633 – Cronos (1993)

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1993 / México / 94 min / Direção: Guillermo Del Toro / Roteiro: Guillermo del Toro / Produção: Arhtur Gorson, Bertha Navarro; Francisco Murguía, Bernard L. Nussbaumer; Alejandro Springall (coprodutores); Julio Solórzano, Jorge Sánchez, Rafael Cruz (Produtores Associados) / Elenco: Frederico Luppi, Ron Perlman, Claudio Brook, Margarita Isabel, Tamara Shanath

Dentre os filmes mais inventivos sobre vampiros ou vampirismo, com certeza Cronos tem um lugar de destaque, ainda mais por se tratar do debute cinematográfico de Guillermo Del Toro, o diretor mexicano que mais tarde tornar-se-ia um dos principais nomes do cinema fantástico.

Aqui vemos um lampejo do gênio (sim, escrevo sem nenhum constrangimento) que Del Toro se tornaria, com suas contribuições para o gênero e para a cultura nerd, sci-fi e pop em geral. Só não se engane, pois ele possui participação em diversos outros filmes, como produtor ou roteirista, que não são dignos do sujeito, mas que tem seu nome grifado em letras garrafais em seus pôsteres para alardear seus espaço conquistado entre os fãs, com os péssimos Mama ou Não Tenha Medo do Escuro, e isso pode causar algum tipo de impressão errônea. Mas nada que um A Espinha do Diabo, O Labirinto do Fauno, O Orfanato ou mesmo Círculo de Fogo, não resolvam.

Bem, Cronos é uma fábula com todo o trejeito de Del Toro. É poético e impactante, dotado de uma beleza ímpar em sua construção, fotografia e direção de arte. A trama, também escrita pelo diretor, é de uma baita inventividade, em que hoje vemos certas semelhanças com o elogiadíssimo Deixa Ela Entrar (que fora escrito por John Ajvide Lindqvist mais de dez anos depois) e até na própria trilogia Noturno, escrita por Del Toro e Chuck Hogan, que virara a série The Strain.

Artefato

Artefato

Em seu prelúdio, o alquimista Humberto Oganelli (inspirado no famoso alquimista francês Fulcanelli) foge da Espanha para o México no ano de 1536, fugindo da inquisição, onde desenvolve um aparelho chamado “artefato cronos”, capaz de conceder vida eterna àquele que usá-lo. Quatro séculos se passa e em 1937, após um terremoto e consequentemente o desabar de um prédio, o alquimista é encontrado morto entre os escombros, com seu peito perfurado e com a pele acinzentada. Os objetos em sua antiga moradia são leiloados, e a estátua de um arcanjo chega ao antiquário de Jesus Gris (Frederico Luppi), onde em sua base, o artefato estava escondido.

Jesus acaba por acidentalmente, sempre observado de perto por sua amada neta, Aurora (Tamara Shanath), usando o aparelho, que se abre no formato de um inseto, agarrando-se a sua mão e sugando parte do seu sangue, enquanto uma estranha criatura parasitária dentro do mecanismo injeta um líquido em sua corrente sanguínea. O processo fará Jesus tornar-se cheio de vitalidade e vigor, porém, com uma estranha sede de sangue. Ou seja, mesmo o termo nunca sendo usado na película, ele vira um vampiro, mas sem o estereótipo da capa e presas.

Enquanto o nosso herói fica viciado naquela sensação maravilhosa que o dispositivo lhe proporciona, entram em cena os vilões, formados por De La Guardia (Claudio Brook) um sujeito vítima de uma doença terminal que encontrou o diário de Oganelli e busca pelo artefato para lhe garantir vida eterna, e seu famigerado sobrinho e capanga, Angel (vivido pelo ator fetiche de Del Toro, Ron Perlman). Após descobrirem que Jesus está de posso de cronos, Angel acaba causando sua morte na noite de ano novo, que irá dar início a sua transformação na verdadeira forma vampiresca, com sua pele cinza e ressecada, e, por conseguinte, sua busca por entendimento e vingança.

Sede de sangue

Sede de sangue

Apesar do enredo com suas nuances de terror e essa ideia onírica do vampirismo, Cronos também é um drama com detalhes profundamente enraizados na cultura latina e hispânica, principalmente no que tange a relação afetiva entre Jesus e sua neta, que não se importa dele estar se transformando em uma criatura sanguessuga de pele cinzenta, e está pronta para ajuda-lo, aceita-lo e acima de tudo amá-lo, como um bom dramalhão mexicano pede. Interessante também Del Toro virar a moeda no tratamento aos americanos. Enquanto nos filmes ianques, os mexicanos são todos mostrados como estereótipos, aqui o diretor fez questão de que Perlman e Brook interpretassem os vilões da forma mais caricata e maniqueísta possível, lembrando bastante a linguagem das HQs, outra das paixões e inspirações de Del Toro, que como bem sabemos, dirigiu dois personagens oriundos da oitava arte nos cinemas: Blade e Hellboy.

