645 – À Beira da Loucura (1994)

In the Mouth of Madness

1994 / EUA / 95 min / Direção: John Carpenter / Roteiro: Michael De Luca / Produção: Sandy King, Artist Robinson (Produtor Associado), Michael De Luca (Produtor Executivo) / Elenco: Sam Neill, Jurgen Prochnow, Julie Carmen, Charlton Heston

 

Já disse aqui no blog o quanto é difícil transportar para as telas os contos do escritor americano H.P. Lovecraft. Seu universo cheio de seres pré-diluvianos, seitas ocultas do fim do mundo, alinhamentos cósmicos que deixam as pessoas loucas só de encontrá-los e criaturas pegajosas e tentaculares é muito crível e assustador no papel, mas transportado para uma nova mídia, pode ter efeitos desastrosos e descambar para o trash, como muitas vezes aconteceu. E de todos os filmes que eu já assisti, À Beira da Loucura de John Carpenter é o que mais se aproxima do texto do escritor.

Não é baseado especificamente em nenhum dos seus contos em particular, mas é como se fosse uma bela homenagem ao rei do indizível, pegando um pouco de cada uma de suas mitologias e criando um roteiro terrivelmente assustador, que coloca a humanidade em xeque, sucumbindo contra uma poderosa força que vivia adormecida na terra, até recobrar a consciência e resolver reivindicar o que é seu por direito.

À Beira da Loucura é com certeza um dos melhores e mais originais filmes de terror da década de 90, que deu um sopro de alívio em meio a muita porcaria que era lançada até então. É cheio de metáforas, labirintos psíquicos, quase como um pesadelo onírico, digno dos textos de Lovecraft. Há o elemento do investigador cético que quer desmascarar algo que acredita ser uma fraude. Há forças misteriosas além de nossa compreensão. Há um agente catalisador, nesse caso um livro, que pode implodir tudo que é sagrado nesse mundo. Há perda da sanidade e autonegação. Está tudo lá, em um filme repleto de efeitos de metalinguagem, bagunçando o discernimento nosso e dos personagens do que é real e o que é ficção.

Não sou louco não, doutor! Juro para você!

John Trent, interpretado pelo ótimo Sam Neill, é um investigador de seguros, especialista em descobrir golpes. Ele é contratado por uma seguradora de grande porte, onde um de seus clientes é uma editora de livros, para investigar um caso. Um dos escritores dessa editora é Sutter Cane, um verdadeiro fenômeno literário que tem seus livros esgotados no dia do seu lançamento. Cane é um escritor de terror, que segundo o próprio filme, vende mais que Stephen King, e seus livros provocam reações adversas naqueles que o leem, algo quase fundamentalista. Prestes a lançar seu último trabalho, Cane misteriosamente desaparece sem deixar vestígios e a seguradora acredita que isso não passa de um truque de marketing.

Empenhado em encontrá-lo e desmascarar a farsa, Trent começa a mergulhar no universo sombrio dos textos de Cane, o que começa a lhe trazer pesadelos. Observando elementos em comum em todas as capas de seus livros, Trent visualiza um mapa que ele deduz ser a cidade fictícia de Hobb’s End, palco de um de seus principais livros. O investigador e a agente literária de Cane, Linda Styles, vão a uma viagem em busca dessa cidade que não consta em nenhum mapa. É daí que os acontecimentos bizarros começam a tomar forma e os dois se veem envolvidos pela trama tal qual do livro, onde as crianças da cidadezinha são possuídas por uma terrível força maligna que vive escondida dentro de uma estranha catedral negra bizantina construída em pleno interior dos Estados Unidos, e começam a cometer todo tipo de atrocidade.

O que antes era apenas um embate de ideias entre a crente Styles e o cético Trent, vai indo por terra quando sua percepção de realidade começa a ser distorcida, até o fatídico encontro com o escritor desaparecido, que trabalha como um fantoche de uma força demoníaca muito maior, que poderá condenar a humanidade à sua destruição total se seu último livro realmente for publicado.

Deixe eu te mostrar uma coisinha…

O começo do filme, com Trent sendo levado a um hospício e desenhando cruzes com carvão nas paredes acolchoadas, seu rosto e roupas, prevendo o que está acontecendo do lado de fora e a onda de caos que se instalou na humanidade, já dá a pista de como a coisa vai sair do controle e brinca perfeitamente com essa questão metalinguística promovida por Carpenter. E sempre envolvendo um toque de religião e seus princípios fundamentalistas que tem como valor principal, doutrinar as pessoas, e como o efeito dessa doutrinação pode se tornar algo extremamente perigoso se manipulado da forma errada. Afinal, se todo mundo ler o livro de Cane, já que ele é o maior fenômeno de vendas de todos os tempos, e todo mundo assistir ao filme, todos serão afetados por suas palavras, algo que só a própria religião é capaz de fazer. O próprio Cane diz brilhantemente em certa passagem do filme: “Mais gente acredita no meu trabalho do que na Bíblia”. Esse é o grande golaço de Carpenter em À Beira da Loucura.

