625 – Fome Animal (1992)

Dead Alive / Braindead

1992 / Nova Zelândia / 104 min / Direção: Peter Jackson / Roteiro: Stephen Sinclair, Frances Walsh, Peter Jackson / Produção: Jim Booth, Jaime Selkirk (Produtor Associado) / Elenco: Timothy Blame, Diana Peñalver, Elizabeth Moody, Ian Watkin

 

Fome Animal é o auge do cinema splatstick. Por mais que filmes anteriores como Uma Noite Alucinante, Re-Animator – A Hora dos Mortos-Vivos e A Volta dos Mortos-Vivos tenham se esforçado, Peter Jackson aqui chuta o balde e leva esse título com honrarias, com uma produção completamente nonsense, tosca, gore e nojenta. E você nem consegue imaginar que alguns anos depois ele seria o responsável por adaptar a trilogia O Senhor dos Aneis para as telas de cinema, produção que faturou 17 Oscars® ao total.

Acho que Fome Animal é o filme de terror mais escatológico dessa lista, quiçá da história do gênero. É a maior quantidade de podreira por película que eu já vi. Humor negro tão escrachado e surreal que chega a ser hilário. Cinema bagaceira em sua forma mais criativa e sublime. Nas locadoras da Suécia, quem alugava a fita levava um saco de vômito junto. Foi banido (novidade!!!) e retalhado em diversos países, incluindo Alemanha, Inglaterra (sempre a Inglaterra) e a Austrália. E não é para menos, foi gasto cerca de mil litros de sangue de porco durante as filmagens, sendo que metade disso se concentra somente na cena final.

Você conhece o Macaco Rato da Sumatra? Não? Nem eu. Mas ele é uma criatura tosca, que vive na ilha da Oceania e dizem na boca pequena que é usado pelos nativos para praticar magia negra. Eis que um zoológico de Wellington, capital da Nova Zelândia, quer levar o bicho para seu quadro de animais. Pois bem, em Wellington mora Lionel, um mimado e tímido filho de uma senhora controladora, Vera Cosgrove, daqueles que é criado com leite com pera.

Como alimentar um zumbi

Ele se envolve romanticamente com a quitandeira Paquita, conforme estava escrito nas cartas do tarô. Aos saírem para um idílico passeio ao zoológico, a mãe enxerida vai atrás para empatar o namoro dos dois e acidentalmente acaba sendo mordida pelo animal escroto, não antes dele ter se alimentado de um dos singelos macaquinhos do viveiro. E detalhe para a cena do ataque do Macaco Rato da Sumatra, que é toda feita em stop-motion. Um primor dos efeitos especiais. Só que ao contrário.

E como consequência da mordida do animal, Vera transforma-se em um zumbi e começa a espalhar a epidemia por toda a cidade, caindo nas costas do pobre Lionel tentar segurar o ímpeto da velha e impedir sua… fome animal. Para isso, ele tem a brilhante ideia de tentar controlar, à base de tranquilizantes fornecidos por um veterinário nazista (???!!!!) sua mãe e as outros zumbis, deixando-os confinados em sua casa. E isso dá pano para uma infinidade de bizarrices, como o jantar que ele prepara para os zumbis, ou colocá-los no porão para assistir televisão ou ouvir ao rádio. E esse convívio social dos zumbis resulta até em uma relação sexual entre a enfermeira zumbi e o padre zumbi, que geram um bebê zumbi (!!!!!!!????), que Lionel leva para passear no parque.

O filme é repleto de momentos antológicos, que extrapolam todo e qualquer limite do bom senso. Podemos destacar alguns, como a cena em que a presidenta da WLWL (Wellington Ladies Wellfare League, algo como Liga do Bem-Estar das Senhoras de Wellington) e seu marido vão almoçar na casa dos Cosgrove, enquanto Vera vai literalmente caindo aos pedaços e soltando pus e sangue no prato de sobremesa do convidado, que se delicia sem perceber o que está comendo e a velha come sua própria orelha que cai em sua tigela. É para estômagos fortes.

O terrível Macaco Rato da Sumatra!

Ou então quando um bando de zumbis punks faz arruaça no cemitério e o padre local mostra-se um verdadeiro kickboxer, dando uma de Bruce Lee lutando contra os mortos-vivos e distribuindo roundhouse kicks. E a sequência final, que acontece quando o inescrupuloso tio de Lionel e irmão de Vera, dá uma festa e todos ali são transformados em zumbi enquanto rola um imenso banho de sangue, com direito a gente sendo trucidada pela máquina de cortar grama.

