atuações acima da média (Oldman, Hopkins, Waits), outras sofríveis (Reaves e Ryder) um trabalho pomposo e impecável artístico, poderia sim ser o filme definitivo do Conde, mas infelizmente é estragado pelo excesso de melodrama cafona quase adolescente.

Eu sou... Drácula!

Eu sou… Drácula!

Serviço de utilidade pública:

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Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. Celle disse:

    Copolla que me perdoe, mas não consigo gostar dessa versão.

  2. alucardcorner disse:

    Este é daqueles filmes que realmente se odeia ou se adora, lembro-me perfeitamente quando vi este filme pela primeira vez fiquei maravilhado, mas quando se revê o filme, e quando temos oportunidade de lermos o livro realmente começamos a desgostar do filme. Tem as suas boas coisas durante o filme, mas a tua critica vai exatamente ao encontro do que o filme representa.

  3. Por acaso estou relendo Drácula e, óbvio, as imagens dos filmes sempre vêm a minha mente. No livro, em um determinado momento, Jonathan Harker diz que Drácula fala com tanta clareza sobre a época das cruzadas que “parece ser uma testemunha ocular da história”. Isso abre uma discussão e pode ficar subentendido que ele é tão velho que pode ter realmente presenciado esses eventos. Mas, realmente, o que é retratado nesse filme não existe na obra original.

  4. Eduardo disse:

    Olá conheço seu blog a pouco tempo mas já gostei de muita coisas que vi, resenhas de filmes clássicos, fotos e informações adicionais muitos filmes como o de 1968 Curse of the Crimson Altar, eu nem conhecia e graças a este blog eu tive acesso a muitas informações além de conhecer outro excelente Blog por meio deste 101Horrormovies o Space Monster recomendo a todos este Blog … Mas todos temos uma resenha critica ou mesmo opinião sobre filmes, livros e musicas enfim artes no geral … eu até aqui vou deixar um pedido pra vc … se possível publique mais informações sobre o Vincent Price como biografia curiosidades e mais filmes tb ele tem muitas atuações incríveis como em Laura até chegar ao Museu de cera por exemplo e ir além dos anos 60 chegando com filmes com o personagem do Dr Death e Dr Phibes muito bons aos anos 70….
    Bom mas voltando a este Post sobre o filme do Coppola eu discordo de vc em Numero, Genero e Grau… pra mim este pode ser um filme infiel ao Livro mas tem o mesmo como base e pelo menos aos principais personagens … a trilha que é usada até hoje em diversos trailers a exaustão é impecável, Figurino, Efeitos Especiais que pra época foram excelentes, Fotografia , Direção e o Elenco de peso com ótimas atuações completaram o time muito forte pra quem já viu a edição dupla em DVD deste filme no disco bonus tem muitas entrevistas além do making of e toda preparação que os atores tiveram bem antes de começar as filmagens e interessantíssimo para quem nunca viu recomendo… tem toda a gravação da cena em que Mina bebe o sangue do peito do Dracula e ao quarto ser invadido Gary Oldamn se torna um Monstro e faz um discurso narrado com a frase olhe o que seu Deus fez comigo…. nesta cena Coppola pediu silencio absoluto e deixo que Gary Oldamn caminhar em volta do elenco falando todo tido de perversidade nos ouvidos com uma voz de Demonio para criar um clima mais Assustador no Set …tem as Vampiras do Castelo que seduzem Reaves entre elas a Italiana Belissíma Monica Bellucci… enfim tem muita coisa legal que ninguem nem imagina …. Eu realmente não entendo como alguem pode menosprezar este filme ou mesmo critica lo de forma negativa pra min ele é 5 Estrelas… Eu adoro os filmes de Dracula da Hammer com Christofer Lee um ator excelente sem comentários e ele é muito além de um Dracula (a Filmografia desta Lenda Viva é de Peso), adoro a Versão com Bela Lugosi de 1931 que é um outro Clássico Absoluto… mas gente tem tanta porcaria no mercado em nome do Dracula que … olha nem da pra falar as versões de 2002 para frente são medonhas a do Dario Argento pelo amor do Capeta e péssima demais … vergonha alheia total pra um diretor que fez filmes de terror italiano bons … bom como eu adoro uma banda de rock chamada KISS já estou acostumado a criticas negativas … muita gente fala mal mas todos escutam e vão ao Show… Dracula do Coppola de 1993 é a mesma coisa …

    Eu comprei o VHS na época (1994) e tenho até hoje, depois comprei o DVD Duplo e em 2012 o Bluray… o VHS vinha com um Poster que tenho até hoje …

    Recomendo o DVD Duplo…

    Abrç

    • Hey Eduardo. Bacana, esse espaço aqui de comentários é exatamente parta isso, para vocês deixarem suas opiniões, concordar, discordar, etc!