Entre as referências ao universo de Lovecraft encontradas no filme, está Trent desempenhando um papel paralelo ao de Charles Dexter Ward, famoso personagem que descobre coisas aterradoras sobre seus antepassados e resolve investigar a fundo, mergulhando no mundo do sobrenatural. Seu livro, Horror em Hobb’s End, lembra muito a história e o nome de seu conto Horror em Red Hook. A sinistra senhora que trabalha no único hotel de Hobb’s End é conhecida como Sra. Pickman. Pickman é outro personagem de um conto de Lovecraft, pintor cujos quadros de indescritível terror assombravam e causavam repulsa. E há um bizarro quadro que fica mudando de forma, pendurado bem no saguão do hotel. E por final, vale lembrar que o título original do filme, In the Mouth of Madness, lembra muito um dos contos mais famosos do escritor, At The Mountains of Madness, ou Nas Montanhas da Loucura (que serviu também como uma bela inspiração para outro filme de Carpenter, O Enigma de Outro Mundo).

Carpenter anos mais tarde voltaria a trabalhar com essa questão metalinguística e como uma obra de arte ou objeto por ser capaz de gerar reações adversas nas pessoas, em um episódio da série de TV, Masters of Horror, onde um investigador de filmes raros é contratado por um milionário para encontrar uma cópia perdida de um filme exibido uma única vez, onde todos que assistiram naquela fatídica sessão de cinema se mataram.

Você é o que você lê!

Serviço de utilidade pública:

O DVD de À Beira da Loucura foi porcamente lançado no Brasil como No Limite da Loucura por uma distribuidora minúscula, e está atualmente fora de catálogo (sim, fiquei revoltado porque nunca consegui comprar o DVD desse filme).

Download: Torrent + legenda aqui.


Marcos Brolia
Marcos Brolia
Jornalista, editor e idealizador do 101HM, é fanático por filmes de terror (ah, vá!) desde que se conhece por gente, dos classudos aos mais bagaceiras. Adoraria ter um papo de boteco com H.P. Lovecraft e virar um shot toda vez que ele falasse a palavra “indizível”.

14 Comentários

  1. Lucas Henderson disse:

    Um dos melhores filmes de terror que já vi! Sam Neill está espetacular! Uma curiosidade: Quando o Personagem principal está em um quarto de hotel, o filme sendo transmitido é Robot Monster, uma pelicula tão complicada de entender quanto as obras de Lovecraft.

  2. Diego Lobato disse:

    Começando agora no Space…vou assisti de novo esse filme sensacional!!!

  3. Joe disse:

    Agradecido pelo post. Quase 20 anos que não via esse filme

  4. Papa Emeritus disse:

    Um dos melhores filmes do Carpenter, e uma grande homenagem a obra de Lovecraft.

  5. Tony Sarkis disse:

    A maior referência a este filme é a peça O Rei de Amarelo adaptado por Robert W. Chambers para seu livro homonimo e não o livro Nas Montanhas da Loucura do Lovecraft, cuja obra é totalmente diferente do que é mostrado no filme, o universo lovecraftiano sim é mostrado nessa obra de forma soberba!!!

  6. marianaadiazz disse:

    Um dos meus filmes favoritos de todos os tempos. Muito bom mesmoooo!

  7. Cthulhu disse:

    Serviço de utilidade pública: a Versátil está lançando este filme em um box com mais dois filmes inspirados na obra do Mestre Lovecraft, “Re-Animator” (1985) e “Do Além” (1986), assim como o documentário “Lovecraft: Medo do Desconhecido”.

  8. Cinéfilo disse:

    Ótima crítica, destacando o que o filme tem. Tenho arrepios até hoje com o velho da bicicleta – “não me deixam ir”…hehe

    • Joe disse:

      A figura do velho esquisito pedalando aquela bicicleta ficou na cabeça por 20 anos, sem conseguir me lembrar a que filme pertencia essa cena. Assisti há pouco, por acaso, e a perturbação foi embora.

  9. Allan Denizart Nogueira Coêlho disse:

    Porque você não faz uma crítica sobre o filme Dark Waters do italiano Mariano Baino, um dos melhores filmes de terror dos anos 90 e a melhor adaptação já feita de uma obra de Lovecraft, o conto Sombra sobre Innsmouth, infinitamente superior a pobre versão de Stuart Gordon Dagon.

    • Poxa, não conheço esse daí… Que bacana, preciso dar uma olhada! Valeu pela dica, Allan!

      • Allan Denizart Nogueira Coêlho disse:

        O filme está disponível no YouTube e foi lançado em dvd em 2006 nos Estados Unidos, pela extinta distribidora Noshame films, em edição luxuosa com 2 dvds, incluindo making of, os primeiros curtas do Diretor Mariano Baino e uma réplica do amuleto de pedra visto no filme. Há um belo artigo sobre o filme, datado de 2007, de autoria do Marcelo Carrard, disponível no antigo site do bocadoinferno. Este filme merecia ser incluído em um dos pacotes da Versátil, pois nunca foi lançado no Brasil, nem em VHS.

  10. […] vai rolar Maratona John Carpenter no Cine Phenomena, exibindo Halloween – A Noite do Terror, À Beira da Loucura e Os Aventureiros do Bairro Proibido. Inteira é R$ 10 e meia R$ 5 para os três filmes. Infos […]

  11. Willian Bitencourt disse:

    Excelente filme ! Carpenter, como sempre, genial !

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