Uma coisa que bebe diretamente na fonte de Sam Raimi e seu A Morte do Demônio e Uma Noite Alucinante é a forma como o personagem de Lionel, que é um babaca no começo do filme, vai se transformando em um porra louca conforme vai acabando com a vida dos zumbis e sendo coberto de sangue e mais sangue até o fim do terceiro ato.

Se você é daqueles puritanos que só gosta de cinema de arte, filmes cult, filosóficos, vindo do Irã ou do Paquistão, que discute as dúvidas existencialistas da vida, passe muito, mas muito longe desse filme. Porque capaz de você perder a fé na sétima arte. Agora se você é fã daquela bela podreira, dá risada com situações nojentas e escabrosas e está pouco se lixando com alguma profundidade do roteiro e só quer se divertir, Fome Animal, mais um clássico do Cine Trash da Band, foi feito com todo carinho para você.

Lionel é tipo Ash

Assista ao episódio do videocast do 101 Horror Movies comentando Fome Animal:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=TItsxiPQkoU]

Serviço de utilidade pública:

Atualmente o DVD de Fome Animal está fora de catálogo

Download: Torrent + legenda aqui.

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=BnCfUpw-i7A]


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

0 Comentários

  1. […] Leia a minha resenha sobre Fome Animal aqui. […]

  2. […] de clássicos vindouros como A Volta dos Mortos-Vivos, Re-Animator – A Hora dos Mortos-Vivos, Fome Animal e até os mais recentes Todo Mundo Quase Morto e […]

  3. Luis disse:

    O link está quebrado.

  4. Papa Emeritus disse:

    Pra mim esse é o melhor filme do Peter Jackson (fãs da Trilogia do Senhor dos Anéis joguem suas pedras em mim). rsrs

    Adoro tudo nesse filme, principalmente o fato dele se assumir como um humor negro despretensioso. Acho que é isso que torna ele tão adorável. E detalhe, eu já vi muita gente considerando esse filme como trash, mas ele é bastante bem feito e bem cuidado na parte técnica.

  5. Andrigo Mota disse:

    Pra mim, depois de evil dead (que eh o apice para este mortal) é o segundo filme mais foda do cosmos do terror…sem mais…
    E o melhor filme do Peter Jackson!!!!
    Lionel e Paquita rules

  6. […] Um filme que se chama Corrosão – Ameaça em seu Corpo (do original Body Melt, cuja tradução livre seria Corpo Derretido) só pode se esperar uma bagaceira repleta de splatter, com altas doses de humor negro e crítica social enrustida numa história bem tresloucada e nonsense, como manda o figurino dos filmes da Oceania. É a escola de Peter Jackson (que é neozelandês, ali do lado) e seus Trash – Náusea Total e Fome Animal. […]

  7. […] – Náusea Total ou dos litros e litros de sangue de porco gastos no escatológico e splatstick Fome Animal. Por se tratar de um filme de estúdio, até com uma pegada mais “família” até certo ponto, […]

  8. […] O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei) com seus splatsticks Uma Noite Alucinante (a mais óbvia) e Fome Animal. Roth tenta, de sua forma, atualizar os trejeitos desses dois clássicos escatológicos do splatter […]

  9. AndreiaPassos disse:

    O Filme q marcou minha infância…
    Nunca esqueci a cena da velha comendo o cachorro e a da orelha caindo na sopa…. 😀

  10. […] do trash neozelandês, que tem como expoente Peter Jackson e seu Trash – Náusea Total e Fome Animal, e conseguiu fazer algo muito além do esperado, mesmo com todos os clichês do gênero, como por […]

  11. […] Pois é, e se pensarmos em cinema de terror da Oceania, salvo alguns raros exemplos, é muito difícil não imaginá-lo como uma podreira gore camp de baixíssimo orçamento e do mais alto gabarito. Fora assim como diversos filmes do Ozploitation e nunca vamos nos esquecer do caso máximo de Peter Jackson, vindo da ilha vizinha, a terra do Kiwi (o animal, e não a fruta ou o jogo) com seu Trash – Náusea Total e Fome Animal. […]

  12. […] 7) “Eu chuto bundas pelo Senhor” – Padre McGruder – Fome Animal […]

  13. […] esses filmes são apenas “entretenimento pelo entretenimento”. Isso é realmente ruim? Seria Fome Animal mais que algo desenvolvimento puramente para entreter? O que dizer de Uma Noite Alucinante? Ou até […]

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