Cronos custou dois milhões de dólares e foi até então o mais caro filme mexicano já realizado. Seu orçamento inicial de 1,5 milhão estourou e Del Toro, para terminar sua obra, foi em busca do restante, tirando de seu próprio bolso e pedindo empréstimos, além de ter de efetuar cortes nos salários dos atores, como o caso de Perlman (iniciando-se aí uma longa amizade). A bilheteria foi um fracasso faturando pouco mais de 600 mil dólares. Porém foi bem recebido e vencedor de prêmios em diversos festivais de cinema, como Cannes, Stiges na Espanha e Fantasporto em Portugal, além de um Saturn Awards.

A benéfica exposição de Cronos abriu as portas para primeiramente, a Universal querer comprar os direitos para uma refilmagem americana, negado por Del Toro, e em seguida, ser convidado para dirigir Mutação para a Dimension Films/ Miramax, aí sim, seu primeiro sucesso comercial realizado nos EUA. O resto nós sabemos que é a história do cinema fantástico sendo escrita. E que nos faz cada vez mais ter vontade de assistir a FUCKING adaptação de “Nas Montanhas da Loucura” de Lovecraft que ele quer a tanto realizar!

O de vida eterna

O de vida eterna

Serviço de utilidade pública:

O DVD de Cronos não foi lançado no Brasil.

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

6 Comentários

  1. Papa Emeritus disse:

    Pra mim é um dos melhores filmes do Del Toro, mesmo sendo início de carreira o diretor já mostra sua forma peculiar de desenvolver uma história bem contada. Cara, eu estou louco pra que o Del Toro faça “Nas Montanhas da Loucura”. Por que o maldito Prometheus tinha que ser lançado justamente quando o Guillermo queria fazer a adaptação da obra de Lovecraft? Eu sei que o Del Toro disse que pelas histórias serem “semelhantes” podia prejudicar a bilheteria, mas caralho, eu quero ver um conto do Lovecraft bem adaptado e não uma prequel porcona de Alien. Riddley Scott, você já foi melhor que isso, o que aconteceu? Hahahahaha.

  2. Nito Franzoni disse:

    Olá Marcos!
    Primeiramente, que satisfação, viu! Eu não sei se estou no campo certo (provavelmente não, uma vez que nem tenha assistido ao ‘Cronos’), mas não podia deixar de registrar aqui a minha imensa felicidade e nem poupar elogios ao melhor e mais honesto trabalho já prestado aos fãs de terror no Brasil, desde os primórdios da internet. Suas resenhas fluem sem afetações, sempre bem articuladas e com a propriedade de alguém que conhece muito do gênero e, o mais legal, que não faz distinção às produções menores. Quem ama o terror na sua essência, como nós, provavelmente foi arrebatado pela magia da coisa em algum momento lá na infância, num tempo onde o Jason parecia mais nocivo que o diabo, alguém que cresceu e viu aquele medo genuíno se transformar num vício irreparável e entendeu que o horror de fato habita fora das telas.
    Conheci o blog e a sua figura tardiamente, num daqueles bate-papos esclarecedores com o pessoal da Versátil, ou um pouco antes disso. Reconheci de cara o porta-voz desse modesto e prematuro cinéfilo do terror (especialmente o setentista e sua linguagem mais crua), que passou a adolescência garimpando locadoras, alternando entre clássicos e tosquices devidamente representadas pelos títulos/subtítulos brasileiros mais improváveis (‘100.000 Volts de Terror’ tem lugar cativo!). Enfim, não quero me estender demais, apenas prestar gratidão e o mínimo reconhecimento pela iniciativa do canal, que já atinge produtoras como a Versátil e traz fôlego novo a um mercado tão subestimado. Parabéns, e avante! Sucesso ao 101 Horror Movies, sempre. Um abraço de fã.

    • Olá, Nito.

      Poxa fiquei emocionado com suas palavras. Eu não tenho palavras para agradecer! Muitíssimo obrigado mesmo. Fiquei extremamente feliz em conhecer fãs do horror que curtem meu trabalho no blog e que possa de alguma forma compartilhar minha paixão e até minhas histórias.

      Sempre comente quando quiser!

      Grande abraço.

      Marcos

  3. […] Mesmo deserdado por Guillermo Del Toro, Mutação é um excelente filme de “insetos gigantes assassinos”. Nada parecido com aqueles do subgênero dos big bugs dos anos 50, e sim, outra prova de todo o potencial fodástico que o diretor mexicano nerd-mor conseguiria alcançar futuramente, seguindo os passos projetados por seu longa anterior: Cronos. […]

  4. Gabreil disse:

    O link ta Offline

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