      Obrigado pelo “post”! 😉

      Abs

      Marcos

  5. Eduardo disse:

    Alias este é filme que faz parte de uma leva de excelentes filmes de Terror do anos 90 bem produzidos e com ótima direção, Bram Stoker’s Dracula 1993, Mary Shelley’s Frankenstein (1994), O Segredo de Mary Reilly 1996 e Entrevista com o Vampiro 1994…

  6. luiz beagle disse:

    acho drácula de bram stoker umas das melhores adaptações do livro, pra ser bem franco e usando a frase do site boca do inferno:o filme consegue ser melhor que o livro dando uma encorpada na história, eu sou fã do personagem,mas sejamos francos o livro é chato pra KCT.
    acho o filme uma aula de como fazer filme a moda antiga com seu efeitos visuais ..

    sobre o lance do amor imortal procurem dracula de 1973 dirigido pelo dan curtis e estrelado pelo jack palance, foi o primeiro filme a ter a história do amor reencarnado e a unir drácula e vlad!

    sobre fidelidade procurem a versão de 1977 da BBC na minha opinião é a mais fiel de todas!

    agora se querem algo diferente assistam o beijo do drácula uma versão da história que se passa nos dias atuais..

  7. Papa Emeritus disse:

    Fala, Marcos. Então, assim como Frankenstein de Mary Shelley de 1994, essa versão do Copolla de Drácula também foge do livro. Ainda prefiro Nosferatu como a melhor adaptação do livro de Bram Stoker pro cinema. Tanto a versão muda do Murnau quanto o remake do Herzog. Mesmo assim acho que o filme do Copolla tem lá seus bons momentos.

  8. amanda b disse:

    Me senti enganada tambem, acabo de ler o livro e me deparo com a realidade de que nao existe batalha inicial, nao existe reencarnaçao nem todo esse amor eterno! Que filme sem vergonha!

  9. […] tudo numa paródia de si mesma, sem humanidade, cheia de pompa e megalomania? Foi assim com o Drácula de Bram Stoker do Coppola e é assim com o Frankenstein de Mary Shelley, do shakespeariano Kenneth […]

  10. Luiz CARLOS disse:

    Gosto muito do filme e toda vez que assisto tento não pensar nele como terror, apesar de sua história se basear na maior personagem de todos os tempos…Gosto da construção estética do filme e seu ar romantizado das figuras dos personagens…É meio estranho, mas tento assisti-lo por um viés de filmes de romance, e assim você consegue ver um filme do caralho (desculpe o palavrão)…kkkk
    Bom, quanto a comparação com a obra original de Bram Stoker, realmente percebo essa pretensão de dar uma fechamento audiovisual ao livro…mas se você a ignora entra na premissa da liberdade de adaptação…E concordo com Geraldo de Fraga, sobre poder estar subentendido no livro a origem medieval de Drácula…

    Agora, só de curiosidade…não sei se vocês gostam, mas tem uma música do Raul Seixas que se chama “Conde Drácula”…excelente

    Para não ficar deselegante…Esse é meu primeiro comentário que faço no blog, apesar de acompanha-lo à alguns meses. Então gostaria de dar os parabéns pelo trabalho excelente com as críticas e agradecer por nos fazer relembrar tantas coisas bacanas…

  11. […] e produtores resolvessem ignorar completamente o gênero (salvo pretensas superproduções, como Drácula de Bram Stoker, Frankenstein de Mary Shelley, Entrevista com Vampiro, etc) e deixassem de investir no que era […]

  12. Jessica disse:

    ia curtir, mas não vou!
    sempre vu gostar do filme, mesmo sendo a enganação =)

  13. […] que o filme se desenrola, a excelente fotografia e a trilha sonora de Wojciech Kilar, o mesmo de Drácula de Bram Stoker. O final acaba esbarrando no cartunesco em uma conclusão um tanto quanto clichê e maniqueísta, […]

  14. Luiz Carlos Marcolino disse:

    Parabéns pelo post! Vi o filme quando passou a primeira vez na Band e adorei, mas quando li o livro, o filme perdeu muito do encanto. É um filme com sequencias fantásticas, mas no final das contas o Nosferatu original “mata a pau”!

  15. Heleno disse:

    Discordo o filme entra pra história de vez! Filmao colega crítico demais

  16. […] por Francis Ford Copolla. O diretor responsável pela trilogia O Poderoso Chefão, Apocalipse Now e Drácula de Bram Stoker, começou sua carreira dirigindo um filme B, preto e branco, plágio de Psicose, sob a batuta de […]

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